Cartão postal com foto de José Marques Pereira que registra uma comemoração dos operários realizada na Praça da República, próximo de onde atualmente é a Rua Visconde do Rio Branco (Reprodução/ José Marques Pereira) A primeira celebração/manifestação do 1º de Maio no Brasil aconteceu em Santos, no litoral de São Paulo. Foi, de acordo com alguns historiadores, em 1895, organizada por trabalhadores portuários na sede do Centro Socialista da cidade. Segundo a Prefeitura de Santos, a data foi comemorada ali antes mesmo de qualquer reconhecimento oficial do governo brasileiro. Dois anos antes, tentativas semelhantes em outras regiões foram reprimidas. Por isso, para muitos historiadores, Santos ocupa um lugar simbólico e pioneiro na história do movimento operário nacional. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Paulo Rezzutti, pesquisador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, relatou para a BBC Brasil que esse primeiro ato foi impulsionado pelas ideias socialistas e anarquistas trazidas por imigrantes europeus após a abolição da escravidão. Seria o início da formação de uma classe trabalhadora organizada no Brasil. Do cais ao país: o 1º de Maio no Brasil Com o tempo, a ideia do Dia do Trabalho foi se espalhando. No Rio de Janeiro, ainda no final do século 19, já havia manifestações em datas diferentes — como o 14 de julho, em referência à Revolução Francesa. A historiadora Isabel Bilhão também contou que essas primeiras celebrações tinham um caráter festivo e patriótico, ligadas da mesma forma ao entusiasmo com a recente proclamação da República. Mesmo sem respaldo legal, trabalhadores continuaram realizando protestos e atos no 1º de Maio, influenciados pelos eventos de Chicago em 1886, quando uma greve nos Estados Unidos pela jornada de oito horas resultou em mortes e marcou o nascimento simbólico do Dia Internacional dos Trabalhadores. A referência estrangeira ecoou no Brasil e ganhou força, especialmente em São Paulo, onde ocorreram greves históricas, como a de 1917, considerada a primeira greve geral do país. Artur Bernardes foi presidente do país entre 1922 e 1926 (Arquivo Nacional) A oficialização e a mudança de tom Foi apenas em 1924, durante o governo do presidente Artur Bernardes, que a data foi oficialmente declarada feriado nacional no Brasil. De acordo com o decreto assinado em 26 de setembro daquele ano, o dia seria "consagrado à confraternidade universal das classes operárias e à comemoração dos mártires do trabalho". Essa decisão refletia a pressão cada vez maior dos trabalhadores organizados, mesmo com sindicatos ainda não legalizados. Porém, a comemoração ainda mantinha seu caráter reivindicatório. Foi somente a partir dos anos 1930 que esse cenário começou a mudar. Vargas, CLT e a festa do trabalho Com Getúlio Vargas no poder, o 1º de Maio ganhou um novo significado. O governo não alterou o decreto original de 1924, mas mudou sua essência. A data, antes marcada por protestos e bandeiras revolucionárias, foi transformada em um evento cívico, repleto de símbolos nacionais. Primeira página da CLT, que foi também um dos pilares fundamentais da popularidade de Getúlio Vargas (Arquivo Nacional) Foi também no 1º de Maio, em 1943, que Vargas sancionou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O código de 922 artigos unificou a legislação trabalhista no país, definindo vários pontos, como a jornada de trabalho, férias, salário mínimo, segurança e previdência. A virada simbólica: de trabalhador a trabalho A mudança semântica é reveladora. O “Dia do Trabalhador” virou oficialmente o “Dia do Trabalho”. Na prática, isso significou a domesticação da data. Com o tempo, as manifestações deram lugar a desfiles, shows e sorteios de prêmios. Essa política fazia parte do projeto populista de Vargas, que criou um sindicalismo atrelado ao governo — o chamado “peleguismo”. Era uma forma de controlar e canalizar as insatisfações da classe trabalhadora dentro de um modelo de Estado centralizador. Manifestação em Santos, em frente à Prefeitura, em 1959 (Reprodução/ Fundação Arquivo e Memória de Santos) Santos e os ecos da luta Se hoje o 1º de Maio é mais associado ao lazer e ao descanso, a lembrança da manifestação pioneira de Santos em 1895 ajuda a resgatar o verdadeiro espírito da data. A mobilização santista — feita antes mesmo da data ser reconhecida como feriado (o que só aconteceu com a Lei 662, de 1949, promulgada por Eurico Gaspar Dutra) — mostra como os trabalhadores foram protagonistas dessa história desde o início. Em Santos, os primeiros a conquistar a jornada de oito horas foram os pedreiros, em 1907. Os marítimos só alcançaram esse direito em 1920, como informa a Prefeitura Municipal de Santos. A cidade, portanto, não apenas inaugurou a data no Brasil, mas também serviu como referência de organização e resistência trabalhista. O que resta do 1º de Maio? Hoje, o Dia do Trabalho no Brasil segue como feriado nacional, mas seu conteúdo político está esvaziado. A combinação entre institucionalização, festividades patrocinadas e mudanças nas formas de organização do trabalho ajudou a diluir o caráter reivindicatório da data. Ainda assim, revisitar a história de Santos e sua ligação com essa data permite entender que o 1º de Maio nasceu da luta. Não foi dado pelo Estado, mas conquistado por trabalhadores comuns — portuários, pedreiros, ferroviários — que, mesmo sem leis nem garantias, ousaram reivindicar um futuro melhor.