Súditos do rei da Bélgica por um dia

Repleta de entusiasmo e reverência por parte dos santistas, visita histórica do rei Alberto I à cidade completa 100 anos amanhã; monarca deu o nome a importante via na Ponta da Praia

Caminho do Mar, 12 de outubro de 1920. O relógio marcava 12 horas em ponto quando o inusitado cortejo composto por 12 elegantes veículos iniciava a descida da Serra do Mar, superando cadenciadamente, uma a uma, as sinuosas curvas da estrada de Santos naquela manhã enevoada de terça-feira. À frente da elegante comitiva motorizada estava um monarca, o primeiro a atravessar aquelas paragens desde a última visita do velho imperador dom Pedro II a Santos, em 1888. Sua alteza, Alberto I, o rei da Bélgica, figura extraordinária, reconhecido como um dos grandes heróis da Primeira Guerra Mundial.

Clique aqui e assine A Tribuna por apenas R$ 1,90. Ganhe, na hora, acesso completo ao nosso Portal, dois meses de Globoplay grátis e, também, dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!

Ele já estava no Brasil fazia 23 dias, em companhia da esposa, a rainha Elizabeth da Bavária. A passagem por Santos não fazia parte dos planos do casal real. Porém, devido aos insistentes pedidos da colônia franco-belga de São Paulo, o famoso porto brasileiro foi incluído no roteiro. E, naquela altura, já estava agregado à comitiva o jovem herdeiro do trono do País de Flandres, o príncipe Leopoldo, de 18 anos.

À medida que os carros venciam o prístino caminho da Serra do Mar, apesar do nevoeiro e da fina chuva que insistia cair, Alberto se encantava com a cordilheira atlântica, a muralha que outrora impusera obstáculos aos desbravadores coloniais, e imaginava-se conquistando penhascos e promontórios, sonho característico aos amantes do alpinismo, tal como era o soberano belga.

Embora aquela não fosse uma cadeia montanhosa que impusesse desafios à altura de aventureiros da estirpe do líder da nação belga, acostumados a escalar os picos mais instigantes dos Alpes Suíços e Italianos, aquele maciço de rochas praticamente coberto de árvores nativas o intrigava. Quem sabe não se aventuraria escalando uma das cachoeiras locais?

Mas, não. Aquela não era hora reservada a deleites privativos, e sim aos compromissos protocolares que a posição de seu cargo impunha naquela viagem inédita e histórica ao Brasil, a primeira de um monarca europeu à América do Sul. Ele havia chegado ao Rio de Janeiro em 19 de setembro, sendo recepcionado pelo então presidente Epitácio Pessoa. Permaneceram na Capital Federal até o dia 28, onde tomavam banho de mar na famosa Praia de Copacabana quase todos os dias pela manhã.

Em seguida, foram até Teresópolis, Petrópolis, Belo Horizonte e São Paulo, onde chegaram em 4 de outubro. Foi na Capital Bandeirante, diante dos apelos feitos por membros da colônia franco-belga da cidade portuária, que decidiu conhecer a cidade que abrigava o tão aclamado Porto do Café.

Santos em festa

Assim, após vencerem a Serra do Mar, chegaram finalmente a Cubatão, no pé da Serra, onde o intenso tráfego de veículos chamou a atenção dos poucos moradores daquele arrabalde. Mais à frente, na altura do Saboó, uma comissão de autoridades santistas aguardava a visita ilustre e real. Dava-se ali, então, a transformação momentânea da terra santista em território simbólico belga.

A quantidade de pessoas que lotavam as ruas da cidade era impressionante. Já no Valongo, uma grande massa popular se deslocou para saudar o soberano estrangeiro. Como estamparia o jornal A Tribuna no noticiário do dia seguinte, “o entusiasmo do povo não conheceu barreiras nem se preocupou com as exigências protocolares”. Os santistas, embora afeitos a visitantes ilustres, em função do porto, protagonizaram algo até então nunca visto. Afinal, não era todo dia que a velha cidade recebia a visita de um rei, uma rainha e um príncipe europeu.

A curiosidade despertou a atenção de crianças, jovens e das mulheres, que ficaram encantadas com o requinte da vestimenta dos soberanos belgas, sobretudo da rainha Elizabeth da Bavária. O presidente do Estado de São Paulo, Washington Luís, também presente na comitiva, fez às vezes de cicerone de Alberto I e os seus acompanhantes, ao lado do prefeito santista, coronel Joaquim Montenegro, que recebeu das mãos de Alberto I a medalha da Ordem de Leopoldo II (tio de Alberto I, a quem sucedeu no trono em 23 de dezembro de 1909). Como intérprete, fez o papel o vice-cônsul belga em Santos, Júlio Dineux.

O cortejo real passou pelas principais vias da Cidade, atraindo multidões. Bondes lotados de curiosos paravam ao longo do caminho. Os carros passaram pelas ruas São Leopoldo, Marquês de Herval, São Bento e Santo Antônio (atual Rua do Comércio), sob chuvas de flores. Na altura da Rua XV de Novembro, diante da Bolsa de Café (a antiga, abrigada no Palacete Pedro Santos - esquina com a atual Rua do Comércio), a banda de música da Sociedade Colonial Portuguesa tocava os hinos do Brasil e da Bélgica.

Os visitantes estavam entusiasmados com a recepção calorosa. Defronte à Praça Barão do Rio Branco, a companhia do Tiro 11 formou duas linhas de apresentação. O cortejo prosseguiu sob aplausos e gritos de vivas pelas ruas Senador Feijó, Rangel Pestana e Ana Costa, descendo até a praia, até chegarem ao suntuoso Hotel Parque Balneário, onde faustoso almoço fora preparado.

Os compromissos de Alberto I e seus acompanhantes em Santos incluíram visitas à Cia. Docas, à Alfândega e aos armazéns belgas, que se espalhavam pela rua Amador Bueno. Já no final do dia, a comitiva se dirigiu à estação de trem do Valongo, onde uma composição fora especialmente preparada para levar de volta à Capital Bandeirante o ilustre soberano europeu, que deixou marcas indeléveis na vetusta cidade portuária.

Eram 16h10 quando a locomotiva especial silvou o apito e iniciou sua marcha na direção da Serra do Mar, a grande cadeia de montanhas que encantou o monarca europeu, tanto quanto o calor do entusiasmo dos santistas, que por um dia se tornaram súditos do altivo rei Alberto I.

Tudo sobre: