Santos, 29 de agosto de 1875. O relógio da estação do Valongo marcava pouco mais das 13h30 quando a composição da São Paulo Railway freou lentamente sobre os trilhos. O vapor da locomotiva se misturava ao colorido das bandeiras, às flores espalhadas pelas janelas e ao rumor de um povo em festa. O Imperador D. Pedro II, ladeado pela Imperatriz Teresa Cristina e sua comitiva, surgia na plataforma em meio a aplausos e aclamações. O cenário era de triunfo: ruas enfeitadas com arcos e guirlandas, a multidão comprimida contra as grades e a cidade tomada por um fervor patriótico que parecia não caber em si. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Hospedados na residência do Barão do Embaré, Antônio Ferreira da Silva, as Majestades tiveram apenas o tempo necessário para recompor-se da viagem. A agenda oficial se anunciava extensa: Câmara Municipal, Cadeia, Igreja e Hospital da Misericórdia, Companhia de Aprendizes Marinheiros, Arsenal da Marinha e a Velha Matriz, onde o Imperador fez questão de deter-se diante da sepultura de Braz Cubas, fundador da vila. O dia, que nascera solene, transformava-se numa sucessão de símbolos e gestos de um soberano que sabia o peso da memória. Na Beneficência Portuguesa, D. Pedro II aceitou um copo d’água das mãos de seus anfitriões, antes de registrar seu nome no livro de visitas especialmente preparado para a ocasião. Ao final da tarde, a cidade iluminava-se em reverência: a praça do comércio cintilava, os clubes se engalanavam e a estação, que horas antes o recebera, tornava-se farol da devoção popular. A segunda visita Aquela não era a primeira vez que o monarca pisava o solo santista. Trinta anos antes, em fevereiro de 1846, Pedro de Alcântara — ainda um jovem de 20 anos — havia desembarcado em Santos no esplendor da juventude e do frescor de um reinado que apenas começava. Em 1875, já no 44º ano de sua coroa, o mesmo príncipe, agora homem maduro e atento às questões do povo, retornava para escrever outro capítulo na história da cidade. Já no próprio percurso da viagem, D. Pedro revelava sua preocupação com as gentes simples. Ao ser saudado, por exemplo, pelos moradores da pequena vila inglesa de Paranapiacaba, no alto da serra, ele destinara cem mil réis para a criação de uma escola de primeiras letras, reafirmando sua constante dedicação à causa da educação popular. Eram pequenos gestos que, somados a outros, compunham a imagem de um governante estudioso, curioso, sempre voltado à cultura e ao saber. Em Santos, as demonstrações de afeto não foram diferentes e se multiplicaram a cada esquina. Crianças entoavam cânticos, adultos erguiam vivas, e em cada parada havia um gesto de gratidão ou um presente simbólico. O alfaiate espanhol A. Martinez Riaymont, por exemplo, ofereceu-lhe uma casaca de pano, cuidadosamente confeccionada, como sinal de lealdade e devoção. Livro da memória Na manhã de 30 de agosto, o Imperador visitou, em companhia do professor e geólogo Frederico Carlos José Rath, um sambaqui no sítio do Casqueirinho, em Cubatão. Em seguida, esteve na Alfândega e no Gasômetro do Valongo, acompanhado por Carlos Affonseca e J. W. Wright, diretores da Companhia de Melhoramentos de Santos. Após o almoço, o casal imperial embarcou em um bonde cedido pelo empresário Jacob Emmerich e seguiu até São Vicente, onde visitou a matriz local. No retorno, viajaram de carruagem pela orla, passando pela praia do Embaré, onde conheceram a capela de São João. No Boqueirão, voltaram a utilizar bondes para regressar a Santos. O Imperador ainda retornou à Alfândega, visitou a Matriz de Santos, algumas escolas públicas e prestou homenagem no túmulo de José Bonifácio de Andrada e Silva, seu tutor na infância. Presenciou também uma demonstração de válvulas de incêndio, realizada pela Companhia de Melhoramentos. Também esteve na sede da Associação Comercial de Santos, instalada em prédio cedido pelo então presidente, visconde Nicolau Vergueiro. Ali, inaugurou o Livro de Ouro da entidade, um registro da memória de sua visita, registrando sua assinatura, ao lado da do conde de Iguaçu, Pedro Caldeira Brandt (um de seus acompanhantes oficiais), além de juízes, vereadores e diretores da instituição comercial. Às 15h, depois de receber o corpo consular, D. Pedro II embarcou com a Imperatriz no vapor América, que os levaria de volta ao Rio de Janeiro. A partida foi marcada por forte comoção popular: uma multidão tomou o Arsenal, acompanhada por duas bandas de música, em meio a aplausos e aclamações. Preservação e celebração Passados 150 anos, a cidade de Santos celebra este marco de sua história por meio de dois documentos únicos: o Livro de Ouro da Associação Comercial de Santos e os Livros de Visita da Beneficência Portuguesa. São eles os registros mais antigos preservados na cidade, guardando em suas páginas a assinatura de D. Pedro II naquele final de agosto de 1875, quando Santos, tomada por flores, arcos e luzes, recebeu o Imperador do Brasil. Para assinalar a efeméride, a Associação Comercial organiza uma exposição especial dedicada ao seu Livro de Ouro, enquanto a Beneficência Portuguesa inaugurou uma mostra permanente em torno de seus volumes históricos. Juntos, esses acervos reafirmam o valor da memória documental como testemunho vivo da identidade santista. *Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site www.memoriasantista.com.br.