O ano em que um pirata estragou o Natal em Santos

Em 1591, o corsário inglês Thomas Cavendish atacou a Vila de Santos, na noite do dia 25 de dezembro e espalhou o horror pelos colonos locais

O Natal é uma época para estar junto com a família e celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Era isto que os colonos de Santos faziam, em 25 de dezembro de 1591, quando um pesadelo começou, em plena noite de Natal. Nesta data, a vila portuária foi atacada pelo corsário britânico Thomas Cavendish.

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Cavendish era famoso na Inglaterra. O pirata havia sido, poucos anos antes, o terceiro homem a dar a volta ao mundo, após Fernão de Magalhães e Francis Drake. À época o Brasil era governado pela União Ibérica, sob controle espanhol, nação com a qual a Inglaterra rivalizava.

Desta forma, em 1591, o corsário partiu com uma frota de navios, deixando o porto de Plymouth, rumo ao Brasil. Ele realizou ataques em Vitória (Espírito Santo), Ilha Grande (Rio de Janeiro) e foi até Ilha Comprida (no litoral norte de SP), antes de seguir para Santos.

"Thomas Cavendish, que espertamente avançou sobre o canal do estuário justamente na noite de Natal, sabendo que, em função do recolhimento religioso, as forças militares em terra haveriam de relaxar. E não deu outra. Sem resistência, as naus de Cavendish adentraram o canal do Estuário e se posicionaram tranquilamente à porta da Vila de Santos. Era noite, e todos se reuniam na Matriz para a missa de Natal. Alvo fácil e indefeso", relata o historiador Sérgio Willans, no site "Memória Santista".

Dezenas de piratas desceram invadiram a pequena vila iniciaram o terror dentro de Santos. Eles queimaram casas, depredaram prédios públicos e atacaram as igrejas. Um dos locais que foram alvos dos corsários foi a capela onde estava a imagem de Santa Catarina de Alexandria, que ficava no sopé do outeiro.

Willians descreve o ataque. "Ensandecidos, os piratas entraram na pequena casa religiosa e tiveram o atrevimento de tomar a imagem da santa nos braços, carrega-la pela praia, conduzirem-na em um bote, somente para atirá-la no lagamar". 

O ataque de Cavendish a Santos durou cerca de dois meses, com assaltos à fazendas e vilarejos próximos, deixando um rastro de destruição e mortes para trás.

Segundo o jornalista Eduardo Bueno, em um vídeo publicado nas redes sociais sobre o ataque, os ingleses teriam justificado o ataque na noite de Natal ao dizer que seguiam o calendário juliano, e não o gregoriano. Por isso, na visão deles, seria dia 15 de dezembro, e não 25. 

Em 2008, o doutor em Estudos Lingüísticos e Literários em Língua Inglesa Paulo Edson, junto com o tradutor John Milton, publicou o manuscrito de Thomas Cavendish sobre a viagem, com título de "O Corsário de Ilhabela". Trechos foram publicados no site Porto Gente.

No documento, o corsário cita que a vinda ao Brasil era a busca de um entreposto para a preparação de seu objetivo principal: ultrapassar o Estreito de Magalhães e atingir o Oceano Pacífico.

Praça Antonio Telles, no Centro de Santos: região onde, provavelmente, estava a capela destruída por Cavendish (Foto: Matheus Tagé/AT)

Retorno

Thomas Cavendish não conseguiu cruzar o Estreito de Magalhães. Após perder muitos membros da tripulação, de acordo com o manuscrito, ele aceitou a sugestão dos subordinados em retornar ao Brasil para os navios serem reabastecidos. No entanto, na segunda tentativa de ataque a Santos, a história mudou.

O corsário relata que, dos 25 homens enviados para a vila, apenas um retornou. Um índio, que havia se debandado para o lado inglês. 

"Na manhã seguinte vi um índio vir em direção ao mar e acenar para o navio. Nós, desejosos por notícias, fizemos uma balsa pois não dispúnhamos de nenhum barco, enviamo-la à margem e colocamos o índio a bordo. Quando o vimos, percebemos que ele era o nosso próprio índio, que havia escapado e tinha ferimentos em 3 partes do corpo. Ele nos contou que todo o resto de nossos homens haviam sido mortos por 300 índios e 80 portugueses que à noite os atacaram repentinamente".

Antes de deixar a região, Cavendish ainda organizou um último ataque, em represália. "Fomos a terra e causamos grande destruição às casas de suas fazendas e nos apoderamos de uma quantidade de suprimentos frescos. Aquele local não era para nós, levando em conta que nossos navios não estavam aptos a chegarem à cidade deles e além disso, nossas extremas necessidades nos forçavam a procurar um caminho para reabastecimento".

O outeiro

Quanto à imagem de Santa Catarina de Alexandria, ela ficou desaparecida por 72 anos. Foi encontrada por pescadores escravos do Colégio dos Jesuítas, numa atividade com rede de arrastão. Os santistas reconstruíram a capela, desta vez no alto do Outeiro, que levou o seu nome, e lá ficou até meados do Século XIX, quando a edificação foi demolida. A imagem hoje se encontra no Museu de Arte Sacra e é considerada o objeto mais antigo ainda existente da história de Santos.

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