No Teatro Coliseu, as cortinas não se abrem

"Espetáculo" é do lado de fora e chega à 5ª temporada, com deterioração do patrimônio histórico e cultural no Centro de Santos

Por: Ronaldo Abreu Vaio  -  07/01/21  -  22:45
Conselho do Samba de Santos realiza concurso Cidadão e Cidadã Samba 2020
Conselho do Samba de Santos realiza concurso Cidadão e Cidadã Samba 2020   Foto: Alexsander Ferraz/AT

Um espetáculo do descaso chega em 2021 à quinta temporada. Mas em vez de transcorrer no palco do Teatro Coliseu, desenrola-se do lado de fora: em 2016, a má conservação da fachada obrigou à interdição da calçada lateral do teatro, na Rua Braz Cubas. O pior: Prefeitura e Estado não se entendem sobre as obras de restauro da fachada e telhados, paralisadas desde 14 de abril.


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Enquanto isso, o patrimônio histórico e cultural se deteriora. “Isso aí tá abandonado, não vejo ninguém fazer nada”, afirma um comerciante das redondezas, que não quer se identificar. “Me sinto indignado com a falta de zelo.”


Leandro Silva Borges, de 33 anos, gerente do estacionamento defronte ao Coliseu, recorda a montagem de andaimes na lateral. “Tiraram as janelas para restaurar. Quando veio a pandemia, desmontaram os andaimes e foram embora.”


De fato, na parte lateral próxima à Rua João Pessoa, há vestígios de intervenção, com paredes raspadas e, aparentemente, aplainadas. Afora isso, o que se vê aqui e ali são parede descascada e tijolos à mostra, fruto do reboco que despencou. Também há janelas desgastadas, algumas com tapumes, em vez de esquadrias.


Um pedaço da sacada, acima da entrada principal, está amparado por uma espécie de cinta, para evitar que desmorone. Há, ainda, o mato nas eiras e beiras, que pelo tamanho e pela exuberância, deve crescer livre de importunação há muito tempo.


“É horrível. Várias vezes já vi sujeira na calçada, do que caiu”, relata Simone Araújo Gomes Aguiar, de 39 anos, que passa pelos arredores com frequência. “Ou você atravessa (a rua) ou corre perigo”, completa, sobre a interdição da calçada. Como a Reportagem constatou, nem todos atravessam a rua – e o perigo é evidente.


Divergências
Em duas notas, a Prefeitura de Santos justifica a paralisação das obras pelo atraso no repasse da verba correspondente, por parte do Estado, superior a 90 dias. E que já havia enviado ao Governo Estadual o material técnico solicitado para embasar os pagamentos. O convênio entre Prefeitura e Estado para o restauro de telhado e fachada foi firmado via Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias Turísticas (Dadetur).


A Secretaria Estadual de Turismo, pasta a qual está subordinado o Dadetur, informa o oposto: que o repasse foi interrompido, pois a documentação enviada pela Prefeitura é insuficiente, “mesmo após várias solicitações da área técnica da Pasta”. A mais recente teria ocorrido em 8 de dezembro do ano passado.


As duas instâncias do Poder Público também divergem sobre o valor do convênio. Enquanto o Estado especifica R$ 6.311.377,86, a Prefeitura cita valor “da ordem de R$ 4,2 milhões”. Na placa sobre a execução da obra, exposta nos fundos do teatro, com face para a Rua João Pessoa, consta que são R$ 4.273.750,23. Ponto para a Prefeitura.


O que deve ser feito
Segundo a Administração santista, 30% dos trabalhos foram executados. Entre o que deve ser feito, estão o restauro da fachada e a pintura do prédio anexo. Os serviços previstos, de acordo com a Prefeitura, também incluem itens como restauro das janelas, atualização dos para-raios e modernização da iluminação cênica da fachada.


História
A origem do que viria a ser o Teatro Coliseu remonta ao ano de 1897, quando foi inaugurado, no terreno onde hoje é a Rua Amador Bueno, 237, um ginásio de esportes e um velódromo, com arquibancadas. Abandonada em 1903, a construção virou bar em 1909. No período, o edifício foi muito utilizado para atividades políticas, até ser formatado da maneira que se conhece, em 1924.


Desde então, recebeu óperas, espetáculos musicais e companhias teatrais, até a decadência, nas décadas de 60 e 70, em quefoi transformado em cinema e casa de shows. Em 1983, foi tombado pelo Condephaat, estadual, dando-se início a um longo processo de resgate e restauro, que culminou com a reinauguração, 23 anos e R$ 20 milhões depois, em 26 de janeiro de 2006.


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