Engenheiro se desilude com profissão e vira tatuador de sucesso em Santos: 'Não sabia desenhar'

Kreyner La Scala conta com um dos estúdios de tatuagem mais badalados da cidade. Profissional tem mais de 130 mil seguidores nas redes sociais e atrai clientes com estilo 'Geek'

O tatuador Kreyner La Scala, de 32 anos, conta com diversos prêmios nas prateleiras de seu badalado estúdio de tatuagens em Santos, no litoral de São Paulo, e faz sucesso nas redes sociais com mais de 130 mil seguidores. Apesar disso, ele já esteve 'enquadrado' em uma realidade completamente diferente. Natural de Santos, ele se formou em engenharia ambiental, mas se desiludiu após presenciar casos de corrupção e sequer sabia desenhar há pouco mais de oito anos. Entre diferentes caminhos, sua vida tomou a direção do sucesso mesmo com o descrédito dado por colegas de profissão, amigos e até familiares. A equipe de A Tribuna foi até o “La Scala Ink”, conversou com o tatuador e com um dos seus funcionários. Confira a videorreportagem acima. 

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La Scala contou que está no ramo há aproximadamente oito anos e que, antes, sequer sabia desenhar. “Nunca imaginei ser tatuador e nunca desenhei na vida. Aprendi a desenhar para tatuar”, explica.  

Ele também contou sobre como era a sua vida acadêmica e sua inserção no mercado de trabalho como profissional recém-formado. “Antes, fiz administração, mas não me encontrei. Depois de conversar com um professor, mudei para engenharia [ambiental], pois sempre gostei muito de cálculo e [matérias] exatas. Fiz alguns estágios e me formei, mas, em todos os lugares que passei, vi coisas que não estavam de acordo com os meus princípios”, conta. “Eles viam a parte de meio ambiente apenas como gasto e tentavam fazer tudo do ‘jeitinho mais barato’”.  

Além do descaso, episódios de corrupção nas empresas onde trabalhava o afastaram de vez da profissão. “Vi [muitos casos de corrupção] mesmo. É muito dinheiro envolvido, principalmente em obras grandes”, relata La Scala, que explica também que não se sentia confortável com o fato de prejudicar o meio ambiente enquanto os patrões lucravam. “Já estava me fazendo mal”. 

Kreyner La Scala mostra a concepção de um dos seus desenhos 'Geeks' (Foto: Thiago D'Almeida/AT)

Desiludido com a carreira, ele ainda trabalhou com o pai, que tinha uma empresa de engenharia, mas outro acontecimento marcante o desestabilizou. “Tinha saído do meu último emprego e estava ajudando o meu pai, mas a empresa levou ‘calotes’ e acabou quebrando”, diz. “Ele teve depressão e tivemos problemas familiares. Então, posso dizer que estava em uma das piores situações que já vivi, financeira e psicologicamente. Pensei que, já que estava 'ali embaixo’, precisava voltar de uma forma diferente”.  

Dito e feito. La Scala começou a pensar em maneiras para melhorar de vida e conversou com um amigo desenhista sobre a possibilidade de aprender um novo ofício. Ele explicou que, na época, já tinha os ‘braços fechados’ e, como era vocalista e teve passagens por bandas de rock na Baixada Santista, era inspirado pelo visual de grandes astros da música. 

“Eu não tinha facilidade e precisei me esforçar bastante”, relembra. “Por muito tempo, quase ninguém me incentivou, praticamente apenas a minha mãe. Me perguntavam: ‘Você não vai trabalhar? Não vai fazer nada?’. Mas fiquei literalmente focado por dois anos fazendo apenas duas coisas: estudando e tatuando. Não saía, perdi várias amizades e contato com muita gente, mas vejo que foi bom, já que ficaram pessoas que acreditam e estão ali de verdade. Já estava ruim, então, pior não conseguiria ficar”. 

La Scala relatou que os dois anos de aprendizado e prática foram extremamente importantes, já que não conseguia auxílio de colegas da profissão mesmo para tirar dúvidas. “Ninguém me ajudava. Lembro que pedi dicas para um tatuador (já experiente) sobre o meu traço, mas ele respondeu apenas que ‘os deuses da tatuagem me abençoaram”. 

La Scala faz tatuagem 'Geek' no braço de um cliente (Foto: Thiago D'Almeida/AT)

Ele contou relatou também que chegou a ser assaltado em um dos seus primeiros estúdios de tatuagem e que os ladrões levaram equipamentos avaliados no valor de cerca de R$ 25 mil. De acordo com seu relato, foi preciso 'estourar' cartões de crédito de alguns familiares para comprar novos equipamentos.

Hoje, La Scala conta com diversos prêmios e uma clientela fiel, que acompanha cada passo profissional através de suas redes sociais. Apenas no Instagram, o tatuador conta com aproximadamente 132 mil seguidores, mas também é ativo em outras plataformas.  

De acordo com o tatuador, a personalização das tatuagens e o ímpeto para fazer trabalhos cada vez mais autorais foram algumas das situações responsáveis pelo seu sucesso, mas as tatuagens ‘Geeks’ simbolizaram a explosão na internet. “Gosto muito desse universo, sou apaixonado desde ‘pivete’. Sempre digo que, artisticamente, sou muito da cultura pop. Entendo e respeito os artistas mais antigos, mas a minha paixão verdadeira é por esse universo, tanto que meu traço é muito ligado aos quadrinhos e mangás”. 

Fernando Esc, tatuador do estúdio e amigo de Kreyner (Foto: Thiago D'Almeida/AT)

Apesar de ter passado por situações difíceis no início, quando era desprezado por outros tatuadores, La Scala faz questão de convocar novos talentos. Fernando Esc, que trabalha no “La Scala Inc”, é um desses casos. “Comecei a tatuar em 2017. Já eramos amigos pois participamos de uma banda [de rock] quando eramos adolescentes. Me deu a oportunidade de começar a aprender com ele do zero. Sempre me ajudou no que eu tinha dificuldade, tanto na parte artística, de desenho, quanto da própria tatuagem”, explica. “Existem muitas referências dele no meu 'trampo'”.  

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