Mercado Municipal de Santos à espera da revitalização

Construído há mais de 60 anos, espaço na Vila Nova resiste ao tempo e à degradação do entorno. Chegada do VLT é esperança

Da Ponta da Praia à Zona Noroeste, da entrada de Santos ao topo do Morro Nova Cintra, Santos virou um canteiro de obras, com máquinas e homens trabalhando a todo vapor. Mas no meio dessa geografia tem um local que ainda não sentiu o cheiro de vida nova: a região central da Cidade. E dentro dessa grande área central, o trecho do Mercado Municipal, na Vila Nova, permanece como um gigante adormecido, à espera da renovação urbana.

Construído em 1949 com uma arquitetura mais moderna que a do começo do século, e ampliado em 1955, o Mercado é o mais importante prédio da Vila Nova, e foi planejado em uma época em que nos arredores viviam as famílias nobres da Cidade, posteriormente atraídas para os bairros da orla. 

Nos antigos casarões hoje há pequenos comércios e cerealistas, muitos funcionando apenas na madrugada, quando feirantes vão buscar suas mercadorias diretamente dos caminhões que chegam do Ceagesp. Alguns casarões também se transformaram em cortiços ou moradia para pessoas de baixa renda.

Dona Odete resiste

Odete Ferreira, 82 anos de idade, 52 deles no Mercado: “Saudades de quando tudo isso vivia cheio de gente”. (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Nos 54 boxes do Mercado, permissionários vendiam de tudo: frutas, verduras, legumes, carne, peixes e outros produtos. Hoje, apenas dois sobrevivem no grande saguão da parte de baixo, em um cenário desolador. “Nem dá pra acreditar no que esse lugar se transformou”, diz a sergipana Odete Ferreira, 82 anos de idade, 52 no local.

A banca de Odete chama atenção pelo colorido das frutas e temperos que vende. Do outro lado tem apenas mais um box funcionando. “Eu vim pra cá moça ainda, comprei o ponto, criei minhas filhas, fiz a vida com o dinheiro que ganhei aqui”, diz Odete, que lembra dos tempos em que até animais vivos se vendia ali.

Ela acredita que o começo do esvaziamento se deu a partir da instalação dos hipermercados na Cidade, mas admite que a degradação dos arredores contribui para afugentar a clientela. “As pessoas não se sentem seguras em vir aqui. Eu mesma já fui assaltada”.

Antiguidades

No mezanino do Mercado Municipal tem um outro tipo de comércio: o de antiguidades, mas para visitar os 24 boxes ocupados é preciso fazer vistas grossas à sujeira de pombos que se espalha pelo local. 
Nas prateleiras dos boxes, relíquias chamam atenção de colecionadores e aficcionados por objetos antigos: de pratarias a decoração, de quadros a brinquedos do passado. 

Segundo a Associação dos Antiquários de Santos, a Prefeitura já fez o conserto do telhado, por onde entravam as pombas, e promete, agora, fazer a limpeza geral.

O cenário de desuso do Mercado se completa com banheiros interditados, marcas de infiltração nas paredes e uma área fechada mas às vistas do público, atrás das escadarias, com todo tipo de móveis hospitalares e de escritório, amontoados feito um depósito.

O Mercado Municipal fica na Praça Iguatemi Martins, ao lado do serviço de catraias que levam passageiros para Vicente de Carvalho. 

A entrada principal é pela Rua Dr. Cochrane, via por onde passará a segunda fase do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), com previsão de estar funcionando no final de 2022.

Força tarefa

Segundo a Prefeitura de Santos, a limpeza no interior e dependências do Mercado é feita regularmente, assim como nos arredores.

O Mercado Municipal e seu entorno, diz a Prefeitura, estão incluídos na programação das atividades da força-tarefa realizada de segunda a sexta-feira, em conjunto com a Guarda Civil Municipal (GCM) e Polícia Militar, que tem o objetivo de recolher os resíduos volumosos abandonados pelas pessoas em situação de rua na área.

Renovar sim, mas sem expulsar seus moradores

Qualquer que seja o projeto para a área do Mercado Municipal e seu entorno, não pode expulsar seus moradores, processo conhecido como gentrificação. “É preciso que a renovação se dê prevendo que as pessoas continuem ali. Esses laços não podem ser desfeitos”, diz o arquiteto Ricardo Andalafat, diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade São Judas-Unimonte.

Andalafat cita o Mercado de Pinheiros, no Largo da Batata, na Capital, como modelo de renovação possível. “Houve investimento no mobiliário urbano, remodelação viária, e esse processo acabou atraindo o interesse de grandes empresas, que se mudaram para o bairro. O antigo mercado acabou virando um grande polo gastronômico”.

Atualmente, o mercado possui 39 boxes divididos em empório, mercearia, frios e laticínios, charutaria, quitanda, açougue, lanchonete, peixaria, avícola, cereais e floricultura. Em 2006, foi construído um deck no segundo andar, com empório de cervejas especiais, pizzaria.

“E tudo isso aconteceu naturalmente, ao longo dos anos, mas a partir de uma política de renovação que não pensava apenas no mercado, mas no entorno e na mobilidade”, diz o arquiteto, que defende a implantação de incentivos fiscais para que empresas se instalem na Vila Nova.

“As pessoas que moram ali podem querer continuar ali, e isso precisa ser considerado”.

Bacia do Mercado, com as catraias de passageiros para Vicente de Carvalho, integra o complexo da Vila Nova. (Foto: Carlos Nogueira/AT)

VLT na porta e conjunto de leis, as apostas da Prefeitura

A passagem do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na porta do Mercado Municipal será o pontapé inicial para a renovação de todo o bairro. Essa é a aposta da Prefeitura de Santos.

Segundo o arquiteto e urbanista Glaucus Farinello, a Prefeitura fez um esforço para que a segunda fase do VLT passasse pelos bairros mais periféricos como Vila Nova e Paquetá, “justamente por entender que esse é um fator de indução do desenvolvimento”.

Outro pilar destacado pelo arquiteto foi a mudança das leis urbanísticas de Santos, como o Plano Diretor e a Lei de Uso e Ocupação do Solo, que preveem incentivos fiscais para empreender na região central, e também para que construtoras se interessem por aquela região, com moradias de menor custo ou universitárias.

“Foram três anos de muito debate, muita discussão para que esse conjunto de leis ficasse pronto e fosse aprovado. Agora, há um ambiente favorável para que as coisas aconteçam. Infelizmente, tivemos a pandemia no meio do caminho, o que deve atrasar um pouco os planos”.

Vocações diferentes

A região central, segundo os planos da Prefeitura, se divide em diferentes vocações. Do Valongo até o Paço Municipal, há um corredor cultural, focado em comércio, gastronomia e turismo, explica Glaucus.
Nas demais áreas, como Paquetá e Vila Nova, o perfil é de “repovoamento”, com habitações de interesse social, por exemplo. “E a chegada do VLT vai proporcionar uma mobilidade entre as regiões, permitindo que as pessoas morem nessa região e trabalhem em outras”.

Glaucus Farinello acredita que, uma vez havendo residências na área central, outros serviços virão com o tempo para atender essa população. “Queremos levar vida à região central”.

Cenários

Em 2019, uma consultoria do Instituto Jaime Lerner destacou três eixos de desenvolvimento urbano para Santos: a área central, abrangendo Porto, Mercado e Bacia do Mercado; Área Continental e Santos, e Monte Serrat.

O instituto é ligado a Comunitas, organização que visa ajudar na melhoria de investimentos sociais, e adotou Santos como modelo.

O que dizem os ex-prefeitos?

“A região central estava abandonada e, por isso, demos início a um plano de revitalização, para levar vida à região e dar dignidade à população. É fundamental atrair investimentos para essa região, particularmente a do Mercado Municipal, a partir do projeto de lei que apresentei na Câmara e que prioriza a aplicação de recursos públicos e de contrapartida privada em áreas de vulnerabilidade social”
Telma de Souza (prefeita entre 1989 e 1992)

“Trabalhamos muito para recuperar e restaurar o Mercado, preservar sua história. Só que apenas cuidar do imóvel e não pensar em um projeto maior não funciona. Tem que levar gente pra lá, tem que ter atividade. Veja o que aconteceu no Centro Histórico, que revitalizamos e logo se tornou um polo para vida noturna e gastronomia. O Mercado tem essa condição” Beto Mansur (prefeito entre 1997 e 2004) 

“A região do Mercado Municipal é um tesouro urbano. Na minha gestão, conseguimos desenvolver e renovar um trecho da área Central, ali perto do Valongo e Centro Histórico, chegando ao Coliseu. Agora, é preciso estender esse movimento para a região de Vila Nova e Paquetá. Enxergo um grande potencial turístico e gastronômico” João Paulo Papa (prefeito entre 2005 e 2012)

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