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Sábado

20 de Julho de 2019

Faixa de areia da Ponta da Praia, em Santos, volta a encolher

Após aumento de 20 cm no nível de sedimentos, maré inibe ganho na Ponta da Praia; segundo especialista, o recuo é considerado normal

Após registrar aumento de 20 centímetros no nível de areia acumulada na área protegida pela barreira submersa da Ponta da Praia, em outubro passado, o trecho da orla santista voltou a perder sedimentos. Quem afirma é o professor do Departamento de Recursos Hídricos da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Tiago Zenker Gireli.

Um dos desenvolvedores do projeto-piloto para minimizar os efeitos da erosão e os danos provocados pelas ressacas naquela região – em conjunto com a também docente da instituição paulista, Patrícia Dalsoglio Garcia –, Gireli atribuiu a perda de sedimentos ao comportamento mais agressivo da maré. 

“Em função de estarmos tendo um ano muito mais energético em termos de ondas do que o ano passado, a obra (barreira) parou de acumular areia e até perdeu parte do que tinha acumulado até outubro”, diz.

A volumetria desprendida do local será analisada na próxima semana, durante levantamento para verificar a situação da barreira submersa instalada na Ponta da Praia. 

“Este era um trecho que sofria um recuo bastante acentuado desde 2010 e mesmo em um ano com muitos eventos extremos, tem se mantido relativamente estável. O que não deixa de ser um ganho”, continua o pesquisador. Ele afirma que a barreira tem se comportado conforme previsto nos modelos computacionais. 

A passagem de uma forte ressaca no final de semana passado provocou a quebra e 25 metros de mureta na Ponta da Praia. Foi a primeira avaria desde a instalação da barreira submersa. “A estrutura tem cumprido seu papel que é o de reduzir a energia das ondas pela arrebentação sobre os bags”, explica o pesquisador.

De acordo com o engenheiro da Secretaria Municipal de Governo (Segov), Ernesto Tabuchi, será licitado nesse semestre mergulho para verificar as condições da barreira. “O prazo de avaliação e monitoramento (das estruturas) é de cinco anos, ou seja, a conclusão dos resultados somente será finalizada em 2023”.

Recuo

Em dezembro passado, relatório dos pesquisadores indicou a elevação de 20 centímetros de areia na faixa protegida pela barreira. O estudo foi realizado no intervalo de janeiro a outubro de 2018. A instalação das estruturas teve início em janeiro daquele ano, terminando 90 dias depois. “A informação que temos até o momento é a de que não houve nenhum dano à estrutura”, revela Gireli.

Ele assegura que avaliação sobre a batimetria (medição da profundidade do mar) mais conclusivas será realizada nos próximos meses. A intervenção teve custo de R$ 3 milhões, liberados pelo Ministério Público Estadual e resultantes da aplicação de multa ambiental por um acidente ocorrido no Porto de Santos. 

Os pesquisadores esperam que no futuro o projeto possa ser ampliado até o Canal 4. Por ora, a Administração santista descarta a expansão, por falta de recursos. “Há também necessidade de aguardar um período maior para saber se os resultados são seguros, porque o ano de 2018 foi atípico quanto às ressacas”, afirma Tabuchi.

Como é

Composta por 49 sacos geotêxteis (bags), com 300 toneladas de areia cada e instalados em forma de L a partir da altura da Rua Afonso Celso de Paula Lima, a estrutura serve para reduzir a força das águas no local. Outra linha paralela à orla tem o objetivo de ajudar no combate à erosão (perda de areia). 

O professor da Unicamp, Tiago Zenker Girelli apresentou de dez meses da implantação dos bags, entre janeiro e outubro do ano passado. Segundo ele, à época, as movimentações marítimas estavam mais calmas e a faixa de areia próxima à área da instalação dos bags havia engordado 20 centímetros. A marca, então, era animadora, em vista de que aquela área perdia cerca de 10 centímetros de sedimentos ao ano.

Bags reduziram o impacto da última ressaca

A combinação maré alta e forte ressaca registrada no final de semana serviu de teste de fogo. Apesar de os fenômenos meteorológicos serem responsáveis pela quebra de 25 metros de mureta (1,25% de um total de dois quilômetros) e inundações de vias próximas naquela região, especialistas afirmam que os bags (sacos) de areia alocados no mar reduziram os impactos das ondas. E que sem eles, os estragos poderiam ser ainda maiores.

O comportamento das estruturas submersas continuará a ser avaliado até agosto, durante a janela climática de maior ocorrência de ressacas na região. “Os resultados parciais se mostram positivos, mas não são suficientes ainda para evitar eventos excepcionais (como a ressaca co final de semana)”, afirma o engenheiro da Prefeitura, Ernesto Tabuchi.

“Conceitualmente, sabemos que eles (bags) favorecem a dissipação da energia das ondas e deste modo protegem a praia de erosão. Mas, eles não têm a função de proteger da alta da maré, e nós tivemos uma maré muito alta conjugada a ondas elevadas na tarde de sábado”, resume a engenheira civil Alexandra Sampaio, coordenadora do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas na Unisanta (NPH-Unisanta).

A especialista explica que o sensor da Praticagem registrou pico de onda de 2,43 metros próximo da Ilha das Palmas e altura de nível do mar na Ponta de Praia de 2,10 metros. 
“Neste evento, eles (bags) podem ter dissipado a energia das ondas, atenuando seu impacto. No entanto, a maré muito elevada favoreceu a propagação dessas ondas em uma altura favorável ao galgamento (vazão da massa de água) e ruptura de parte das estruturas ali presentes”, continua.

Severos

O coordenador da Defesa Civil de Santos, Daniel Onias, sustenta que sem as estruturas submersas os danos seriam mais severos. A reconstrução da mureta teve início na manhã de quarta-feira, e a ressaca não afetou a cronograma de intervenções viários na Ponta da Praia.

Já o climatologista Rodolfo Bonafim assegura que as estruturas santistas estão subdimensionadas para enfrentar a elevação global do nível do mar. “Faz-se preciso ouvir especialistas da Holanda e Veneza (localidades que foram erguidas abaixo no nível da água). E, quem sabe, buscar outras soluções complementares, como quebra-mar”.