Pipoqueiro faz sucesso há mais de 40 anos no Boqueirão em Santos: 'Nem penso em parar'

Severino Ramos da Silva, de 65 anos, conta como aprendeu a ler sozinho e revela a receita perfeita para o sucesso de quatro décadas

O tabuleiro de damas sobre a panela improvisada como mesa não dá conta de todas as peças da vida. O jogo está de vento em popa para Severino Ramos da Silva, de 65 anos. Há duas realidades coexistindo: a da partida, contra um dos muitos amigos que o encontram na esquina da Rua Ângelo Guerra com a avenida da praia, no Boqueirão, em Santos, e a do carrinho de pipoca com que, há 41 anos, naquele ponto, vence os jogos da existência. 

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Chegamos no momento de uma jogada de Severino. Ele interrompe a distração e nos dispensa, a princípio, apenas um punhado de atenção. A parcimônia nas palavras é o pior que um repórter pode esperar de um entrevistado. No caso dele, é provavelmente fruto de quem sabe o valor das palavras, ao ter aprendido muito tarde a ler e a escrever – e de maneira inusitada, como veremos. 

Mas esta é sobretudo a história de um pipoqueiro e seu carrinho. E de como ele tem a melhor pipoca doce de Santos, segundo os próprios clientes. Com ele, não há sabor de groselha, muito menos corante: é à moda antiga. “Misturo água e açúcar e mexo até dar o ponto. Não tem segredo: continuo fazendo como aprendi há 41 anos”. Sem desviar do que aprendeu, funcionando das 16 às 22 horas, de domingo a domingo, o carrinho lhe permitiu criar os dois filhos, hoje militares.

Destino

Nascido em Alexandria, não no Egito, mas no Rio Grande do Norte, Severino chegou com a mulher a Santos, em 1979. Veio como tantos outros migrantes: por uma vida melhor. Escolheu a Cidade porque já tinha por aqui uma tia, que lhe deu abrigo e uma referência. Aos 24 anos, atirou-se à procura de emprego. O insucesso na busca o levou à compra do carrinho. Sobre como soube que o ponto estava à venda e as economias para a aquisição, é reticente. Resume em uma palavra: destino. 

Nesse momento, o destino mostrou a sua face pela primeira vez naquela tarde. Aliás, quatro faces, em um automóvel que parou cirurgicamente ao lado do carrinho. “Severino, vê dois amendoins pra gente, por favor!”, disse o passageiro.

Se a pipoca continua igual há 41 anos, nem por isso ele deixou de incorporar algumas novidades ao longo das décadas. Hoje, vende também amendoins doces e salgados e o ‘coquinho’ – lascas do fruto no açúcar queimado. “A gente já conhece ele, sempre passa por aqui. Estamos indo para São Paulo”, explica o passageiro, revelando a origem de três ocupantes do carro. O quarto era daqui mesmo.

Futebol e Placar

Enquanto atende outro grupo de fregueses e lança um olhar investigativo à sua posição no tabuleiro de damas, surpreende ao revelar qual é o seu maior sonho: “Conhecer a Malala Yousafzai”. Inusitado, mas compreensível, já que a ativista paquistanesa pelos Direitos Humanos das mulheres, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2014, reúne dois interesses capitais para Severino: o Oriente Médio e a Educação. “A Educação é a melhor coisa do mundo. A pessoa que estuda tem o caminho para mudar a vida”.

Detalhe: Severino nunca pôs os pés em uma sala de aula, como afirma. Botafoguense e apaixonado por futebol, aprendeu a ler sozinho, já em Santos, a partir da fascinação pela antiga revista Placar. “Conhecia um pouco, juntava outro pouco, tentava, perguntava alguma coisa e fui indo assim. Vi na tevê que de cada 1 milhão, só uma pessoa aprende assim”.

Munido da letra, passou a construir seu mundo. Mergulhou em livros e revistas sobre Irã, Iraque, saddams, aiatolás, Afeganistão, talibã. Discorre sobre a geopolítica e a História do Oriente Médio como um catedrático. “Imagina, chegar aos 40, 50 anos sem saber ler? De que adianta? A vida não vale muito assim”. 

Gerações

Nesse momento, surge Sonia Kapulskis e pede um saquinho de pipoca doce para a mãe. “Ela adora. É a melhor pipoca de Santos. Porque ele faz tudo fresquinho”, derrete-se. Severino fica meio sem jeito. Move uma peça no tabuleiro e entrega no colo de Edvaldo da Paixão, o parceiro de damas, o ônus do próximo movimento. “Ele joga muito bem”. Também pudera: Severino foi quatro vezes campeão da Baixada Santista. A última delas em 2014. 

Outras vitórias incluem gente como dona Sonia citada acima. Severino viu crianças crescerem com a pipoca da sua panela; depois vieram os filhos delas; agora, já assiste à chegada dos netos. “É muito gratificante”, resume, enquanto no tabuleiro as peças não têm mais para onde ir. Assim, o jogo termina empatado e esta reportagem fica por aqui. Mas se depender de Severino, serão mais 40 anos no mesmo ponto, com seu carrinho de pipoca. “Nem penso em parar”.

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