Eleição histórica do Centro dos Estudantes de Santos completa 40 anos

Nos dias 11 e 12 de junho de 1980, 17.145 universitários e secundaristas elegeram a diretoria CES

A história brasileira mostra que o movimento estudantil sempre teve um papel nas grandes lutas da sociedade. A ousadia, a irreverência e o espírito contestador são algumas das características dos jovens que os tornam tão temidos pelas autoridades.

Em 10 de maio de 1977, o então secretário de Estado da Segurança Pública, Erasmo Dias, foi categórico ao ser questionado sobre as mobilizações realizadas por esse grupo. “Temos a força nas mãos e sabemos o que queremos. E o que não queremos é o movimento estudantil no País”.

Apesar da repressão naquele período, marcado por uma ditadura militar que chegou ao fim somente em 1985, os estudantes voltaram a ganhar projeção e tiveram um papel decisivo na virada dessas páginas da história do País.

Um importante trecho dessa narrativa foi escrito em Santos há 40 anos. Nos dias 11 e 12 de junho de 1980, 17.145 universitários e secundaristas das cidades da região se mobilizaram para eleger a diretoria do Centro dos Estudantes de Santos (CES).

O pleito é considerado o maior da história da instituição e ficou marcado pela retomada das atividades da entidade, que foram interrompidas em dezembro de 1968, após o Governo Federal baixar o Ato Institucional nº5 (AI-5).

Eleito presidente do CES naquela ocasião, o então estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos (Faus – da atual Universidade Católica de Santos) Eduardo Sanovicz relembra que, a partir de 1976, as ações mais relevantes de resistência à ditadura se deram no movimento estudantil, que conseguia ter algum grau de organização.

“Essas mobilizações começaram na USP (Universidade de São Paulo) com a criação do DCE (Diretório Central dos Estudantes) Livre Alexandre Vannuchi Leme (líder estudantil assassinado pela ditadura militar em 1973) e foram se espalhando”, explica ele, que é hoje presidente da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear).

Eduardo Sanovicz relembra que as ações mais relevantes de resistência à ditadura se deram no movimento estudantil (Foto: Irandy Ribas)

Em Santos, esse movimento ganhou musculatura a partir de 1978, com o engajamento dos estudantes nas campanhas pelas liberdades democráticas e pela anistia. A partir daí, vários diretórios e centros acadêmicos passaram a se reunir nos conselhos de entidades estudantis.

“Duas bandeiras nos mobilizavam: a luta pelo ensino público e gratuito para todos e contra o aumento abusivo das mensalidades. Decidimos que, no início de 1980, faríamos o congresso de reconstrução do CES, que ocorreu na Faus, em abril”, diz.

A partir daí, foi marcada a eleição para junho daquele ano. A chapa ‘Todo Mundo no Centro’, de Sanovicz, formada por militantes ligados ao PCB, foi a vencedora ao obter 6.845 votos.

Em segundo lugar, ficou a ‘Mobilização Estudantil’, liderada pelo então estudante de Jornalismo Dojival Vieira dos Santos, com 5.674 sufrágios. Esse grupo foi uma espécie de embrião do PT na região.

Capitaneada pelo estudante de Turismo Marco Antônio Campanella e composta por pessoas ligadas do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), a ‘Chega Mais’ obteve 4.168 votos. Foram apurados 312 sufrágios nulos e 145 em branco.

Ousadia e convicção superaram obstáculos

A mobilização dos estudantes naquela eleição só não foi maior devido às dificuldades impostas por algumas faculdades e pela proibição de instalação de urnas no interior das escolas da rede estadual.

No total, foram 54 mesas coletoras de votos, mas quatro delas tiveram os sufrágios anulados na apuração, devido a possíveis irregularidades. Para boicotar o pleito, três colégios organizaram excursões com os secundaristas ao Playcenter (primeiro grande parque de diversões da Capital, já extinto).

O jornalista Marco Antônio Campanella, que foi candidato a presidente pela chapa ‘Chega Mais’, recorda que, em vários colégios, só era possível fazer campanha “na marra”.

“A gente chegou a ser retirado à força de algumas (escolas) por conta da intransigência da direção”, explica ele, que mora há 39 anos em Brasília. Ele é atualmente membro do Comitê Central do PCdoB.

O jornalista e advogado Dojival Vieira dos Santos cita a dificuldade de preparar o material de campanha, como rodar panfletos no mimeógrafo a álcool e estampar camisetas com tela de silk screen. Porém, o sacrifício valeu a pena.

“Eu sinto orgulho de ter feito parte de uma geração que foi grande na história da luta pela retomada da democracia do Brasil e que formou grandes líderes na Baixada Santista. Tudo era feito com muita intensidade e paixão”.

Embrião

Ele comenta que a chapa que liderava – ‘Mobilização Estudantil’ – foi o embrião do PT local, pois reunia trotskistas, pessoas ligadas à Igreja Católica e independentes, que foram a base para a criação da sigla na região. O movimento pró-PT da Baixada Santista foi lançado em 10 de agosto de 1979, em Cubatão. Atualmente, Dojival preside o PDT na Cidade.

O advogado Sérgio Pardal Freudenthal foi o secretário-geral do grupo vencedor do pleito. Na ocasião, ele estudava Engenharia. “A grandiosidade daquela eleição marcou a reconstrução do CES, que é o grande formador político da região”.

Entidade busca reaver propriedade do imóvel

Uma luta antiga do CES ainda não chegou ao fim após 40 anos: reaver a propriedade do imóvel que abriga a entidade, na Avenida Ana Costa, 308, no Campo Grande.

Em dezembro de 1968, após o Governo Federal comandado por militares ter baixado o AI-5, a sede foi fechada e passada à União, que, posteriormente, a transferiu à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em 1975.

Nesse período, o prédio abrigou a sede regional do Projeto Rondon (iniciativa que buscava envolver os jovens no fortalecimento da cidadania em locais isolados do País). Só em outubro de 1982, os estudantes retomaram o prédio. A partir de 1981, a entidade passou a representar apenas os universitários.

A atual presidente do CES, Aline Cabral, explica que o grupo está reunindo os documentos para reaver a propriedade do local. “Vamos retomar isso ao fim da quarentena. Essa é uma das metas da nossa gestão, bem como levantar recursos para fazer uma reforma na sede”, afirma a dirigente.

Questão financeira

Presidente do CES entre 2015 e 2017, Tarcísio de Andrade diz que chegou a participar de reuniões na Superintendência do Patrimônio da União (SPU) e na UFSCar para tratar do tema.

Na ocasião, o entendimento era que o trâmite mais rápido para resolver a situação seria a União dar posse do imóvel à UFSCar para, na sequência, transferi-lo ao CES.

“Ao longo da minha gestão, preparamos toda a documentação, mas isso não foi concluído por esbarrarmos em questão financeira: para recebê-lo da UFSCar, teríamos uma despesa (com impostos e registro do prédio) estimada na época em R$ 40 mil”, justifica.

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