José Dirceu: "O peso político que eu tenho é o peso político que o PT tem, que a esquerda tem” (Alexsander Ferraz/AT) Desde 2005, o ex-deputado federal e ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu não ocupa um espaço formal no Governo Federal. Mas, segundo ele, nunca deixou totalmente a cena política. Após ser cassado e preso, em meio à crise do mensalão, e de andanças pelo País, ele garante que seu olhar está no futuro: do PT, partido em que voltou à Direção Nacional, e no próprio projeto de esquerda. Segundo ele, o Partido dos Trabalhadores precisa entrar no século 21 entendendo suas demandas e mudanças. José Dirceu esteve em Santos neste sábado (22) para participar de um encontro com correligionários. Na pauta, “os rumos do Brasil e os desafios da esquerda”. Em entrevista para A Tribuna, ele fala sobre o quadro político visando as eleições de 2026, a sucessão de Lula como nome do PT e reafirma a intenção de voltar à Câmara dos Deputados. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O senhor voltou a ser membro da Direção Nacional do PT neste ano. Deve participar da discussão sobre a plataforma do partido para as eleições de 2026? Que rumos acha que o partido deveria tomar? O PT é um partido que já faz parte da história do Brasil, que surgiu de baixo para cima. De certa forma, é em torno do PT que se disputa poder político no Brasil desde 2002. Como o mundo mudou muito, e o Brasil também, nós resolvemos convocar um congresso para o ano que vem para atualizar o programa do partido, o programa de governo, rever o estatuto e tratar também da questão eleitoral, tática eleitoral, conjuntura, são quatro temas. Eu voltei para a direção nacional do PT, até porque foi um apelo do presidente Lula. Vou contribuir com a minha experiência. Para você ter uma ideia, de maio de 2018 a maio de 2019, eu visitei 100 cidades e 22 capitais, lançando meu livro de memória. Se não fosse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a concorrer a reeleição, qual seria o quadro mais próximo de disputar a Presidência? Aliás, como preparar o PT de 2030 para a frente? Essa é uma agenda que o presidente Lula está diretamente envolvido. Nós temos conversado e ele tem dito que, para ter um pós-Lula, é preciso ter um partido enraizado, forte, atualizado. Um partido do século 21, que se empodere das redes, que a juventude comece a fazer um relevo interno, se reconecte com as lutas, as organizações sindicais, sociais. Nomes nós temos. Os governadores, começando pelo Rafael Fonteles do Piauí, jovem, que está se revelando uma liderança importante. O Fernando Haddad, que é ministro da Fazenda, foi prefeito de São Paulo, já foi candidato a governador e a presidente da República. E tem governadores e ex-governadores, como o Rui Costa, Jacques Wagner e o governador Camilo Santana, do Ceará. Há nomes de outros partidos que são aliados a nós, como o João Campos (PSB). <MC1> Como o PT pode se aproximar das novas massas trabalhadoras que empreendem por necessidade, por desejo de “não ter patrão” ou vinculadas a serviços por aplicativos? A economia brasileira é uma economia de serviços. Então, é natural que surja o autônomo ou o empreendedor. O MEI fomos nós que criamos. Temos que ter uma agenda compatível com a expectativa deles. Para 2026, a ideia será novamente atrair o empresariado ou o momento político é outro? Eu acho que está colocado para 2026. É mais como garantir a continuidade do crescimento econômico, da renda e do emprego. O que o país precisa, no nosso entendimento, é de uma profunda reforma tributária e de uma reforma política. E o país precisa fazer uma revolução tecnológica. Reindustrializar o Brasil, de certa maneira. A postura que o governo tomou nessa questão do tarifaço junto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de alguma forma vai ser capitalizado? O tarifaço foi um pretexto - o objetivo principal é político: a continuidade da tentativa de golpe de Estado. É, por pressão externa, obrigar o país a devolver o governo para a família Bolsonaro. É tão grave isso que você percebe que a própria direita procura se distanciar do bolsonarismo. Com o ex-presidente Bolsonaro preso, como você observa o cenário da direita para 2026? Eu vejo que ela vive um dilema. Ela não pode rejeitar o bolsonarismo, mas ela não pode aparecer aliada. Porque uma parcela grande das classes médias brasileiras não quer essa volta. O Tarcísio de Freitas por exemplo, tem que correr um risco: sair de São Paulo e perder a eleição e perder o governo de São Paulo. O senhor não ocupa cargos no Governo desde 2005, quando era ministro da Casa Civil, mas seu nome ainda causa deferência entre aliados e rejeição, entre opositores. Nesse contexto, como analisa sua força política? O peso político que eu tenho é o peso político que o PT tem, que a esquerda tem. De certa maneira, eu represento a geração que construiu o PT. Sempre fui aberto ao diálogo, às alianças. Então, o meu papel político hoje, eu já disse isso várias vezes, eu quero ajudar o presidente Lula a governar e quero ajudar o PT. O senhor vai tentar voltar à Câmara por São Paulo? Estou apresentando a minha candidatura ao partido e aos diretórios do partido em todo o estado. Sou uma figura que tem uma história, que posso reivindicar, voltar a ser deputado.