EDIÇÃO DIGITAL

Sexta-feira

14 de Agosto de 2020

Quitanda é oásis de simplicidade na Ponta da Praia

Seu Manoel, sergipano de 71 anos, mantém comércio 'raiz' em um dos bairros que mais crescem em Santos

De batata a caixa de fósforo, de vassoura e rodo a panelas e assadeiras, de verduras e frutas a copos descartáveis e pequenos materiais elétricos, ali tem de tudo um pouco. “Não posso correr o risco do freguês chegar aqui, pedir e eu dizer que não tem”, justifica o sergipano baixinho e falante que comanda uma das últimas quitandas do bairro há mais de 30 anos.

Manoel dos Anjos Santos fica em uma das esquinas mais movimentadas de um dos bairros que mais se transformam em Santos: a Praça Coração de Maria, na confluência da Avenida dos Bancários com Rua Dino Bueno, na Ponta da Praia.

O lugar remete aos anos 70 ou 80, como escreveu a advogada Patrícia Gorisch em sua rede social, esta semana, e que desencadeou mais de uma centena de comentários. 

Patrícia, que conheceu a “vendinha” de seu Manoel por acaso, ficou impressionada com o jeito simples e inusitado com que ele lida com a clientela. Pelos comentários postos em sua rede social, a impressão é de que as pessoas carecem de lugares assim, mais intimistas.

Segredos

Quem passa em frente ao pequeno comércio não imagina o que tem lá dentro. Em 40 metros quadrados, difícil é dizer o que não tem.

Para abastecer sua venda de toda sorte de hortifrutis, seu Manoel acorda às 3 da manhã pra ir ao Mercado Municipal. Abre as portas às 7 e fecha às 8 da noite. De segunda a domingo. Para “tocar” a vendinha com ele, apenas um funcionário, que faz as entregas pelo bairro de bicicleta. 

Frutas exóticas e coloridas vêm do Mercado Municipal, onde seu Manoel vai no início da madrugada (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Seu Manoel veio de Sergipe quando tinha 9 anos e nunca mais retornou à terra natal. Está há 50 anos no comércio de hortifrutis. Já foi feirante e já trabalhou no Mercado Municipal, mas foi no comércio de rua que se encontrou. “Aqui a gente conhece todo mundo, quando chega no final da tarde vêm os vizinhos e botam as cadeiras na calçada. Isso não tem preço”.

No bairro que abriga supermercados, empórios e padarias gourmets, a vendinha de seu Manoel não trabalha sequer com cartão. Tudo é a dinheiro. E se o cliente não tem dinheiro? “Paga quando puder”, responde seu Manoel.

Pois essa é uma regra na velha quitanda. “Eu conheço todo mundo. E quando não conheço, sei avaliar se é honesto ou não. Confio que virá me pagar quando tiver”. Nota promissória? Não. Caderneta de anotação? Não. “Eu gravo na memória ou em papeletas que estão por aí”. E se o cliente não vier pagar, pode ter certeza que seu Manoel vai saber identificá-lo se eventualmente retornar ali.

Terra prometida
Sem férias há mais de 30 anos, seu Manoel viu o tempo passar na Ponta da Praia ao longo dos anos. Lembra ainda quando o ex-jogador Pelé morava no bairro, em um casarão que depois virão prédio. “Eu morava em frente à casa dele”.

Lembra também de quando as ruas eram de terra batida, e as crianças jogavam bola, taco e bolinha de gude. “Hoje os meninos e meninas nem sabem mais o que é isso”, diz.

Sobre o futuro? Seu Manoel não sabe dizer. A mulher e os quatro filhos conduzem outro comércio semelhante, na Rua Trabulsi. “Eu vou ficando por aqui enquanto Deus me der força”. E também é na Palavra de Deus que o sergipano Manoel busca o conforto nas horas difíceis.

Dentro de sua Canaã, nome da quitanda e que significa a “terra prometida pelo Senhor”, um livro está sempre a mão: a Bíblia. Envelhecida e com as folhas soltas e amareladas pelo uso, é a leitura diária várias vezes ao longo da jornada.

Seu Manoel encerra a entrevista abrindo em uma página qualquer: “Louvarei ao Senhor e a Ele entregarei minha alma. Quem é o homem que deseja a vida, que quer largos dias para ver o bem? Guarda a tua língua do mal, e os teus lábios de falarem o engano. Aparta-te do mal, e faze o bem; procura a paz, e segue-a. Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos ao seu clamor. A face do Senhor está contra os que fazem o mal, para desarraigar da terra a memória deles. Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angústias”. Amém!

Tudo sobre: