(Flavia Santini - 21/02/1992) Santos, terça-feira, 4 de fevereiro de 1958. O estúdio da TV Santos, Canal 5, ligado às Organizações Victor Costa, fervilhava naquele começo de tarde. Instalado na Rua José Caballero, no mesmo espaço da tradicional Rádio Clube de Santos, o ambiente pulsava entre a tensão contida e o vaivém acelerado dos bastidores. Vozes baixas, mas agitadas, cruzavam os corredores da emissora em meio à correria de técnicos, cabos, câmeras e comandos. Entre refletores e emaranhados de cabos, ganhava forma um cenário até então inédito na televisão brasileira: uma cozinha. Pela primeira vez, os telespectadores assistiriam em seus lares um programa inteiramente dedicado à arte culinária — algo inusitado, mas que viria a pavimentar o caminho futuro para personalidades atuais como Ana Maria Braga, bem como para formatos consagrados de reality shows como Master Chef e outros destes tempos presentes. Mas ali, naquele início de uma tarde de terça-feira que logo se tornaria histórica, no centro do cenário improvisado, vestindo um avental simples e mantendo uma expressão serena, porém decidida, estava Ofélia Ramos Anunciato — aos 34 anos, no pleno domínio de si. Caberia a ela conduzir Meu Mundo é a Cozinha, programa pioneiro que inaugurava um novo gênero na televisão brasileira, uma nova linguagem, aquela em que o cotidiano doméstico ganhava espaço, voz e protagonismo diante das câmeras. Horário preciso O horário escolhido, 13h40, não foi por acaso. Era um cálculo preciso, estratégico: logo após o almoço, quando o silêncio tomava conta dos lares e as tarefas do dia davam uma pausa. Naquele instante, as donas de casa podiam se acomodar diante da televisão e acompanhar aquela mulher que, entre colheres e panelas, falava com leveza, ensinava sem pretensão e acolhia sem formalidade. Ofélia logo se tornaria uma referência, e, por que não, uma espécie de salvadora nos momentos delicados das cozinhas de suas telespectadoras. Com criatividade e um jeito simples de transmitir seus conhecimentos, ensinava truques preciosos em receitas do dia a dia. Muitas jovens esposas encontrariam nas suas dicas o alívio para os desafios do fogão e a confiança para brilhar à mesa. Os dois primeiros programas foram ao ar nas terças, dias 4 e 11 de fevereiro. Depois, vieram as quartas — 26 de março, 9, 16 e 23 de abril. E então as sextas-feiras, a partir de 16 de maio. Em 5 de outubro de 1958, ela ampliou essa presença para o papel, assinando uma coluna de culinária no jornal Gazeta de São Paulo. Assim, entre TV e jornais impressos, seu nome se espalhava, salpicando como os seus melhores temperos. Alcance ampliado A TV Santos, que abriu alas para seu trabalho, se extinguiria no início de 1959. Muitos programas desapareciam juntos, mas não o de Ofélia, que foi parar na badalada TV Tupi, então dirigida por Abelardo Figueiredo. Ela já havia assinado contrato em agosto de 1958, e logo começou a participar de um quadro do programa Revista Feminina, apresentado por Maria Teresa Gregori. Ali, Ofélia atuou por dez anos, enriquecendo a programação paulistana e se tornando a maior referência de difusão culinária no Brasil. Mudança de casa e estrelato Em 1968, já consagrada na televisão paulista, Ofélia recebeu uma proposta irrecusável do Grupo Bandeirantes e transferiu-se para a emissora, onde passou a comandar um quadro só seu dentro do programa apresentado por Xênia Bier: era o Cozinha Maravilhosa da Ofélia. Inicialmente exibido diariamente, o programa enfrentava os desafios técnicos da época, marcados por limitações de equipamento e transmissão. Um ano depois, em comum acordo com a direção da TV, passou a ser exibido três vezes por semana — às segundas, quartas e sextas-feiras, sempre às 10h10. Mas o modelo diário voltaria em meados dos anos 1970, sendo exibido a partir das 10h45. Na TV Bandeirantes, o nome e o programa de Ofélia foram parar em todos os cantos do país. Sucesso literário Entre as décadas de 1970 e 1990, Ofélia também se transformou em um fenômeno editorial. Seu talento diante das câmeras transbordou para as páginas de livros culinários, conquistando leitores de norte a sul do Brasil. Ao longo de sua trajetória, publicou 14 livros explorando os sabores da gastronomia brasileira, portuguesa e italiana. Seu título mais emblemático, O Grande Livro da Cozinha Maravilhosa de Ofélia, reuniu mais de 1.200 receitas e chegou à impressionante marca de 13 edições até 1998, tornando-se um clássico presente nas estantes de milhares de lares brasileiros. A presença de Ofélia era uma constante nas Bienais do Livro, onde atraía longas filas de fãs ansiosos por um autógrafo. No auge de sua popularidade, no início dos anos 1990, ela chegava a receber cerca de 400 cartas por dia na TV Bandeirantes — todas respondidas por sua equipe. O reconhecimento editorial veio também por meio de prêmios. O livro Ofélia, o Sabor do Brasil, publicado pela Editora Melhoramentos, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Produção Editorial, consagrando a autora também no meio literário. Em 2000, de forma póstuma, a obra ganhou uma versão internacional — Ofélia, A Taste of Brazil — traduzida por Julie Martin, levando a culinária brasileira ao público estrangeiro. O livro foi listado entre os 13 mais lidos do mundo durante a Feira do Livro de Frankfurt, um feito notável que projetou ainda mais a imagem de Ofélia no cenário internacional. Nascimento e morte Ofélia Ramos Anunciato nasceu em 27 de dezembro de 1924, na cidade de Itatiba (SP), mas logo cedo sua família se mudou para Santos, onde ela viveu toda a sua infância e juventude. Sempre manteve residência na cidade, embora morasse na Capital devido às atividades profissionais. Em 12 de outubro de 1998, Ofélia sofreu um infarto do miocárdio e foi internada na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, onde permaneceu hospitalizada por cerca de duas semanas, sob cuidados médicos intensivos. Na madrugada de 26 de outubro, às 3 horas, faleceu aos 73 anos. Seu corpo foi velado na Câmara Municipal de São Paulo, no Auditório Prestes Maia, até as 16h daquele dia. Às 20h, foi sepultada na Memorial Necrópole Ecumênica, em Santos, deixando um legado incomensurável para a arte culinária brasileira. SERGIO WILLIANS É JORNALISTA E PESQUISADOR DA HISTÓRIA DE SANTOS. CONHEÇA SEU TRABALHO NO SITE WWW.MEMORIASANTISTA.COM.BR