Projeção gráfica em 3D do projeto para a Ilha (Reprodução / Eduardo Fernandes) A Ilha Urubuqueçaba, localizada em Santos, no litoral de São Paulo, tem enfrentado várias tentativas de ocupação ao longo do tempo, incluindo a possibilidade de, no passado, ser transformada em um condomínio de luxo. Situada como um ponto de referência na divisa entre Santos e São Vicente, seu nome significa ‘pouso dos urubus’. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A chamada Zona Leste de Santos – que abrange todos os bairros e localidades, desde a Vila Mathias até o José Menino, e de lá até a Ponta da Praia – já pertenceu, por escritura, a uma única pessoa: o Capitão Francisco Cerdoso Menezes e Souza. Em 1760, ele adquiriu essa vasta área em um leilão público, compra que o tornou o maior latifundiário da história da cidade. Entre suas posses, compostas por pequenos morros, rios, várzeas, charcos e praias, havia uma pequena ilha, conhecida como Urubuqueçaba, ou ‘Pouso dos Urubus’, traduzido do tupi. O local nada mais era do que um simples ‘calombo’, coberto por vegetação atlântica, que passava despercebido por muitos. Filho do então capitão-mor Luís Cardoso de Menezes e Souza, Francisco não demonstrava grande interesse em investir em suas terras. Por outro lado, se destacava como um produtor de herdeiros. Apesar de ser aleijado das duas mãos, teve 12 filhos, todos com dona Ana Maria das Neves, filha de Gaspar da Rocha Pereira, um dos juízes de fora da Vila de Santos, como explica o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, Sérgio Willians em seu Blog Memória Santista. Ilha é comprada Quando Francisco faleceu, em 1799, aos 76 anos, dona Ana e parte de sua descendência decidiram dar continuidade às terras, dividindo-as em lotes. A área onde estava situada a Ilha Urubuqueçaba, que se estendia desde a atual Avenida Conselheiro Nébias até a divisa com São Vicente, foi adquirida por José Honório Bueno, um homem grande e forte que, ironicamente, era conhecido pelos amigos como ‘José Menino’. Contudo, conforme Sérgio Willians, Honório gostou tanto do apelido que decidiu batizar a propriedade que dominava a região leste das antigas terras do capitão Francisco Souza de Sítio do José Menino. O novo proprietário das terras morava em uma ‘casa velha, coberta de palha, rodeada de laranjeiras, limoeiros e limeiras’, conforme descrito pelo historiador santista Costa e Silva Sobrinho. Além disso, ele criava gado da raça vacum e comercializava o leite na vila. Com um perfil tranquilo e muito tímido, José Menino demorou a se casar, e quando finalmente encontrou alguém, causou grandes problemas com sua própria família. Sua noiva, Gertrudes Maria Madalena, não tinha boa reputação na vila, o que levou Honório a se casar secretamente em 1817, na Igreja da Penha, em São Paulo. No entanto, para desgosto dos opositores, o casamento não durou muito. Em 1827, Gertrudes e Honório brigaram e se separaram. Ambos seguiram seus caminhos, mas a moça não saiu de mãos vazias. Na partilha de bens, Gertrudes ficou com parte das terras do ex-marido, incluindo a área que abarcava a Ilha Urubuqueçaba. No entanto, em 1844, Gertrudes faleceu. Sem herdeiros, as terras adquiridas durante o processo de separação retornariam, em 1853, ao proprietário original, José Menino, que já havia se casado novamente, desta vez com uma mulher cinquenta anos mais jovem. Após aproveitar bastante a vida, José Honório faleceu aos 88 anos, deixando suas propriedades para os três filhos do segundo casamento. Porém, os filhos contraíram grandes dívidas, especialmente devido a taxas públicas. Como consequência, as terras de José Menino foram para inventário e, em 1855, leiloadas. As terras foram arrematadas pelos senhores Manuel Lourenço da Rocha e Joaquim Gaspar Ladeira. A ilha acabou ficando sob a posse do primeiro, que mal teve tempo de comemorar a aquisição, pois, algum tempo depois, foi declarado falido em Santos e teve seus bens arrecadados. Segundo Sérgio Willians, em 24 de abril de 1888, o empresário do setor portuário, Rodolfo Wanschaffe, comprou a massa falida de Manuel Rocha e, com isso, passou a ser o novo proprietário da Ilha Urubuqueçaba. Wanschaffe, que já explorava uma ponte de embarque em frente ao Largo 11 de Junho (atualmente Praça Azevedo Júnior, na direção da Bolsa do Café), teve uma ideia ousada para a ilha. Ele planejou construir duas pontes no local: uma para embarque de passageiros e outra para ligar a ilha à praia. Apesar de bem-intencionado, o plano enfrentou diversas dificuldades jurídicas, o que levou Wanschaffe a desistir do projeto. Desanimado com a situação, ele decidiu vender a ilha, juntamente com uma chácara nas proximidades da Conselheiro Nébias com a praia, em 7 de janeiro de 1891, para o ilustre santista Júlio Conceição, o último presidente da Câmara de Santos no período imperial (1889). O jovem político, que também era comerciante de café, industrial e grande proprietário de terras produtivas, preocupado com as epidemias em Santos, especialmente a tuberculose, decidiu propor à municipalidade a construção de um sanatório na ilha para o tratamento de pacientes. No entanto, apesar do projeto ter sido desenhado, ele também não foi adiante. A empresa criada por Júlio Conceição para administrar suas terras faliu no final do século XIX, e toda sua massa falida foi adquirida pela ‘Economizadora Santista’. Em 1922, a propriedade foi novamente negociada, desta vez para o empresário Armando Arruda Pereira, que, por sua vez, a vendeu para José Avelino da Silva em 1927. Projeto para a Ilha José Avelino era um respeitado membro da sociedade paulista, além de fazendeiro e investidor. Embora residisse em São Paulo, ele mantinha diversos negócios em Santos. Quando obteve o aforamento (posse plena) da ilha e das áreas circundantes, o empresário solicitou e obteve isenção de impostos por parte da Câmara Municipal, com a condição de que investisse em obras de embelezamento e manutenção daquele trecho de praia. E foi isso que ele fez, ou melhor, tentou fazer. No início da década de 1940, José Avelino apresentou à sociedade santista um projeto extremamente ambicioso: um gigantesco complexo balneário que, se realizado, daria à praia do José Menino um aspecto de primeiro mundo. As obras foram orçadas em Cr\$ 250 milhões (Cruzeiros), o equivalente a cerca de R\$ 300 milhões (Reais) nos dias de hoje. Porém, mais uma vez, o projeto não decolou. José Avelino faleceu e seus herdeiros, sem interesse pelas propriedades de Santos, negociaram a ilha com o empresário Claudio Peres Castanho Doneux. Urubuqueçaba e a concha acústica Assim como seu antecessor, Doneux, um experiente profissional do setor de construção, também apresentou um megaprojeto para a ocupação da Ilha Urubuqueçaba. No entanto, sua proposta envolvia apenas a ilha, uma vez que os terrenos da faixa de praia do José Menino já começavam a ser ocupados pelos edifícios que permanecem até hoje. O projeto de Doneux, executado nos anos 60, transformaria a Ilha Urubuqueçaba em uma base para a construção de seis edifícios, cada um com mais de 15 andares. Seria um verdadeiro condomínio sobre as ondas. No centro da ilha, também estaria previsto um hotel. O acesso seria feito por uma ponte de 150 metros de vão livre. O complexo ainda contaria, na parte da praia, com um imenso boulevard, onde seria construída uma concha acústica ultramoderna para mais de 7 mil pessoas, além de outros equipamentos de lazer, dentro de uma praça arborizada. “Apesar deste projeto, também, naufragar, Doneux manteve a ilha no seu patrimônio pessoal, situação sustentada até os dias de hoje. O empresário santista faleceu nos anos 70. Por muito tempo a ilha continuou como alvo de especulações, mas ninguém conseguiu despejar os urubus de sua morada e a natureza segue viva na orla santista. Sorte a de todos os santistas”, concluiu Sérgio Willians em seu blog.