O prefeito de Santos, Rogério Santos (Vanessa Rodrigues/AT) Em busca de sustentabilidade e atento a questões como as mudanças climáticas e os avanços tecnológicos, o prefeito de Santos, Rogério Santos (Republicanos), inicia o seu segundo mandato com projetos que prometem consolidar a cidade como um município de vanguarda, com oportunidade para todos e menos desigualdade social. Não é à toa que a reurbanização de áreas com ocupações irregulares é um dos focos da Administração Municipal, garantindo moradia digna para milhares de famílias. Segurança e mobilidade urbana também estão entre as prioridades ao se tratar da gestão de uma região marcada pela força do turismo e do setor portuário. Em entrevista para A Tribuna, Rogério falou sobre os principais investimentos e as perspectivas a curto, médio e longo prazos. Santos é uma cidade rica em história e tradição. Como você avalia a evolução do município ao longo dos anos? Santos é uma cidade que tem no seu DNA a inovação, o pioneirismo. Nós somos a primeira cidade no Brasil que teve plano de desenvolvimento urbano moderno, feito por Saturnino de Brito, com os canais. Somos uma cidade que tem origem no Porto, de braços abertos para o mundo. Toda a formação cultural brasileira e todas as pessoas que vieram de vários lugares do mundo, de vários continentes, entraram por Santos. Alguns ficaram aqui. Então, a nossa cultura é internacional. Você vê italianos, portugueses, japoneses, africanos, espanhóis, enfim, pessoas de todos os continentes. Essa é a característica de uma cidade portuária, ser inovadora. E os últimos anos têm sido assim. Santos se consolida como moderna, através da sua infraestrutura, do seu saneamento básico e de obras importantes. É uma cidade que também se caracteriza pelas suas instituições, muitas delas centenárias. A gente comemora agora, por exemplo, o aniversário da Santa Casa, que é anterior ao de Santos. Nós temos uma Beneficência Portuguesa, o Centro Espanhol, o Centro Português, a Humanitária, a escola portuguesa, instituições muito fortes e representativas como a OAB, as associações dos Médicos, dos Engenheiros, dos Dentistas. A gente já pratica a governança, com uma Associação Comercial também centenária e importante palco de grandes discussões. Somos uma cidade institucionalizada, nos permitindo a independência e a participação. Hoje se fala muito de ESG e Santos já o pratica há muito tempo. É uma cidade que evoluiu à frente do tempo, dando bons exemplos ao Brasil. Quais são os principais símbolos ou características que melhor representam Santos hoje? Olha, quem vem a Santos, sejam pessoas que desejam morar e estão há 5, 10 anos, ou poucos meses, a vê como uma cidade maravilhosa. Diariamente escuto, “prefeito, não tem cidade igual, eu daqui não saio mais, amo viver em Santos”. E o santista, que há muitos anos nasceu aqui, tem também esse olhar bairrista, bem crítico no sentido de buscar sempre o que é melhor para Santos. A gente tem orgulho de falar de Santos. E a característica principal é a qualidade de vida, isso é comprovado. Somos o sexto melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e sempre quando se fala em rankings de vários institutos sobre qualidade de vida e desenvolvimento econômico, Santos está entre as melhores. Rogério Santos: "Espero uma Santos com oportunidade para todos e menos desigualdades sociais” (Vanessa Rodrigues/AT) Durante sua gestão, quais foram os projetos e iniciativas mais significativos implementados para a melhoria da cidade? Além de projetos, tivemos momentos, e o mais significativo, quando eu entro na Prefeitura, é o pior momento da pandemia. Fomos uma das cidades que fizeram lockdown bem sucedido. Santos é uma das poucas cidades no mundo onde ninguém morreu por falta de atendimento, graças ao esforço que foi feito para abertura de leitos, o trabalho de prevenção e o próprio lockdown. Depois, trabalhamos para recuperar a economia, através de investimentos em infraestrutura. Fizemos obras que garantiram a segurança de pessoas nos morros, construímos a primeira estação elevatória da Zona Noroeste, mais pavimentação, drenagem em várias ruas, e quando você investe na cidade, você tem o retorno em geração de empregos e incentiva o privado a investir. Quebramos recordes no turismo e na economia também. Quando se fala em geração de empregos, foram vários programas importantes. A gente destaca os voltados à educação em período integral e também as obras que trouxeram impacto para a cidade, como o Novo Quebra-Mar, o Parque Valongo. Há ainda as habitacionais, como o maior conjunto habitacional dos últimos anos, o Tancredo Neves. Agora estamos tendo desafios com o Parque Palafitas e outros programas sociais que vão garantir ao longo do tempo o desenvolvimento de Santos de forma sustentável. Quais obras ou iniciativas recentes serão entregues como presente para a cidade? A obra mais simbólica para mim, dentro do que eu programei para esses oito anos, é a primeira policlínica do Dique da Vila Gilda. A gente programou várias ações para o Dique, fizemos um espaço de lazer para as crianças, com recursos da União Europeia, que é o campo de futebol Rei Pelé junto com o Instituto Johan Cruyff, fizemos a pavimentação dos caminhos do Dique da Vila Gilda, e, agora, vem a primeira policlínica do local. É olhar para o começo do meu trabalho como gestor público, pois sou da área da saúde e comecei em uma policlínica. Então, sei a importância de uma policlínica para uma comunidade. Há também a ampliação do Centro da Juventude, um prédio de cinco andares, onde a gente vai manter o programa e também trazer o conceito das Vilas Criativas, com capacitação, através de certificações do Sistema S, do Centro Paula Souza, oportunidade para as pessoas. Temos aí a primeira Etec-Fatec da Zona Noroeste, o primeiro hospital pediátrico público da Baixada Santista, e todo o trabalho que a gente faz na área de habitação. Quais têm sido os principais desafios enfrentados por uma cidade com características peculiares, como o Porto e o turismo? Eu destaco, primeiro, a segurança. Todo porto e aeroporto é rota de entrada, muitas vezes de contrabando de drogas e de armas. E uma cidade turística também tem que ser segura. Por isso, fizemos investimentos em tecnologia com as câmeras de segurança. Peguei a cidade com 1.700 câmeras, agora vamos entregar com 3 mil. Também é a primeira vez que a Guarda Municipal está armada. Realizamos concurso público para ampliar o efetivo em mais de 40%. Tivemos o terceiro Réveillon desde a retomada, depois da pandemia, com mais de um milhão de pessoas e zero ocorrências. Tive, na semana passada, uma reunião com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e diminuímos os indicadores de violência. A outra situação causada tanto pelo Porto quanto pelo turismo é o trânsito, a mobilidade urbana. Santos é uma cidade que tem um padrão de vida alto, uma frota proporcionalmente maior do que a de São Paulo. Enquanto lá é um automóvel para cada duas pessoas, aqui é um para cada uma pessoa e meia. E temos menos possibilidades de soluções viárias, como viadutos ou passagens por túneis, porque nossas ruas são estreitas. Temos aumento no número de automóveis na temporada e a mobilidade também é afetada pelo Porto. A gente bate recordes a cada ano e aumenta o número de caminhões na cidade. A vinda do transporte por trem ajuda muito, mas ainda enfrentamos esse desafio. Então, mobilidade urbana e segurança são, sim, duas políticas que são vinculadas à atividade portuária e ao turismo. Como você enxerga Santos em 10 ou 20 anos? A gente planta agora a Santos do futuro. Eu penso numa cidade como exemplo de sustentabilidade. Temos o desafio das mudanças climáticas, por isso estamos fazendo agora quatro novas estações elevatórias. Há o trabalho que faremos com o Porto na contenção da faixa de areia por conta da dragagem e a segurança da população que vive nos morros. Como a gente vive numa área de baixada, a gente tem que pensar justamente nisso, no aumento das marés e nas chuvas fortes. Chove em um dia o que deveria chover o mês inteiro. Isso aconteceu ano passado em Santos, e graças às obras que fizemos nos morros, não tivemos nenhum problema maior. São simplesmente medidas preventivas. Tem a parte da sustentabilidade e estamos fazendo a nova PPP do lixo, pensando em aumento da reciclagem, na melhoria do fluxo do consumo, que aumentou muito após a pandemia. Hoje, você compra tudo por comércio eletrônico, e isso aumenta o número de embalagens, o descarte de material reciclado. Então, essa PPP vem melhorar o sistema de coleta e a destinação do lixo. É pensar nesse futuro, naquilo que a gente vai deixar para os nossos netos. Isso, para mim, é fundamental. Essa Santos sustentável, do respeito, é a marca que a gente tem na nossa bandeira. Uma Santos de vanguarda, com oportunidade para todos, com menos desigualdades sociais. Como a população tem contribuído para o desenvolvimento da cidade? Há iniciativas que incentivem a participação popular? Somos uma das primeiras cidades no Brasil a ter um orçamento participativo, com a população votando, escolhendo projetos e programas para que a Prefeitura incentive no orçamento. Nós temos a participação dos jovens, desde as escolas, com o jovem ouvidor, o jovem doutor, em que a gente ensina através de parceria com a USP, com a Faculdade de Medicina, desde métodos preventivos até a telemedicina. Trabalhamos desde cedo a educação ambiental, a educação no trânsito, pois ninguém faz nada sozinho. Costumo falar que a gente tem mais de 1.300 pessoas todo dia de manhã cedo começando a limpeza pública e no fim desse dia a cidade volta a ter novamente a necessidade de limpeza. A cidade é dinâmica, então não adianta só a Prefeitura trabalhar, incentivamos a participação cidadã. Acho que esse é o grande diferencial de Santos. E quando falo que é uma cidade que tem instituições muito fortes, também é uma forma de participação da sociedade, através das associações, dos institutos, o terceiro setor que tanto colabora com o poder público. Quais programas sociais têm sido priorizados para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis? Santos tem três pontos que você pode falar que são de maior vulnerabilidade, todos ligados à habitação sem qualidade, subumanas. São as palafitas, no Dique da Vila Gilda, as áreas de invasão dos morros e as áreas de cortiço. São pontos de extrema pobreza. Nós temos um investimento de mais de 3.800 unidades habitacionais. O Parque Palafitas é um bom exemplo, um projeto-piloto, que vamos expandir. Também vou entregar 50 unidades habitacionais na região de cortiços. Estou produzindo mais de mil unidades habitacionais junto com o Governo do Estado, e mais quase 900 unidades através do empréstimo internacional pelo CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe), o programa Santos Mais. O investimento em habitação é o melhor para reduzir a desigualdade social. E quando a gente fala em habitação, um outro drama é a população em situação de rua. Esse é um grande dilema que o mundo vive e temos que investir mais, porque os resultados não têm sido os esperados. É trabalhar em conjunto, com entidades sociais, no abrigamento das pessoas, buscando oportunidades, com apoio de toda a sociedade. Qual é a sua avaliação sobre a atual relação entre o Porto de Santos e a cidade? A minha opinião é que nunca o Porto esteve de costas para a cidade, mas as decisões eram tomadas distantes. A gente vive um bom momento, uma ótima relação com a Autoridade Portuária, e os frutos são visíveis no Parque Valongo. Estamos com um armazém pronto, a nova passarela sendo finalizada, uma parte do bulevar suspenso sendo instalada e vamos começar o segundo armazém. Isso mostra a articulação com o Governo Federal e a relação próxima também com o Governo do Estado, os projetos da entrada de Santos, um novo viaduto, o túnel Santos-Guarujá, a nova pista da Imigrantes. São projetos de infraestrutura que interferem no Porto e no dia a dia da cidade. É um momento propício.