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Sábado

8 de Agosto de 2020

Corrente solidária ajuda vendedor de pipoca durante pandemia do coronavírus em Santos

Pipoca do Seo José, conhecida entre alunos do colégio Presidente Kennedy, na Pompéia, fez com que um grupo de mães fizesse uma grande ação para o pipoqueiro, que está sem poder trabalhar há quase dois meses

Quando a pandemia do novo coronavírus ainda não obrigava as pessoas a ficarem em isolamento social, em suas casas, e o comércio ainda funcionava, um vendedor de pipocas era figurinha carimbada em dois pontos no bairro Pompéia, em Santos. A Covid-19 interrompeu o trabalho de Seo José, mas ao mesmo tempo, uma ação dos clientes deu ao pipoqueiro um motivo para sorrir.

Seguindo as recomendações impostas pela Prefeitura de Santos, os ambulantes não podem seguir com o trabalho nas ruas, e Seo José não vende um saquinho de pipoca sequer há quase dois meses por conta da pandemia. Sabendo da situação, um grupo de mães de alunos do colégio Presidente Kennedy se uniu para uma ação de solidariedade em benefício do vendedor de pipocas mais querido de seus filhos.

Elas se uniram para juntar dinheiro para Seo José, ou o Tio José como a criançada costuma chamá-lo, uma vez que sem poder trabalhar, ele já estava sem ter como pagar o aluguel e, até mesmo, sem ter o que comer.

"Soubemos da história, o Seo José é uma figura conhecida e muito querida. Disponibilizei uma conta bancária e uma caxinha, dentro da escola, para quem tiver interesse em ajudar. Já levantamos uma boa quantia, uma parte já foi entregue a ele, e estamos arrecadando mais, até pelo fato de não sabermos quando essa pandemia irá acabar", explicou uma das mães, a confeccionadora Fernanda Rocha.

Outra mãe que se solidarizou em ficar responsável por fazer a conexão entre as doações e o pipoqueiro foi a oficial de Justiça Lilian Martins Araujo. "Nesse tempo de pandemia, as pessoas acabam não sabendo se podem ou não sair de casa, ficam com medo. E nessa corrente faltava alguém que desse o pontapé inicial. Me solidarizei e outras mães, também. E queremos muito ajudá-lo".

Lilian e Fernanda já disponibilizaram uma quantia que foi devidamente entregue para o pipoqueiro, que mora de aluguel, em um quartinho, em Santos. Além do dinheiro, Seo José recebeu doações de roupas e produtos de higiene.

Corrente solidária já entregou roupas, produtos de higiene e dinheiro para Seo José (Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Rocha)

Até pasta de dente

Poucos minutos depois do quarto e último gol, de Carlos Alberto Torres, na final da Copa de 1970, da Itália, que consagrou o tricampeonato da seleção brasileira, Seo José estava na praça da Independência, com um carrinho um pouco mais modesto, pintado de verde e amarelo, mas sempre vendendo pipoca, quando iniciou de fato a vida de ambulante, com 17 anos.

Prestes a completar 68 anos, a pipoca do Seo José é mais do que conhecida para mães, alunos e funcionários do colégio Presidente Kennedy, além de ser notada por quem passa na praça João Barbalho, também na Pompéia. Desacreditado com essa corrente solidária, Seo José é contido nas palavras por 'não saber como agradecer e retribuir'.

"Um grupo de mães me parou na rua, perguntou se eu continuava a vender com essa quarentena acontecendo. Sem eu pedir, elas começaram a ajudar, pediram meu telefone para poder conversar. Recebi um dinheirinho para pagar o aluguel, pagar umas outras coisas para me sustentar, mas também me entregaram roupa, muitas roupas, e outros produtos, sabonete, até pasta de dente, e eu nem tenho mais dentes", brinca o pipoqueiro.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, Seo José está no grupo de risco pela idade. Mas, segundo ele, os cuidados estão sendo tomados. "Tem que lavar bem as mãos, passar álcool, consegui máscaras que a prefeitura deu para usar na rua, no mercado, na farmácia. Essa Covid-19 veio que veio".

Durante a pandemia, Seo José não sai de casa sem máscara (Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Rocha)

E a pipoca?

Além de não poder vender, Seo José nota que até a presença das pessoas nas ruas diminuíram bastante, o que demonstra o tamanho da importância da quarentena e do isolamento social. O pipoqueiro diz que sua pipoca é da melhor qualidade.

"As crianças do (colégio) Kennedy adoram, querem saber da pipoca do tio da pipoca. E a minha é boa, principalmente a doce. Minha falecida mãe foi confeiteira, então eu sei bem preparar um bom caramelo e fazer uma pipoca da boa. Quando acabar isso tudo, me encontrem na praça ou em frente à escola", finaliza.

Sem saber até quando seguirá em quarentena, com comércios fechados, as mães seguirão com a corrente e permanecerão em contato com o Seo José para que, mais para frente, ele volte a trabalhar com seu carrinho de pipoca.

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