Homem acredita que o animal usou as garras para atingi-lo (Arquivo pessoal/ Victor Alschefsky) Após a matéria publicada por A Tribuna sobre a mulher atacada por um gavião em Santos, no litoral de São Paulo, um homem de 30 anos procurou a equipe de reportagem nesta sexta-feira (11) para relatar que também foi vítima de um ataque semelhante, na mesma região do Boqueirão. Ele precisou levar pontos na orelha e até hoje evita passar pelo local com medo em razão dos ataques ocorridos nos últimos meses. (Veja no vídeo mais abaixo) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Victor Alschefsky contou que estava fazendo uma entrega em um prédio perto da Praça Palmares. Ele estacionou o carro no sentido praia e atravessou a praça carregando pacotes. Quando já estava subindo na calçada do prédio, sentiu uma pancada forte na cabeça. “Eu pensei que fosse um skate que tivesse voado na minha direção, porque foi muito forte. Eu caí de joelhos, atordoado, e aí vi um gavião enorme do meu lado”, relatou. Ele acredita que o animal usou as garras para atingi-lo. A pancada arrancou um pedaço da orelha esquerda dele, que começou a sangrar bastante. “Coloquei a mão na orelha e já estava saindo muito sangue. O porteiro do prédio me ajudou, me deu água, ficou tentando estancar o sangue. Eu fiquei uns 10 minutos lá dentro, porque sangrava demais.” Mesmo ferido, Victor fez a entrega. Quando saiu novamente para ir até o carro, que estava estacionado do outro lado da praça, o gavião voltou a atacá-lo. “Ele veio de novo para cima de mim. Aí eu corri de volta para dentro do prédio. Esperei um pouco, depois fui dar uma volta enorme, passando pelo outro lado da rua, para não passar por ali. Mesmo assim, fiquei filmando do carro e ele não atacava ninguém. Parecia que era só comigo.” Segundo ele, na ocasião, havia crianças, idosos e ciclistas passando pelo mesmo local sem serem incomodados pelo animal. Em um vídeo gravado por ele pós-ataque, mostra o papel com sangue que ele utilizou para tentar estancar e o gavião pousando em um poste. -Homem atacado gavião Santos (1.469364) Atendimento médico Depois de terminar as entregas do dia, Victor foi até a Unidade de Pronto Atendimento do Canal 5, onde levou pontos no ferimento. Ele contou que os médicos inicialmente não acreditaram que a lesão tinha sido provocada por um gavião. “Ficaram meio debochando, até eu mostrar o vídeo que gravei dele. Aí eles acreditaram.” Medo de novos ataques Victor voltou a trabalhar na região outras vezes depois do ataque, mas confessa que sempre fica receoso. “Teve outro dia que eu fui lá e vi ele de novo na árvore. Eu fiquei prestando atenção, porque pode pegar uma criança, uma idosa. É perigoso.” O caso de Victor foi registrado meses antes do ataque sofrido por uma mulher no início desta semana, também no Boqueirão, quando a vítima foi atingida na cabeça por um gavião enquanto caminhava pela cidade. Na última reportagem publicada por A Tribuna, a Prefeitura de Santos afirmou que não foi notificada recentemente sobre ataque de gavião. Quando há registro, a Guarda Municipal Ambiental e a Polícia Ambiental são acionadas para avaliar o animal e o ambiente e, se houver necessidade, encaminhá-lo para o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras), do Orquidário Municipal (José Menino). A Tribuna entrou em contato novamente com a Polícia Militar Ambiental, com a Prefeitura e com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para solicitar um novo posicionamento. A Prefeitura de Santos respondeu, em nota, exatamente a mesma coisa que no ataque da matéria anterior: "A Prefeitura de Santos informa que não foi notificada recentemente sobre ataque de gavião. Quando há registro, a Guarda Municipal Ambiental (GCM) e a Polícia Ambiental são acionadas para avaliar o animal e o ambiente e, se houver necessidade, encaminhá-lo para o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras), do Orquidário Municipal (José Menino)". Disse, ainda, que a GCM visitou o local da ocorrência e não encontrou o animal silvestre ou vítimas no local. Espécie O biólogo Eric Comin explicou que a espécie não pôde ser identificada com precisão pelas imagens, mas que é, sem dúvida, um gavião — uma ave de rapina que vem sendo avistada com frequência na região. Segundo ele, o comportamento agressivo provavelmente está relacionado ao estresse causado pelo movimento intenso de pessoas e veículos, além da defesa de ninhos. “Eles fazem ninhos na copa das árvores, em locais altos. Essa região tem árvores grandes e é propícia para ninhal. O barulho, o trânsito, a movimentação constante podem fazer com que eles se sintam ameaçados”, afirmou Comin. Ele também destacou que essas aves encontram alimento com facilidade em áreas urbanas, devido à presença abundante de pombos, roedores e aves menores, o que contribui para a permanência delas na cidade. “Esses animais pertencem à natureza, e nosso dever é cuidar e protegê-los. Mas o estresse ambiental pode alterar o comportamento e levar a ataques quando se sentem ameaçados”, completou. Relembre o outro caso Ataque aconteceu na rua Minas Gerais; Segundo a vítima, pelo menos outras duas mulheres já foram atacadas pelo mesmo animal na região (Vanessa Rodrigues/AT e Reprodução/Redes sociais) Uma moradora do Embaré, em Santos, no litoral de São Paulo, foi atacada por um gavião enquanto caminhava pelas ruas do Boqueirão. O ataque ocorreu na esquina das ruas Minas Gerais e Washington Luiz, e deixou a mulher com um corte na cabeça. Segundo ela, que preferiu não ser identificada, outras duas mulheres da mesma região também já teriam sido bicadas pelo mesmo animal. O caso aconteceu na tarde da quinta-feira passada (3). A moradora, de 39 anos, contou para A Tribuna que caminhava pela Rua Pedro de Toledo em direção à Tolentino Filgueiras, quando decidiu seguir pelo interior do bairro, porque não queria ir pela orla. Ao atravessar a Rua Minas Gerais, sentiu um forte impacto na cabeça. “Foi como se um cano pesado tivesse batido na minha cabeça. Ouvi o barulho, senti uma tontura e uma dor aguda. Fiquei desnorteada na hora”, relatou. Sem entender de imediato o que tinha acontecido, a mulher foi avisada por um rapaz que passava pelo local de que havia sido atacada por um gavião. Uma mulher também parou para ajudá-la e verificou que havia um corte sangrando na cabeça, de aproximadamente um centímetro. A munícipe foi levada até um salão de beleza próximo, onde recebeu os primeiros socorros e lavou o ferimento. Ela procurou, em seguida, a Policlínica do Embaré, onde foi orientada a tomar a vacina antitetânica, já que a ave não é transmissora de raiva. “A enfermeira me tranquilizou dizendo que a antitetânica já era suficiente”, contou. Ainda segundo a vítima, pelo menos outras duas mulheres já foram atacadas pelo mesmo animal na região. Uma delas é recepcionista do salão que a socorreu. No momento do socorro, a moradora ainda avistou o gavião pousado tranquilamente em um poste, observando a movimentação. Com tudo que a mulher se lembrava, ela decidiu pesquisar imagens na internet para identificar a espécie e concluiu que se tratava de um gavião-asa-de-telha. A munícipe disse que o corte já está cicatrizado, mas que ainda sente leve dor ao tocar o local. Por cautela, ela evita caminhar novamente pela mesma rua. “Só quero que algo seja feito para evitar que outras pessoas passem por isso”, concluiu. Visão de biólogo Segundo o biólogo Eric Comin, o gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus) teria apresentado comportamento que pode estar relacionado à defesa de um ninho. “É uma espécie relativamente grande, com envergadura de até 1,20 metro, e que se adaptou bem ao ambiente urbano. Com a diminuição de áreas naturais, eles passaram a fazer ninhos em árvores de rua, postes ou até em prédios. Não é uma ave migratória, então costuma permanecer no mesmo território”, explicou. O especialista destacou que o gavião é bastante territorial e defende ativamente o ninho, especialmente durante o período reprodutivo. “Provavelmente havia um ninho próximo, e ele interpretou a pessoa como uma ameaça. Não é um animal agressivo sem motivo, ele só está defendendo o espaço e os filhotes”, disse. O gavião-asa-de-telha é muito comum no Brasil, pode aparecer no litoral de São Paulo e em outros países da América do Sul. Ele se alimenta principalmente de pequenas aves, roedores, insetos e lagartos, ajudando a controlar essas populações nas cidades. “Não é o vilão da história — ele cumpre um papel ecológico importante”, completou o biólogo.