Cassino Parque Balneário: Era a maior atração do luxuoso hotel de propriedade dos irmãos Fraccarolli, e tido como um dos cassinos mais elegantes do Estado. Com o letreiro em alemão Kursaal, atraía principalmente hóspedes estrangeiros, como tripulantes de navios europeus. Funcionava como espaço sofisticado de jogos e convivência da elite santista, promovendo recepções, shows e eventos de prestígio. Mesmo após a proibição dos jogos em 1946 pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, as mesas de baccarat e roleta ainda funcionaram por algum tempo, com fichas de madrepérola circulando discretamente no salão do hotel. (Reprodução) Santos, 3 de agosto de 1935. A noite estava fria e levemente úmida, como costumam ser os invernos na cidade portuária. Neste cenário, o Cassino do Monte Serrat abria suas portas com brilho e sofisticação, acolhendo mais uma vez sua fiel clientela, além de alguns visitantes vindos de fora. No alto do morro, acessado pelo bonde funicular que deslizava suavemente pela encosta, o salão principal resplandecia. Estava repleto de senhores em ternos escuros, alguns em impecáveis uniformes da marinha mercante, e de senhoras envoltas em estolas de pele, que desfilavam com natural distinção entre as mesas de jogo, o bar e a pista de dança. Cassino do Grande Hotel: Frequentado pela elite paulista, que transformou o Guarujá em um balneário de luxo. Com a proibição dos jogos em 1946, foi desativado, marcando o fim de uma era de glamour no Guarujá, intimamente ligada ao auge do hotel (Reprodução) No palco, uma orquestra afinada comandava o ritmo da noite, alternando foxtrotes, tangos e sambas-canção, embalando passos ritmados e conversas discretas sob o brilho cálido dos lustres de cristal. O Cassino do Monte Serrat, com sua arquitetura imponente, marcada por colunas em estilo art déco e vitrais coloridos, destacava-se pela elegância de seus salões, bem como uma vista privilegiada da velha cidade e seu porto. O lugar era considerado um dos mais sofisticados e frequentados da região. Porém, não reinava sozinho. A Baixada Santista vivia na época o auge da era dos jogos de azar, com outros cassinos igualmente concorridos. No Guarujá, o Hotel La Plage mantinha seu próprio salão de jogos, atraindo a elite paulistana que atravessava a balsa em busca de luxo e lazer. Em São Vicente, o Ilha Porchat promovia jogos e festas frequentadas por um público seleto. Era o chamado Paraíso do Atlântico. Cassino Ilha Porchat: Também chamado de Casino São Vicente, foi a primeira construção elegante no local, frequentado por pessoas de alto padrão vindas de toda a região. Durante o período de auge dos cassinos no Brasil nas décadas de 1930 e 1940, o lugar era referência regional de entretenimento sofisticado. Após a proibição nacional dos cassinos em 1946, o Cassino da Ilha Porchat foi extinto. Posteriormente, o edifício deu lugar, em 1967, ao Ilha Porchat Clube, marcando a transição para um novo tipo de uso social e cultural. (Reprodução) Já o mais emblemático talvez fosse o cassino do Parque Balneário Hotel, no Gonzaga, cujo letreiro luminoso exibia a palavra Kursaal — estrategicamente posicionado para ser avistado pelos marinheiros que entravam pela barra do porto de Santos. Todos esses espaços funcionavam como verdadeiros centros de convivência, entretenimento e consumo, reunindo artistas, políticos, empresários e visitantes estrangeiros. Para os santistas, a presença dos cassinos representava a movimentação da economia local, o incentivo ao turismo e atribuía à cidade e à região um perfil cosmopolita, inserindo-as com destaque na rota nacional do luxo e do lazer. Cassino Atlântico: Funcionou a partir dos anos 1930, como parte da Companhia Atlântico Hotel Theatro e Cassino, ocupando amplos salões no luxuoso edifício da esquina da Av. Ana Costa com a Av. Presidente Wilson. Integrado ao Cine-Teatro Cassino Atlântico, o espaço combinava jogos, cinema ao ar livre com teto retrátil, bailes e eventos frequentados pela elite santista. Com a proibição dos jogos em 1946 e a posterior ampliação do hotel, o cassino foi desativado e o cinema deu lugar ao Cine Gonzaga em 1947. (Reprodução) Cassino do Monte Serrat Inaugurado em julho de 1927, poucos meses após a entrada em operação do bondinho funicular. Projetado por imigrantes espanhóis, o espaço era altamente luxuoso, com materiais importados e frequentado por artistas renomados e figuras influentes. Funcionou legalmente até 1946, quando o jogo foi proibido no Brasil. A partir daí, operou de forma clandestina por algum tempo. Após o encerramento definitivo, a empresa responsável pelo bondinho tornou-se familiar, mantendo a atração turística em funcionamento. Como tudo começou As casas de apostas eram proibidas no Brasil desde os tempos do Império. Foi somente na década de 1920, durante o governo de Epitácio Pessoa, que a atividade acabou sendo regulamentada, com a autorização condicionada à instalação desses estabelecimentos em “estâncias balneárias, climáticas e de águas” — ou seja, em cidades com vocação turística, como era Santos, Guarujá e São Vicente. A intenção era impulsionar o turismo de lazer no País. Com a liberação, muitos hotéis passaram a contar com cassinos (como o Parque Balneário, o Atlântico, o La Plage e o Recreio Miramar), atraindo visitantes dispostos a gastar mais nesses ambientes de entretenimento. A medida funcionou por algum tempo, mas logo surgiram obstáculos: decisões judiciais, leis estaduais, resistência de prefeitos e até o próprio Governo Federal criaram um cenário de instabilidade, resultando no fechamento de diversos destes estabelecimentos. Mas esses não foram casos que ocorriam na Baixada Santista, onde os cassinos prosperaram, principalmente nos tempos de guerra, quando a única opção de lazer da elite de São Paulo era descer a Serra do Mar e passar férias em Santos, São Vicente e Guarujá. Nestas duas páginas, o leitor pode relembrar alguns cassinos icônicos da região. O Fim Após a queda de Getulio Vargas, em 1946, a eleição presidencial foi marcada pela polarização entre Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes. Ao prometer fechar os cassinos, Gomes perdeu o apoio dos donos das casas de jogo, que passaram a apoiar Dutra. No entanto, já eleito, Dutra surpreendeu ao decretar o fim dos jogos de azar em abril daquele ano. A medida foi atribuída a vários fatores: desejo de romper com a Era Vargas, influência do ministro da Justiça, Carlos Luz, e principalmente da primeira-dama Carmela Dutra, de fortes convicções católicas e contrária ao ambiente dos cassinos. O argumento oficial era de que os jogos contrariavam a tradição moral, jurídica e religiosa do País. Apesar do apoio da imprensa, o impacto econômico foi significativo. A promessa de Vargas de indenizar os trabalhadores não foi cumprida e cerca de 60 mil empregos foram afetados, prejudicando cidades turísticas como Santos, Guarujá e São Vicente, que nunca mais reviveram o glamour dos cassinos. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR.