Do lado esquerdo, parede e detalhes artísticos restaurados; do lado direito, a antiga camada de tinta que encobria a pintura original (Vanessa rodrigues/AT) Sob camadas e camadas de tinta, repousava o tempo. Agora, pinceladas delicadas e as mãos pacientes de dois restauradores começam a revelar o que por décadas esteve escondido: a alma artística do século 19. No coração de Santos, mais um salão do imponente prédio centenário que abriga o Centro Cultural Português, o Salão Cerejeira, renasce em cores, formas e histórias. A restauração do Salão Cerejeira é mais um passo dado pelo presidente José Duarte de Almeida Alves, que há mais de uma década vem recuperando e restaurando todos os espaços do Centro Cultural Português, localizado na esquina das ruas Amador Bueno e Martim Afonso. Demontier e Andreia trabalham na restauração de todos os cômodos do centro, construído em 1898 (Vanessa Rodrigues/AT) O restauro desse cômodo começou em 2023 com a decapagem das camadas de tinta, para a identificação de cor e desenho originais. Esse trabalho, delicado e demorado, é feito com um bisturi, para que não se perca nenhum detalhe da paleta de cores que vai surgindo. No final dessa etapa, a conclusão: foram sete camadas de tinta ao longo dos anos, cobrindo inclusive os desenhos originais. Resgate histórico Andreia Naline trabalha no resgate artístico e histórico do Centro Cultural Português desde 2013, quando a primeira etapa foi contratada: a recuperação do Salão Camoniano, o principal espaço do centro, onde são realizadas todas as cerimônias da comunidade luso-brasileira. Junto ao teto, uma arte dos séculos 18 e 19 estava encoberta por tinta (Vanessa Rodrigues/AT) Nos dois salões, diz Andreia, o trabalho é de paciência e foco. No Camoniano não havia camadas de tinta cobrindo as pinturas, mas no Cerejeira tdas as paredes estavam lisas e sem desenhos. “Ao retirarmos as tintas, descobrimos elementos ricos das artes plásticas dos séculos 18 e 19.” Quando pinturas artísticas e desenhos são descobertos, nem sempre é possível identificar todos os contornos e a sequência de detalhes. Então, Andreia e Demontier Meireles Vasconcelos, que trabalha em sua equipe, usam uma técnica especial para recompor os contornos que faltam para dar a imagem completa. O mesmo acontece com as partes em madeira. Para recompor os desenhos, técnicas especiais de pintura são usadas (Vanessa Rodrigues/AT) Construído em 1898, o Centro Cultural Português tem estilo arquitetônico neomanuelino, que faz referência a um período das artes e da arquitetura portuguesas caracterizado por ornamentação inspirada na Era dos Descobrimentos. O trabalho no Salão Cerejeira deve consumir mais um ano e custará, no total, cerca de R\$ 700 mil. Para o presidente José Duarte, devolver ao antigo prédio suas características originais é um compromisso com a comunidade portuguesa e com a história, e sua intenção é restaurar, depois, todos os demais cômodos do casarão. Por ser tombado pelo patrimônio histórico, todos os projetos passam, antes, pela aprovação dos órgãos competentes.