(Alexsander Ferraz/AT) Quando morava na Rua Princesa Isabel, próximo ao Canal 1, uma das aventuras do menino Renato Di Renzo era explorar de bicicleta o longínquo Canal 2 e seus arredores. Certo dia, ao passar com um amigo na Rua São Paulo, deparou-se com um edifício baixo, estendendo-se por quase toda a quadra, às costas da Beneficência Portuguesa. Era silencioso, mas vez ou outra ouvia gritos lá dentro e surgiam mãos acenando pela janela. Quando descobriram que ali era o hospício, a famigerada Casa de Saúde Anchieta, o amigo brincou: “Um dia você vai parar aqui”. “Trinta anos depois, o que me fez ficar no Anchieta nem foi o convite que me fizeram, mas essa profecia”, brinca Renato. Neste caso, a profecia não caiu do céu. “Eu era aquele menino que as outras mães diziam para os filhos ‘cuidado com o alemão, ele é terrível”, sorri. Espremido entre quatro irmãos – Renato é o segundo –, desde pequeno gostava de desenho. “Desenhava, ganhava prêmios na escola. Fazia quadrinhos, cartoons. Nem sabia ler, mas desenhava pra caramba”. A fama de artista se espalhou também na rua: vai ter bloco de Carnaval? Pede pro Renato desenhar a fantasia. E a prancha de pegar jacaré no mar? Pede pro Renato pintar. Os brinquedos? Renato inventa. O menino despontava por um caminho bem diferente daquele da mãe, Nilce, professora, e do pai, Sebastião Di Renzo, formado em Contabilidade, que trabalhava como corretor de café. “Meu pai ia nas fazendas buscar o café. Em casa, havia pilhas de latinhas e mesa de classificação”. Muito diferente também do avô, Luiz: imigrante italiano, sustentou os 13 filhos no fio da navalha da barbearia Liberdade, na Avenida Senador Feijó, em frente ao Castelinho – antigo prédio do Corpo de Bombeiros, onde hoje é a Câmara de Santos. “Meu avô falava pros filhos: ‘com 14 anos, vai pro salão; se cortar alguém, vai estudar”. Foram estudar o pai de Renato e o tio mais velho. Apesar do avô ser um dos líderes do movimento operário santista, no início dos anos 60 a barbearia era o point de políticos e comerciantes. Fascinado pelo salão, Renato saía do Colégio Santista, onde estudava, e ia quase todas as tardes visitar o avô. “Tinha aquelas cadeiras giratórias de ferro, com rococós, as navalhas... se usava toalha quente para fazer a barba, tirava-se o terno para escovar. Era um momento de muita imaginação pra mim”. Próxima parada: São Paulo Um dia, o Colégio Santista promoveu um concurso de teatro. Renato não poderia ficar de fora. Pegou Romeu e Julieta e escreveu a história para o sexo masculino – no Santista só estudavam meninos. “Me juntei aos que estavam sem trabalho, os piores”. Renato virou Julieta. “Eu estava com uma roupa emprestada de uma menina do Primo Ferreira, que tinha feito um papel para contar parte da História do Brasil, duas laranjas nos peitos e coturno”. A apresentação fez tanto sucesso que fortaleceu em Renato a convicção: “Não quero estudar Direito, Medicina, Engenharia, Química Industrial”. Subiu a Serra para estudar desenho. Matriculado no antigo Instituto de Arte e Decoração (iadê), teve aulas de desenho com Ruy Ohtake, de teatro com Naum Alves de Souza, de artes plásticas com Marcelo Nitsche. No olho do furacão artístico, de um colega que conhecia alguém que conhecia outro alguém, foi parar no Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Nessa época, teve contato com Os Mutantes, Tom Zé, Celly Campelo. “Fizeram shows no Oficina para arrecadar dinheiro. Era uma comunidade, todo mundo fazia de tudo lá, da faxina a construir cenários”. Mas seguia nas artes plásticas: de repente estava expondo seus próprios trabalhos. “Um dia, o Marcelo Nitsche olha pra minha cara: esses desenhos são seus? Quer expor na Praça Roosevelt?”. Depois, Bienal de Campinas, Salão de Santo André, de Niterói, Masp, Museu de Arte Moderna. “Você começa a ter outras relações, começa a fazer parte dessa turma. Muito mais do que o estudo, minha formação veio dessa efervescência”. Mas o estudo não era negligenciado: já na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), foi trabalhar na empresa Forma, de móveis e mobiliários de arte, um sonho de qualquer designer à época. Estabelecido, Renato torceu o nariz: “Saí, porque achava que os desenhos arquitetônicos estavam endurecendo minha mão”. Foi parar no magistério: convidado para dar aulas de arte por uns meses no Colégio Hebraico Brasileiro Renascença, ficou 10 anos. Nesse meio tempo, houve o retorno a Santos, também pela porta do magistério. Linguagem arquitetônica Renato recebeu o convite para 20 aulas sobre linguagem arquitetônica na escola Joaquim Nabuco – que hoje é o Objetivo –, para preparar os alunos ao vestibular, que incluiria o tema. As 20 aulas foram eficazes: a maioria dos alunos passou e o professor ficou de vez. O leque se abriu, vieram Carmo, Marza, faculdades de Artes Cênicas e de Pedagogia do Excepcional. Passou a subir e descer a Serra no ritmo da régua e do compasso. Em paralelo, ao assistir um espetáculo de teatro na Capital, ficou sabendo que estavam em busca de alguém para fazer cenários e figurinos da nova peça de Antunes Filho. “Peguei meus desenhos e fui lá. Antunes me chamou para dirigir figurinos e cenografia. Assim, voltei para o teatro também”. Até atender o telefonema que mudaria a sua vida. Anchieta Em 3 de maio de 1989, o governo da então prefeita de Santos Telma de Souza realizou uma intervenção na Casa de Saúde Anchieta, não por acaso conhecida como Casa dos Horrores: entre o presenciado, pacientes nus, ‘enjaulados’, comendo nos latões em que defecavam. Onde cabiam 240 pessoas, havia 600. Com a intervenção, veio a proposta de um novo trabalho em saúde mental. “Alguém me indicou, porque precisavam de alguém que trabalhasse com pessoas, com outra visão”, recorda. “Queriam alguém que pudesse ‘brincar’ com os pacientes, passar tempo com eles”. Renato topou uma reunião para saber mais. “Perguntaram se eu tinha um projeto. ‘Não. Não conheço as pessoas, não as escutei, e vou fazer um projeto pra vida delas?”. Então levaram-no para conhecer as pessoas. Entraram pela ala feminina. Caminharam, chegaram a uma porta. “O que tem ali?”. “É a ala masculina”. “Vamos lá”. “Não pode”, disseram as internas, assustadas. Renato olhou para os médicos. “Eles estão comigo”. Autorizado. Abriram a porta. Do outro lado, estava um rapaz cabeludo, unhas grandes, pijama listrado, cigarrinho no dedo. “O que você veio fazer aqui?”. “Vim fazer teatro”, respondeu Renato e apontou para uma tevê no pátio. “Novela”. Juntou gente. O rapaz disse: “quero fazer novela, quero ser o papa!”. “Já é um papel”. Um interno negro, enorme, se aproximou: “eu quero ser o pirata”. Começou o espetáculo. Todos assistindo com interesse. O enredo improvisado, com o pirata roubando o tesouro do Vaticano. O papa foi atrás do ladrão. “Agora vocês precisam de um desfecho”. Renato imaginou que haveria algo com prisão e justiça. Mas os dois: “vamos dividir o tesouro”. E o Vaticano? “Fica sem nada”. A Renato, foi a glória: “Cheguei na sala do diretor: vou ficar”. Projeto Renato atacou em várias frentes, de acordo com os gostos e aptidões dos internos. Dirigiu no pátio o teatro, fez com eles um jornal no mimeógrafo, e a partir de doações de tinta, pintaram o hospício. “Pegava livros de artistas, Toulose-Lautrec, Beatles, dava pra eles verem as figuras. Saíram o verde-água, o cinza claro, do lado de fora e de dentro. As pessoas queriam saber o que estava acontecendo”. As latas de ferro, de banha, manteiga, que seriam jogadas no lixo, foram transformadas em arte e até arquitetos foram ao Anchieta comprá-las. Iniciaram uma confecção, vendendo camisetas produzidas ‘no hospício’ até para lojas de grife da Cidade. Então veio a Rádio Tamtam. “Chegou um 3 em 1 (aparelho de som), 32 caixinhas acústicas, que instalamos no pátio. Pegamos portas que iriam pro lixo, montamos um quadrado de estúdio e estreamos”. A programação era leitura dos jornais pela manhã, esporte ao meio-dia, Roberto Carlos e entrevistas com parentes que visitam os internos à tarde. Até o dia que uma senhora em visita ao Anchieta perdeu lá dentro a carteira. “Ela veio pedir para anunciarmos na rádio”. Anunciaram. Em menos de um minuto, uma mão com a carteira apareceu pela janelinha. “Funciona! Percebi que estavam ouvindo. Pirei pra levar a rádio embora”. Do tamanho da sua loucura Assim, na Rádio Universal, numa segunda-feira, 16 horas, estreava o Tamtam, um programa do tamanho da sua loucura. “Fizemos uma rádio cênica, teatral, podiam ter nomes diferentes. Um deles disse que queria ser Marcelo Bruno. ‘Por quê?’. ‘Pesquisei, em Santos todo surfista é Marcelo ou Bruno’. O outro veio com Alizandrio Créscio... ‘então você vai ser correspondente em Brasília, vai ficar embaixo da rampa do Planalto: vai ver por baixo, o que ninguém vê”. No dia da estreia, chegou uma equipe do SBT. Filmaram, entrevistaram, foram parar no então jornal apresentado por Boris Casoy: “Um grupo de loucos invade uma rádio’, ele disse”. No dia seguinte, telefonemas de Record, Fantástico, Caco Barcellos, Aqui Agora (que foi cinco vezes), entrevista no Jô Soares. Começaram a imitar o estilo do programa em outras emissoras. “Foi aí que criamos o slogan: ‘aqui, sim, tem louco de verdade!”. Saíram da Universal, foram para a Cacique, depois Rádio Clube. O programa ficou 10 anos no ar, até 1999. Loucura é vida Esta história não acabou. Ao contrário: cresceu. O projeto virou ONG, abriu as portas a qualquer ser humano, com síndrome de Down a deficiências físicas, como surdez e cegueira, a mentais, sem distinção – incluindo pessoas ditas ‘normais’. Hoje, a base é o Café Teatro Rolidei, no terceiro piso do Teatro Municipal Braz Cubas (Av. Pinheiro Machado, 48, Vila Mathias). Lá são atendidas 150 pessoas, em teatro, dança, música, literatura, coral. “A loucura </CW>é a arte. Não há a má loucura: o que há é dor. Todo o resto pertence à vida”.