Fábio Fontes está há mais de 50 anos na Praticagem (Vanessa Rodrigues) Inicia hoje a série Os Protagonistas, dedicada a pessoas que, com talento, dedicação e impacto positivo, constroem histórias que inspiram a região. A cada matéria, um personagem de uma área de atuação contará um pouco da sua trajetória de vida e profissional. O presidente da Praticagem de São Paulo, Fábio Mello Fontes, há 56 anos em atividade, abre o espaço. Como começou a sua história profissional com a praticagem? Eu trouxe da infância e da juventude a ânsia de vincular minha vida ao mar. Desde garoto, por volta dos 10, 11 anos, quando ainda morava na (Rua) Euclides da Cunha, vinha para a Ponta da Praia ficar na ponte dos práticos olhando fascinado a entrada e saída de navios. Sempre pensava que um dia queria muito estar dentro deles. Enquanto os meninos da minha idade jogavam taco e bola, eu só queria ver os navios passando. Fui marinheiro nos navios à vela. Às vezes, penso que essa afinidade deve ter vindo de outras vidas. Fiz a escolha certa. Passei pela Marinha Mercante, e a decisão de me tornar prático surgiu em 1967, ainda como oficial do Lloyd, para ter um trabalho em que pudesse ficar mais perto da esposa e dos filhos. Foram meses difíceis. Debruçado nas cartas náuticas, eu estudava a geografia da região, todos os detalhes, marés, correntes, ventos, pesquisava a fundo o canal do Porto. De abril de 1968 a janeiro de 1969, só tinha olhos para os estudos: 16 horas por dia, inclusive Natal e Ano-Novo. Falava com minha esposa e meus filhos por telefone. O esforço foi compensado: passei em primeiro lugar. Era uma época em que navegar dependia muito mais do tirocínio do que dos equipamentos. Uma bússola magnética, carta náutica, uma roda de leme e nada mais, além do conhecimento teórico. Hoje em dia, a tecnologia garante mais segurança, mas nada substitui a inteligência e a expertise do homem. Quais foram os maiores desafios no início de sua carreira? O maior foi apresentar um trabalho o mais próximo da perfeição em cada um dos navios que eu manobrava, para compensar a desconfiança que a minha aparência excessivamente jovem causava nos comandantes. Eu tinha 30 anos, mas com cara de 23, 25, e eles não entendiam como alguém tão jovem poderia fazer um bom trabalho. Certa vez, fui designado como prático preferencial do (navio) Eugênio C, sabendo que certo comandante falava abertamente que prático, para manobrar navio dele, tinha que ter algum cabelo branco, e eu não tinha nenhum. Ele tinha dois metros de altura, uma voz gigantesca e me deixou nervoso. Eu tive que dizer firme para ele que tinha um certificado de habilitação expedido pelo Governo Federal Brasileiro, que me qualificava para manobrar qualquer tipo de navio. Falei que, se não me quisesse a bordo, teria que apresentar uma razão consistente, aí ele afinou. Depois de algumas manobras, ele se tranquilizou e ficamos amigos. Este bigode que eu tenho veio daqueles tempos, para parecer mais velho. Quais os maiores ensinamentos que a profissão lhe proporcionou? A praticagem me ensinou muito e continua ensinando. Lidamos com um universo de comandantes de todo tipo. Os nervosos e assustados atrapalham muito o trabalho do prático, e é preciso desenvolver habilidade para atuar com o comandante em cima, dando palpites sem o conhecimento da região. Um bom prático deve acumular inteligência, observação, paciência e experiência para lidar com as pessoas e com as situações inesperadas. Eu adoro meu trabalho, todo dia aprendo uma coisa nova. Recentemente, a Ponte dos Práticos recebeu o seu nome. Como o senhor se sentiu com essa homenagem? Fiquei emocionado e surpreso com a lembrança do meu nome. Estou há mais de 50 anos na Praticagem e essa estrutura faz parte de toda essa história. Fiquei muito feliz e agradeço a homenagem dos meus colegas. Muitos desconhecem a importância dessa ponte. Ela é a plataforma que nos conduz ao trabalho ágil para atender a mais de 14 mil navios por ano. Aqui ficam nossas lanchas e nossos marítimos, que podem ser acionados em até meio minuto para atender às emergências em qualquer hora do dia ou da noite, como já foi comprovado em vários casos ocorridos no Porto de Santos. O prático já realizou 30 mil manobras (Vanessa Rodrigues) A praticagem de Santos é referência de pioneirismo em todo o País. Como isto foi conquistado? Quando falamos em praticagem hoje, falamos em moderna tecnologia e inovação que alavancam a expertise dos práticos a serviço da segurança dos navios que chegam ao complexo santista, cada vez maiores em dimensões e volume de cargas. A Praticagem de São Paulo tem mudado paradigmas, numa contribuição efetiva para que os portos de Santos e São Sebastião continuem a bater recordes de movimentação de cargas. A preservação do meio ambiente é outro fator importante nas manobras. Os práticos, como assessores dos comandantes, operam navios com equipamentos gigantescos, que carregam cargas como granel líquido e petróleo, além do combustível a bordo. Nosso Centro de Coordenação, Comunicações e Operações de Tráfego, conhecido como C3OT, tem tecnologia de ponta e um sistema de coordenação do tráfego que atingiu o estado da arte, o mais dinâmico, mais preciso e evoluído, com atualização constante. Qual a dica o senhor daria aos jovens que sonham em seguir carreira, independente da área? Nunca seguir a escolha profissional por dinheiro. Já vi muitas pessoas ricas e infelizes com seu trabalho. Devem seguir o coração, procurar uma atividade em que sintam prazer, como eu faço. Depois de 30 mil manobras, eu mantenho a paixão do primeiro dia. Assim, vão viver muito e com muita saúde. Esse é o segredo para ser feliz. Você conhece alguém com uma história inspiradora de protagonismo em nossa região? Envie sua sugestão para comunicacao@grupo-tribuna.com Os mais indicados, com as melhores justificativas, avaliados por critérios de um comitê, poderão fazer parte de uma homenagem especial no projeto Protagonistas. Participe!