As margens do rio são ocupadas por construções irregulares, como o Dique da Vila Gilda, a maior favela de palafitas do Brasil (Irandy Ribas / Arquivo AT) Santos, no litoral de São Paulo, abriga a maior favela em palafitas da América Latina, uma comunidade que, após décadas de desafios, está prestes a ser transformada por um ambicioso projeto habitacional. Localizado na Zona Noroeste, o Dique da Vila Gilda enfrenta, há mais de 30 anos, problemas de moradia precária, saúde pública, violência e falta de saneamento básico. A área, que abrange cerca de 26 mil pessoas e 3.490 casas, fica em uma região de mangue preservado e pertence à União, estendendo-se da margem do Rio Bugres até a fronteira com São Vicente. O bairro passou por três grandes impactos ambientais. Na década de 1950, a drenagem do antigo Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS) causou a destruição de vegetação e a transformação do manguezal em áreas ocupáveis. Nas décadas seguintes, as invasões nas margens do rio e a construção de palafitas provocaram o segundo impacto ambiental. O terceiro foi a instalação do Lixão do Sambaiatuba em 1965, que durou mais de 30 anos, contaminando a região com lixo e chorume. A falta de infraestrutura sanitária coloca os moradores em risco de doenças infecciosas, com despejo de esgoto diretamente no rio. Além disso, apenas 17% das casas têm acesso a água encanada, e a maioria usa conexões clandestinas. As moradias, muitas de madeira, também apresentam riscos de incêndio devido à proximidade entre as casas. Projeto Parque Palafitas Há alguns anos, vem sendo discutido um projeto para melhorar as condições de moradia na região: o Parque Palafitas. Este projeto-piloto inovador prevê a construção de 60 unidades habitacionais no Dique da Vila Gilda, com a proposta de promover o bem-estar dos moradores e a recuperação ambiental. A primeira etapa do projeto, que envolve o estaqueamento da fundação, foi iniciada com a presença do prefeito Rogério Santos e autoridades locais. O Parque Palafitas será um modelo de urbanização sustentável, com iluminação pública, saneamento básico, energia solar, espaços de lazer e regeneração do mangue. O projeto inclui a construção de apartamentos e casas modulares, com áreas de 49,30 m² para apartamentos e 48,06 m² para casas. As construções serão feitas com painéis de madeira laminada para preservar a identidade local, e parte das moradias mais vulneráveis será removida para criar áreas de lazer e regeneração do mangue. O Parque também contará com redes de saneamento básico, drenagem, iluminação pública e um píer flutuante. O projeto foi possível graças à cessão de uma área pública pela Superintendência do Patrimônio da União (SPU) e tem licença ambiental para execução. O projeto de urbanização foi iniciado em 2018, com o apoio da Organização Comunitas e do arquiteto Jaime Lerner. As obras de fundação e superestrutura estão a cargo da TMK Engenharia S.A., com um investimento de R\$ 13,3 milhões. A construção das 60 unidades habitacionais terá um custo de R\$ 12,68 milhões, sendo a maior parte financiada pelo Governo do Estado. Moradora da comunidade, Lizandra Carvalho, de 30 anos, vive com seus cinco filhos em uma palafita e aguarda ansiosamente a mudança para o Parque Palafitas. Ela expressa sua gratidão pelo projeto, que representa uma chance de dar aos filhos uma vida mais digna e segura. "Essa conquista é toda deles, que terão uma vida mais digna, segura e feliz", diz Lizandra. O Parque Palafitas se destaca como um modelo de urbanização que une melhorias habitacionais e sustentabilidade ambiental, proporcionando uma nova perspectiva para a comunidade do Dique da Vila Gilda, em Santos.