A paixão dela pelo terror remonta à juventude, quando os filmes provocavam mais fascínio do que medo (Arquivo pessoal) Uma réplica da boneca Annabelle, personagem famosa dos filmes de terror, tem chamado a atenção de quem passa pela Rua XV de Novembro, no Centro de Santos. Vestida de branco e com cabelos vermelhos, a peça foi colocada na entrada da Secretaria de Desenvolvimento Social, órgão ligado à Prefeitura, e vem despertando curiosidade — e alguns sustos — entre os pedestres, especialmente neste período de Halloween, acompanhada de uma decoração especial. “A Annabelle não está ali para assustar de verdade, mas para brincar com o imaginário de quem passa pela rua”, afirma a funcionária pública e artesã Cláudia Campos, de 57 anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Criadora da boneca, ela atua na Secretaria e é responsável por transformar materiais simples, como tecido, plástico e tinta, em personagens inspirados no universo do terror. A boneca faz parte de uma série de produções artísticas da servidora, que costuma decorar o ambiente de trabalho com suas criações temáticas. Nascida em Santos, a artista trabalha desde os 15 anos para ajudar na renda familiar após o adoecimento do pai, sempre procurando trabalhos em que pudesse usar sua criatividade. “Organização de eventos e decoração é a minha verdadeira escapada da realidade e o meu prazer de ‘brincar’ com a diversão alheia”, explica. Em 2013, após ter abandonado o ramo de buffets, Cláudia recebeu um convite especial para decorar uma festa da Associação Atlética Portuguesa Santista, o que deu início à sua nova trajetória. Mas foi a comemoração de Halloween que despertou sua paixão por criar bonecos, marcando o início de seu “novo mundo”. “Aquela festa me inspirou a começar a criar bonecos. No começo, improvisei figuras feitas com TNT, máscaras e cabides. O desafio era criar decoração com materiais baratos. E deu certo”, revela a artista. Cláudia, após o sucesso da festa, viu a oportunidade de experimentar algo diferente no ano seguinte, iniciando sua trajetória com as artes plásticas. Sua primeira criação foi o icônico e temido Chucky, e Tiffany, sua esposa, em seguida. Com o passar do tempo, expandiu seu repertório, incorporando fantasmas, o célebre livro de feitiços das irmãs Sanderson, do filme Abracadabra, e até uma miniatura de uma casa assombrada. Após dois anos imersa nesse universo, a atual servidora pública decidiu criar uma réplica da boneca Annabelle, mergulhando nos detalhes para trazer à vida o clássico do terror com um aspecto verdadeiramente perturbador. Alcançar a aparência impactante que ela desejava, no entanto, não foi fácil. A boneca passou por várias alterações, e, insatisfeita com as primeiras versões, Cláudia fez uma restauração completa até que sua obra se tornasse vívida e assustadora como ela imaginava. A paixão dela pelo terror remonta à juventude, quando os filmes provocavam mais fascínio do que medo. “Sobre os rumores de que meus bonecos são ‘amaldiçoados’, eu não acredito nisso. Para mim, a verdadeira maldade é um defeito humano, e por mais que meu trabalho possa parecer sombrio, o que me assusta de verdade são as pessoas vivas”. Para provar sua descrença, guarda todas as suas criações no quarto. “E para ser sincera, eu nem assisti Annabelle”, a artista confessa. Personagens de terror e figuras folclóricas adaptadas para festas, como Halloween, Natal e até mesmo Festa Junina marcam presença no local (Arquivo pessoal) Após se tornar responsável pela decoração de vários eventos, passou por um momento de realização e tristeza durante sua última festa para a sede do clube de futebol Associação Atlética Portuguesa Santista, em 2019. Ela explica que a gestão do clube sofreu algumas mudanças, que levaram ao fim da realização das tradicionais festas temáticas. “Assim, as festas acabaram, mas as minhas criações, os ‘meus filhos’, continuaram comigo”. Hoje, é na Secretaria de Desenvolvimento Social que seus bonecos ganham vida, com ou sem festa, e divertem os colegas de trabalho. O processo criativo das peças também se tornou uma maneira de lidar com a ansiedade e o luto pela perda dos pais. No auge da pandemia, ela encontrou alívio ao criar uma nova réplica da Annabelle, inspirada na versão de pano da história original dos Warren. Esse processo artístico serviu como uma forma de terapia, ajudando a transformar a tristeza em arte e a evoluir em seu estilo artesanal. O hobby por criar bonecos e decorações extravagantes ganhou um espaço especial no seu local de trabalho, principalmente em épocas festivas, onde transforma o escritório burocrático em um cenário completamente lúdico. Motivada pelo desejo de deixar o ambiente mais leve, a ideia de colocar Annabelle na entrada do lugar surgiu de forma quase espontânea. “Minha colega, que duvidava da existência da boneca, sugeriu que eu a trouxesse ao trabalho. Eu trouxe, e então, em meio a risos, tivemos a ideia de deixar Annabelle na porta para observar as reações das pessoas ao se depararem com minha criação”. Além da boneca, a artista também decora o escritório com outras de suas criações, independentemente da época do ano. Personagens de terror e figuras folclóricas adaptadas para festas, como Halloween, Natal e até mesmo Festa Junina marcam presença no local. Sua habilidade de transformar o ambiente reflete não apenas seu talento artístico, mas também sua busca por momentos de leveza em meio à seriedade do serviço público. “A Annabelle transforma a rotina de todos que a vêem, tanto aqui dentro quanto lá fora (da rua”, brinca Cláudia. *Reportagem feita como parte do Projeto Laboratório de Notícias, da UNISANTOS, sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.