Neymar ao lado da diretora Luciene Picasso (Arquivo Pessoal) Corredores, carteiras, lousas e notas boas fazem parte da origem de um dos maiores astros do futebol. Antes de vestir a camisa 10 e representar o Alvinegro, Neymar da Silva Santos Júnior jogava com a camisa 11 em interclasses, representando sua turma. O ‘Efeito Neymar’ foi presente até mesmo no Colégio Pitágoras Santos, na Vila Belmiro, onde estudou durante quatro anos em uma turma só para jogadores. No segundo ano do ensino médio, subiu para o time profissional e teve que se adaptar a uma nova rotina. Neste momento, se viu diante de uma escolha difícil: seguir o sonho de se tornar jogador ou continuar os estudos. Decisão pela qual já havia escolhido interromper. Ciente da situação, a diretora pedagógica do Colégio Lupe Picasso, atualmente Pitágoras Santos, Luciene Picasso, resolveu o problema não apenas para Neymar, mas também para outros meninos que passavam pela mesma dificuldade. “Nós decidimos montar uma turma à noite para ajudar esses atletas que teriam que parar ou ir para uma escola estadual. Eles não queriam ir para uma escola estadual, e, então, não restava outra alternativa. Decidimos criar essa turma para que eles pudessem continuar os estudos”, explicou. O craque usou a camisa onze nas competições (Alexsander Ferraz / AT) Em uma entrevista ao podcast Podpah, Neymar falou com carinho e admiração sobre a diretora, relembrando o momento em que Luciene criou essa turma para que os jogadores não precisassem interromper os estudos. Essa troca de amor e respeito existe até hoje com seus novos alunos. “Eu acho que a gente não faz nada esperando algo em troca, mas eu recebi aquele momento com muita alegria e gratidão e pensei: valeu a pena, sem mensurar qualquer esforço, sem querer agradar, sem querer puxar saco, ele faz parte da minha história e eu faço parte da dele”, comentou emocionada. Neymar em sala de aula Embora o craque precisasse faltar com frequência devido a viagens e treinos, ele ainda assim se destacava como um excelente aluno, com boas notas. A diretora relembra que, quando estava em sala de aula, Neymar se mostrava presente e dedicado, e a maior parte do seu lanche era jogando na quadra. “Nunca permiti que ninguém tirasse a liberdade dele. Quando ele subiu, havia muita especulação da imprensa para fazer reportagens, e eu nunca permiti, naquela época, porque achava que o único lugar onde ele ainda tinha liberdade era na escola”. Uma das provas de artes que Neymar Júnior realizou (Alexsander Ferraz / AT) Segundo Luciene, Neymar era um aluno como qualquer outro, brincalhão, fazia piadas e tinha suas particularidades de jovem. Ele gostava de inglês e matemática, sendo bom em tudo, mas sua matéria preferida era a educação física. O craque participava dos interclasses, e sua turma, formada por jogadores como Felipe Ferrari e Lucas Crispim, era alvo da rivalidade dos outros alunos, que gostariam de derrotá-la. No entanto, não havia para ninguém, pois se os meninos se destacavam pela sua força e habilidade. “Tudo que ele sabe, ele aprendeu na quadra da escola”, brincou a diretora. Na quadra do colégio, uma homenagem mostra o rosto de Neymar (Alexsander Ferraz / AT) Durante seu tempo de escola, Luciene já percebia que ele iria longe, pois esse era o seu objetivo, mostrando que queria muito isso, sendo totalmente focado e respirando futebol. “Eu imaginava que ele ia ser muito bom, grande, mas não nessa proporção. Eu imaginava isso porque todo mundo que via o Neymar brincando na quadra, jogando bola, dizia: ‘Esse menino é muito rápido’. Você via que ele tinha um pensamento genial na hora das jogadas. Eu acho que ele é um gênio mesmo nesse sentido, ele conseguia fazer coisas que os outros meninos não conseguiam acompanhar.” Prontuário escolar do craque (Alexsander Ferraz / AT) Momento engraçado No período da noite, enquanto estudava, Neymar levou para a escola uma cobra de brinquedo que parecia real. A coordenadora do colégio que ficava em uma das salas, saiu para ir à secretaria, ele aproveitou a oportunidade para entrar e colocar a cobra embaixo da mesa dela. “Essa mulher me liga desesperada, ‘Luciene por favor, volte aqui venha aqui agora, porque olha, um aluno me aprontou uma, quase morri de susto’ e ela já era uma senhora. Quando voltei para a escola, da janela, ele se matava de dar risada de ver o susto da coordenadora”, relembrou. Relação com alunos Uma escola precisa ser envolvida de amor, dedicação, mais ou menos o que uma família irá fazer para uma criança, essa troca faz toda a diferença na vida delas, segundo Luciene. “Aqui é uma extensão da família, a criança feliz aprende melhor. A criança segura, ela sabe no momento de angústia, quem procurar, então faz parte da nossa filosofia ser assim”, acrescentou. Para ela, é essencial olhar para o indivíduo de maneira única e entender o que ele representa para a escola, "aqui não é um depósito, nem se quantifica em números, as pessoas têm nomes". Criar um horário para que um estudante não precise interromper seus estudos é um ato de empatia com aquele ser. Atualmente, outros ‘atletinhas’ estudam no colégio, em turmas variadas, e, conforme explica a diretora, o Clube do Santos lida com essa situação de forma sensacional. “É uma parceria, né? A educação tem que estar junto com o esporte, porque essa proposta do Santos é sensacional. Nós ajudamos eles e eles nos ajudam. Eles vêm, checam notas, comportamento, e, no caso de comportamento, chegam a ligar para os pais quando a escola informa que o aluno está excedendo os limites. É uma parceria muito importante, porque ele não deve ter disciplina só no campo, ele tem que respeitar, acima de tudo”. Ela ainda complementa que o aluno vai bagunçar, mas que ele precisa obedecer aos professores da mesma forma que respeita o técnico em campo. Luciene espera que Neymar retorne à escola para que possa assinar a camisa que usou em uma das competições pelo colégio. A diretora guarda registros com Neymar e camisas autografadas (Alexsander Ferraz / AT)