Gabriela Vasconcelos: "Santos tem uma diversidade territorial típica de grandes centros, com realidades distintas” (Alexsander Ferraz/AT) Santos é a cidade, entre as que têm população superior a 100 mil habitantes, com maior proporção de pessoas com 60 anos ou mais. A condição especial coloca a Cidade diante de uma oportunidade de se tornar referência a todo o País em como lidar com esse quadro etário mantendo a qualidade de vida, a produtividade e a economia saudável. A opinião é de Gabriela Vasconcelos, que na última semana participou do primeiro encontro do projeto Santos 500+, que propõe uma discussão sobre a cidade para as próximas duas décadas, quando chegará aos 500 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quando falamos em envelhecimento populacional, muitas vezes o debate vem carregado de preocupação. Mas é possível olhar para esse cenário como uma oportunidade para a cidade? Com certeza. Hoje, Santos reúne condições que colocam a cidade em uma posição estratégica para repensar o futuro urbano diante de um envelhecimento acelerado. Santos está à frente de todas as cidades do País e até de algumas do mundo nesse processo. Isso significa que a cidade já vive os efeitos de uma estrutura etária mais envelhecida. E quais são esses efeitos mais visíveis? Eles aparecem nos desafios urbanos ligados à mobilidade, à saúde, ao uso do espaço público, à moradia e à convivência social. Tudo isso já é concreto na realidade da cidade. Por isso, essa condição transforma Santos em um território de aprendizado, capaz de antecipar soluções que podem servir não apenas para si, mas também para outras cidades brasileiras. Como você organiza essa análise? Eu dividiria em quatro dimensões principais: a escala urbana de Santos, a diversidade territorial da cidade, o potencial de inovação urbana orientada à saúde e a integração entre políticas públicas. Se fosse para priorizar, eu começaria pela integração entre políticas públicas, a partir de uma revisão das políticas municipais com base nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde, no conceito de Cidade Amiga do Idoso. Esse conceito propõe cidades mais inclusivas, convidativas e confortáveis, integrando urbanismo e saúde. Quando falamos em integração entre políticas públicas, estamos falando da articulação entre saúde, urbanismo, meio ambiente, assistência social, mobilidade e habitação, superando a lógica setorial, em que cada área atua isoladamente. É planejar de forma integrada, considerando o impacto do desenho urbano na autonomia e na qualidade de vida ao longo do tempo. E como Santos pode se destacar nesse contexto? Justamente por transformar esse princípio em prática concreta, alinhando planejamento urbano e promoção da saúde. Isso já seria, por si só, um grande diferencial. Além disso, Santos tem uma escala urbana favorável: é uma cidade compacta, plana, com distâncias menores, o que facilita a implementação dessas políticas e o monitoramento dos resultados. Essa escala permite testar soluções. Santos pode ser vista como uma cidade-laboratório, um território onde intervenções podem ser testadas, avaliadas e aprimoradas com mais efetividade. Projetos voltados à mobilidade ativa, à acessibilidade das calçadas, à requalificação dos espaços públicos. O que é a mobilidade ativa? Caminhada, ciclismo, distâncias adequadas entre pontos de ônibus, acesso a serviços do cotidiano como farmácias e padarias. Para isso, é preciso qualificar os espaços: calçadas em boas condições, sinalização adequada, tempo de semáforo suficiente para a travessia dos idosos. São detalhes, mas com impacto direto e mensurável na vida das pessoas. Existem metodologias para orientar essas intervenções? Sim. No Insper Cidades, por exemplo, trabalhamos com metodologias de urbanismo social, voltadas à qualificação de áreas vulneráveis, e também com o placemaking, que envolve pesquisas de campo e participação da população. Essas metodologias ajudam a transformar espaços subutilizados em locais de convivência e fornecem ferramentas para reformular políticas públicas com base em evidências. E como entra a diversidade territorial de Santos nessa equação? Santos tem uma diversidade territorial típica de grandes centros, com realidades socioeconô-micas, urbanísticas e ambientais distintas dentro do mesmo município. Isso é fundamental porque o envelhecimento não acontece de forma homogênea. Ele é influenciado pelas condições do território, pelo acesso à infraestrutura urbana, áreas verdes e serviços públicos. Nas áreas periféricas, há ausência de equipamentos públicos, poucos espaços de convivência, mais ilhas de calor e menor ventilação. Essas condições impactam diretamente a saúde, agravando problemas como hipertensão e doenças cardiovasculares. Já em áreas nobres, há mais parques, calçadas adequadas, comércio de fácil acesso e serviços públicos próximos, o que melhora a qualidade de vida e a expectativa de vida da população. Como reduzir essa diferença? Testando políticas públicas em diferentes contextos, produzindo dados e evidências sobre o que funciona melhor em cada território. Isso permite reduzir desigualdades e promover um envelhecimento mais saudável. Em síntese, qual é a proposta central? Um olhar holístico, sistêmico, uma visão 360 da cidade. Pensar Santos como uma cidade-laboratório para o envelhecimento saudável, com políticas públicas integradas, participação da sociedade civil, envolvimento do setor privado e respeito à diversidade territorial. É uma construção coletiva, pensada como legado estratégico para os próximos 20 anos, para uma cidade mais justa, saudável e preparada para que as pessoas vivam mais e melhor.