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Segunda-feira

3 de Agosto de 2020

Homem supera decepções e dores das drogas ao construir jardins em Santos

Aos 57 anos, José Carlos Rodrigues da Silva percorreu mais de seis mil quilômetros à procura de si mesmo

Aos 57 anos, José Carlos Rodrigues da Silva percorreu mais de seis mil quilômetros à procura de si mesmo. Nascido em Nova Iguaçu (RJ) e abandonado atrás de uma igreja – “em uma bacia de bosta”, como diz –, ele parece ter emergido do labirinto que levou consigo no peito pelas ruas onde morou, Brasil afora. Hoje, em um cantinho na Avenida Pedro Lessa, em Santos, acalenta o sonho de recuperar o sorriso, arrancado do rosto pela cocaína: ele não tem nenhum dente na boca. 

Já o riso, a alegria que brota de dentro, aos poucos volta à face. Na edícula, cedida por um dos vários benfeitores que cruzaram seu caminho para tirá-lo de vez das ruas, constrói jardins e hortas suspensas, com a madeira que encontra nas esquinas da vida. 

“Não tô mais aceitando encomendas”, diz ele, entre festivo e surpreso. Além de ter vendido tudo, tem encomendas suficientes para mantê-lo ocupado por um bom tempo. “Não posso decepcionar, tenho que conseguir atender, mas não tenho máquinas”. O trabalho é todo manual e a elas, suas mãos, se refere como “as máquinas movidas a arroz e feijão”. 

Abandono

Nem todo final feliz tem um início triste. Mas quanto mais triste o início, menos provável a felicidade no fim. Nesse sentido, a alegria aparente de uma adoção, a quem é abandonado, para José se mostraria um pesadelo. “Eles faziam questão de dizer que eu tinha sido encontrado em uma bacia”. ‘Eles’, no caso, o pai, a mãe e duas irmãs maiores. 

O mau-trato extrapolou a casa em Nova Iguaçu e ganhou a escola. Motivo de riso entre as outras crianças, começou a nutrir o desejo de desaparecer no mundo. A oportunidade veio aos 17 anos: um dia, despediu-se para servir o Exército Brasileiro e jamais voltou.

O que era fuga virou a busca por si. A primeira parada foi em Porto Velho (RO). “Fui para onde ninguém me conhecia. Não queria ninguém olhando pra mim com cara de piedade”. 

Lá, foi dominado pela febre do ouro. Ao longo do Rio Madeira, ajudou a abrir na mata clareiras clandestinas para o garimpo. Também foi lá que conheceu as drogas, os quatro Cs de sua perdição: cigarro, cachaça, cocaína e crack. As pepitas de ouro que arrancava da terra não criavam raiz em sua posse: gastava tudo. 

Após dez anos, desistiu do garimpo e de Rondônia ao sentir um incômodo crescente com a violência. Segundo recorda, havia uma caminhonete nas cercanias. Era tipo lotação: só saía cheia, mas de cadáveres. “Cabiam dez. Cinco com os pés voltados para a cabine, cinco para fora”, relembra. “Se não morresse de malária, morreria na pistola”.  Foi parar no interior de Goiás. E virou escravo. 

Caça e caçador

Trabalhava doze horas por dia, com almoço, janta e alojamento inclusos. Não precisava se preocupar com nada. Nem com o salário. “Chegava a hora de receber, eles perguntavam, ‘pegou cachaça?’, ‘pegou cigarro?’ e iam descontando. No fim, mesmo quem não pegava nada ficava sempre devendo”.

E quem devia não podia partir, tinha que pagar. Nesse aspecto, a segurança era muito zelosa. Mas jamais intransponível. José conta: “Eles davam comida, mas não carne. A gente tinha que caçar no final do dia. Cada vez era um”. 

O dia da caça também podia ser o do caçador. Se uma preá ou cotia sobreviviam, era um escravo a menos na fazenda. No seu dia de caçar, sabia que também seria caçado. Mas não olhou para trás: andou por 60 dias na mata cerrada, seguindo o curso de riachos e igarapés em sua sanha pelos rios. Quando deu por si, estava em algum lugar de Minas Gerais. 

Foi bem acolhido. Cortou cana e fez carvão. O trabalho era duro, mas dentro da lei. Ficou por três anos, antes de seguir o seu destino: o fundo do poço também é o ponto de retorno. 

Desespero e oração

“Eu me perdia na cidade grande”, recorda. As perdições se sucediam: no Rio de Janeiro, escolhia a marquise onde moraria por um dia, na Avenida Presidente Vargas. As drogas eram a companhia constante. “Morar na rua é uma arte. Não pode ser estúpido ou ignorante”. 

Mas foi em São Paulo que ele se abandonou, como diz. “Queria morrer”. Até sonhar com Deus. “Escrevi uma carta pra Ele, rezei”. No sonho, Deus lhe dava esperança. Dizia que era possível. Começaria, então, uma batalha de corpo e alma para retomar-se, algo que duraria ainda muitos anos. 

Percebeu que deveria distrair-se, até de si, para escapar das tentações. Começou a passar os dias na Biblioteca Mário de Andrade, da Prefeitura de São Paulo. “Li vários livros, Machado de Assis, autoajuda. Mas gosto de Nietsche, Ecce Homo, Zaratustra.. lia e relia, me absorvia”. 

Já sem o crack, o que recebia da boa vontade alheia ou das latas que catava (“o dinheiro está no chão”, diz), investia R$ 1,50 em uma lan house, onde ouvia música. Aqui, a determinação de José soará como um milagre: ele aprendeu Inglês, Francês e Espanhol pelas músicas que ouvia nesses idiomas, afirma. Se verdade ou lenda, é fato: José fala Inglês com boa pronúncia e desenvoltura.

Deus e os apitos

Em suas andanças, chegou a Cubatão. Lá, morou na Vila Esperança. “Ouvia dois apitos, de trem e de navio”. Os apitos, e mais um sonho com Deus, se revelariam o tiro de misericórdia contra a droga. “Ele me pediu para louvá-lo pela música”.

Inicialmente, tentou cantar. Mas foi ao assobiar, usando as mãos como se fosse uma flauta, que teve uma epifania – o som era similar ao dos apitos. “Aquilo me envolveu. Foi o tiro final. Ponto 50 contra a droga”.

Já em Santos, está há quatro anos sem usar nada, mesmo nas ruas. “Comecei a sair de perto quando alguém usava”. Passou a viver de pequenos trabalhos à vizinhança, na Aparecida. Ao ficar conhecido, angariou simpatias. E pela primeira vez, viu que não estava mais fugindo. “Mude seus pensamentos, e será mudado também o seu destino”, afirma José, o homem que venceu a batalha contra si mesmo.

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