A cantina era sua casa. Ele mesmo gostava de repetir essa frase. Não à toa, seu nome estampava a porta e o rosto sorridente marcava o logotipo. Vai fazer falta vê-lo circulando pelo salão. Faleceu nesta quarta-feira (3), aos 89 anos, Américo Vieira, o Babbo Américo, que comandou por quase seis décadas a tradicional cantina da Avenida Ana Costa, 404. Ele estava internado havia cerca de um mês com problemas pulmonares. Deixa a esposa, Salete Vieira, o filho Américo Júnior e os netos. O outro filho, Danilo Vieira, faleceu durante a pandemia de Covid-19. Américo era daqueles anfitriões que não se contentavam em ficar no balcão: ia de mesa em mesa, conversava, brincava, sugeria pratos. Sabia os gostos dos fregueses como poucos — traço herdado dos tempos de garçom, quando começou a trabalhar no mesmo endereço, sob o comando de Dona Liliana. A cada dia de serviço, ainda fazia questão de colocar um vaso de flores no caixa da antiga patroa, gesto de gratidão a quem lhe deu a primeira oportunidade. Veio de Portugal Nascido em Batalha, Portugal, deixou sua terra aos 15 anos para tentar a vida no Brasil. Na Cantina Liliana, serviu sob o casal de proprietários italianos Liliana e Carlo Gonelli. Quando eles decidiram retornar à Itália, em 1967, venderam o restaurante para Américo e dois colegas garçons. Décadas depois, já com a sociedade desfeita, o espaço passou a se chamar Babbo Américo (2014). O cardápio guarda muitos clássicos, mas nenhum tão emblemático quanto a pizza de champignon, criação do próprio Américo nos anos 1970. A receita, que uniu o molho do coquetel de camarão ao champignon do estrogonofe — pratos em alta à época —, acabou virando símbolo da casa e segue sendo a mais pedida até hoje. O legado permanece com o filho, Américo Júnior, que já atuava ao lado do pai há muitos anos e hoje administra a cantina. “Fico muito feliz em trabalhar com meu filho, que tem amor pela cantina como eu”, disse Américo em entrevista recente. Não poderia ser diferente: a cantina sempre foi um negócio de família, acompanhando gerações de clientes. “Passei o amor pelo ofício para ele, que gosta de fazer o pão como eu fazia todos os dias”, contou, há dois anos. Orgulhava-se ainda dos pratos criados pelo filho, que homenageiam os netos e já entraram para a lista dos mais vendidos, como o Filé à Manuela e o Filé à Arthur. No salão, todos o tratavam como Babbo, pai. Agora, fica a saudade — e o sabor de sua história. Velório O velório acontece nesta quinta-feira, das 9h às 16h no Memorial Necrópole Ecumênica, à Av. Nilo Peçanha, 50, no Bairro Marapé, me Santos. Depoimentos "É uma grande perda para a cidade, não somente na gastronomia, mas como exemplo de vida, de empreendedorismo, de cuidado com os filhos, de construir um legado, uma história. Referência na cidade para todo mundo, pelo menos para mim, assim, como para as novas gerações. Foi uma honra conhecê-lo, foi uma honra estar junto com ele no Festival Italiano. A cidade hoje fica mais triste, vai dormir mais triste hoje. Acho que a palavra é essa, referência", Danilo Rocha, chef e sócio da Osteria Santos Sabores "O Babbo era um exemplo para aqueles que trabalham não só com Gastronomia, mas com atendimento ao público. Sempre cativante, gentil e cordial, ele encantava à todos. Sua forma de receber, de ir à mesa, de fazer com que o cliente se sentisse em casa, fidelizou gerações e mostrou para nós que o carinho com o cliente é uma receita de sucesso", Paulo Bakhos, amigo e dono do Beduíno "Perdemos um dos grandes nomes da nossa Cidade: a Babbo Américo, dono de uma das cantinas mais gostosas de Santos. Português, assim como a meu pai e (olha que coincidência) com o mesmo nome também. Seu Américo, que o céu te receba com todo amor do mundo e que o meu Américo, meu pai, esteja lá de braços abertos pra você. Aos amigos da Cantina Babbo Américo e ao filho, Américo, meu abraço e mais sinceros sentimentos", Rogério Santos, prefeito de Santos, nas redes sociais. "Um ícone para todos os donos de restaurante, de como atender com simpatia , sempre atencioso com os clientes, até pouco tempo, sempre circulando pelo salão. Um exemplo para setor. Começou como garçom e, com muito trabalho, se tornou proprietário brilhante sem nunca perder a humildade, característica de todo grande homem. Um exemplo a ser seguido", Marcelo Pereira, sócio do Almeida, restaurante mais antigo em atividade em Santos "Hoje recebemos essa triste notícia, uma perda grande para o cenário gastronômico da nossa região, o Babbo foi uma referência em hospitalidade de Santos! Responsável por deixar um legado de afeto e acolhimento, transformando cada refeição em celebração! Nesse momento ficará a saudades sim, tristeza não , pq como diz Santo Agostinho ele só está do outro lado do caminho! Sempre será lembrado com amor e carinho! Luz para o Babbo!", Maria de Fátima Duarte, coordenadora do curso de gastronomia da São Judas-Unimonte “Seu Américo foi um exemplo de vida dedicada à gastronomia. Mesmo não sendo italiano, tornou-se o italiano mais querido de Santos. Ele deixa para nós a inspiração de se doar de corpo e alma ao que se faz. No nosso cardápio, eternizamos essa admiração com a pizza Américo, uma homenagem que carrega um pouco do sabor e da história que ele representou”, Gustavo Afonso, Santo Afonso Massas. "A cidade de Santos perde hoje uma de suas personalidades mais marcantes. O querido Américo, o eterno Babbo, deixa um legado inestimável para a gastronomia da nossa região. Mais do que um empresário, foi um verdadeiro embaixador da culinária italiana, que com dedicação e carinho transformou sua cantina em um espaço de acolhimento e sabor, conquistando gerações de clientes e amigos. Seu exemplo de trabalho incansável, cuidado com cada prato e respeito pelo público que o acompanhava faz dele uma referência não apenas para a gastronomia, mas para todo o setor de bares e restaurantes da Baixada Santista. A Abrasel Baixada Santista [Associação Brasileira de Bares e Restaurantes] se solidariza com familiares, amigos e colaboradores neste momento de dor, e reforça que a memória de Américo continuará viva em cada mesa que ele inspirou e em cada profissional que segue seus passos".