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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

Era uma vez: Santos enfrenta com coragem a gripe espanhola

Cidade viveu pandemia entre outubro de dezembro de 1918, contabilizando mais de 800 mortos; escolas e comércio foram fechados

Santos, 12 de outubro de 1918. A cidade estava aflita. Os últimos vapores chegados do Rio de Janeiro traziam a bordo diversos tripulantes e passageiros atacados pela temível gripe que assolava o mundo, a que carregava o selo espanhol por causa da notoriedade explicitada por aquele país ibérico. Notícias do exterior davam conta de que o agressivo vírus Influenza já extinguia mais vidas humanas do que a Grande Guerra (1914-1918) travada na Europa, África e Ásia.

Muita gente presumia que a doença era algo criado como arma de guerra biológica. Outros tantos, que se tratava da ira de Deus, manifestada contra sua criação, o homem, em razão de sua latente ignorância, especialmente por insistir em travar guerras insanas e estúpidas. Contudo, sem importar-se com a imensa variante de teses, a gripe era, de fato, uma dura realidade e precisava ser combatida.

O Influenza espanhol desembarcou no Brasil em setembro de 1918, pelo Porto do Recife (PE). Os hospedeiros eram tripulantes e passageiros do vapor inglês Demerara, que zarpara de Lisboa semanas antes. Seu destino era o Rio de Janeiro. Antes, ainda faria escala em Salvador (BA). As autoridades brasileiras ouviam com descaso as notícias trazidas de Portugal, acerca dos sofrimentos provocados pela pandemia na Europa. Não criaram protocolos de vigilância, permitindo, assim, a chegada do mal que aniquilava vidas em todos os cantos do globo.

Menos de duas semanas após a chegada do Demerara ao Rio, o vírus se espalhou pelas principais cidades do Nordeste e na cidade carioca. Chegar ao Litoral Paulista era algo inevitável, como a imprensa já concluía em suas manchetes. O problema é que as autoridades sanitárias brasileiras alegavam que os “riscos não eram de se amedrontar”, como dissera à mídia o diretor-geral de Saúde Pública do Brasil, Carlos Seidl. Ele estava, obviamente, muito enganado.

A doença se alastrou rapidamente e de modo agressivo. O Rio de Janeiro, por exemplo, registrou mais de 14 mil mortos em três meses. São Paulo, outros 5,3 mil.

Crise sanitária

Se existia uma população acostumada a enfrentar problemas endêmicos de saúde, esta era a de Santos. Desde o século 19, os santistas encaravam epidemias de variadas naturezas: coqueluche, febre amarela, peste bubônica, varíola, tuberculose, entre outras moléstias responsáveis pela morte de mais de 30 mil pessoas entre 1880 e 1900.

Aos santistas, o pior ano havia sido o de 1892, quando morreram 4.173 pessoas, o correspondente a 15% da população da Cidade na época. Destes, 1.742 haviam falecido com diagnóstico de febre amarela e 823 de varíola, além de 130 com tuberculose. Porém, na conta havia viajantes de passagem pelo Litoral, especialmente tripulantes de navios.

Talvez por ter sofrido tanto com outras epidemias, Santos inicialmente não levou muito a sério o Influenza espanhol, até porque ele fora encarado inicialmente pelo governo central como uma gripe comum. Mas o preço pelo descaso foi alto. Em uma semana, o número de doentes chegou a 10 mil em Santos e arredores, com média de 2 mil novos infectados por dia.

No dia 21 de outubro, quando os serviços da cidade estavam desorganizados, tendo cessado os trabalhos das Companhia Docas e das oficinas, é que se providenciou o fechamento de escolas e casas de diversões, além de parte substancial do comércio.

O número de óbitos causados pela infecção espanhola começou com três no dia 18, subindo a dez no dia 22, aumentando sempre a cada 24 horas, para chegar a 34 no dia 28, atingindo 61 no último dia de outubro. A maior parte das vítimas era oriunda das áreas populares, como Macuco, Campo Grande e morros.

Soldados da saúde

Tão logo os primeiros casos foram sendo registrados, o médico Pereira da Cunha, então delegado substituto de Saúde de Santos, definiu as estratégias de combate à nova e desconhecida epidemia, já tornada pandemia. O primeiro passo era manter a calma. As experiências noticiadas davam conta da ineficiência das ações adotadas no Rio. Ainda assim, elas eram exercidas, principalmente nos navios que adentravam ao Porto de Santos, de onde vinham muitos infectados.

Na cidade santista, de 14 a 31 de outubro, só na Santa Casa foram internadas 740 pessoas. Outras 682 tiveram o mesmo caminho em novembro. Na Beneficência Portuguesa, a situação não era diferente, até que chegou um momento em que não havia mais leitos disponíveis, fazendo com que diversas entidades cedessem seus espaços para abrigar os infectados, como o Centro Espanhol de Santos, que viu o salão de bilhar e o teatro se transformarem em enfermarias.

Profissionais da Saúde eram recrutados em todos os lados. Muitos ficaram doentes, como os médicos Aurélio de Carvalho, Guedes Coelho e Horácio Brandão. No Campo Grande, o comandante da guerra era o médico e poeta José Martins Fontes, que se desdobrava para atender, além do posto médico do bairro, a Sociedade Beneficente dos Empregados da Cia. Docas, onde eram recebidos os doentes do Macuco. Ao seu lado, trabalhava arduamente o médico Ulysses Barbuda.

Muitos médicos e enfermeiros vieram de São Paulo para socorrer os santistas, apesar de na Capital Paulista a gripe também bater impiedosa, provocando ao final 5.331 óbitos.

Estima-se que, no fim da epidemia em Santos, terminada em dezembro, a gripe espanhola tenha atingido 90% da população local, deixando um triste rastro de 853 óbitos, elevando a taxa de mortalidade do Município a 26 por mil habitantes. No ano seguinte, diante de todas as medidas preventivas, a Cidade voltou à normalidade. As escolas e o comércio reabriram, e o Influenza espanhol se tornara apenas uma triste página na história de um povo guerreiro, que sempre soube lutar e reerguer-se diante das provas que o destino apresenta. E não será diferente agora.

Sergio Willians é jornalista e pesquisador da história de Santos. Conheça seu trabalho no site Memória Santista.

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