O carcará chama atenção pelo porte: mede de 50 a 60 centímetros de comprimento e pode ter mais de 1,20 metro de envergadura (Arquivo pessoal/ Andressa Queiroz) A tarde de trabalho da dentista Andressa Queiroz Gomes, de 41 anos, foi interrompida por uma visita inesperada no consultório localizado na Avenida Almirante Cochrane, no Canal 5, em Santos. Um gavião bateu de leve na janela do prédio comercial, impressionando quem estava no local, e depois pousou diante do vidro, permanecendo por alguns minutos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Eu estava atendendo um paciente quando vi uma sombra vindo em direção à janela. A envergadura dele é grande, e deu até um estrondo, uma batida leve no vidro. Na hora achei que fosse o vidro quebrando. Quando olhei, vi o gavião parado ali. Pedi licença para o paciente, perguntei se podia tirar umas fotos, e ele também tirou. O animal ficou uns cinco minutos e depois voou”, relembrou. Segundo a dentista, a presença das aves na região não é rara. Há cerca de um mês e meio, um casal passou a ser visto frequentemente sobrevoando o Canal 5 e a esquina da Pedro Lessa. “Depois das quatro da tarde, eles ficam mais agitados, fazem barulho, cantam e sobrevoam a área. Uma vez pousaram no coqueiro da entrada do prédio e chamaram a atenção de várias pessoas, que começaram a tirar fotos. Eles também costumam ficar numa antena coletiva do prédio vizinho”, contou. Aves adaptáveis De acordo com o biólogo e observador de aves Fábio Barata, o animal registrado é um carcará (Caracara plancus), ave de rapina muito presente no Brasil e popularmente confundida com águia. “É uma espécie adaptável, encontrada em campos, cerrados e até nas cidades. Pode ser vista sozinha ou em grupo, quase sempre em busca de carcaças ou caçando pequenos animais. Tem fama de oportunista e resistente, dificilmente passa fome”, explicou. O especialista detalha que o carcará chama atenção pelo porte: mede de 50 a 60 centímetros de comprimento e pode ter mais de 1,20 metro de envergadura. Possui um “solidéu” preto na cabeça, face avermelhada, peito rajado e patas amarelas. “Em voo lembra um urubu, mas se diferencia pelas asas mais estreitas e a cauda mais longa”, acrescentou. Já o biólogo Eric Comin reforça que a adaptação ao ambiente urbano está ligada à abundância de alimento e abrigo. “Essas aves se tornaram presença comum nos centros urbanos. Onde há pombos, roedores e restos de comida, o carcará encontra condições para viver. Eles também buscam refúgio em prédios e antenas. É um comportamento que se repete com outras espécies de rapina, como o asa-de-telha”, disse. Espetáculo ao entardecer Enquanto cientistas destacam a resistência e a inteligência da espécie, moradores do Canal 5 acompanham diariamente as aparições do casal de carcarás. Para Andressa, a lembrança do encontro inesperado na janela virou motivo de encantamento. “No começo foi um susto, mas depois virou um espetáculo poder ver ele tão de perto”, contou.