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Terça-feira

22 de Outubro de 2019

Cemitério de Santos conta com cão 'funcionário' que auxilia munícipes na hora do adeus

Negão, o melhor amigo sem raça definida, age para distrair e dar paz àqueles que enfrentam a dor de uma perda

O badalar do sino anuncia a partida de mais um cortejo no Cemitério da Areia Branca, em Santos. E lá está ele, à frente do carrinho, da família e ao lado dos coveiros. Negão, como é conhecido o cachorro sem raça definida, parece agir intuitivamente para distrair e dar paz àqueles que enfrentam a dor de uma perda.  

Todos os dias, de manhã até o fechamento dos portões, Negão segue o mesmo ritual. Você pode se perguntar se esse cachorro não tem uma casa ou uma família. A resposta é sim, mas em uma estrutura pouco convencional. 

De manhã e à tarde, ele fica pelo cemitério, com seus amigos funcionários e vizinhos. Depois, vai para a Coordenadoria da Guarda Municipal, na Passarela do Samba Dráusio da Cruz, onde passa as noites fazendo companhia aos agentes.  

Chegada ao cemitério 

Negão chegou ao cemitério para acompanhar o enterro do seu amigo – ou, como muitos dizem, dono. Segundo os funcionários mais antigos, faz quase 11 anos que o cachorro está por lá.  

“O dono dele estava hospitalizado na Santa Casa de Santos e, quando morreu, o Negão parece ter sentido o cheiro. Veio sozinho para cá. Ninguém o trouxe. Veio pela rua. Ficava sentado lá na campa e, com o tempo, se apegou aos funcionários”, conta o oficial de administração do cemitério Nilson Nilzen, que antes trabalhava na sala de atendimento da Santa Casa. 

Hoje, o cão faz questão de seguir todos os cortejos na Areia Branca (Foto: Alexsander Ferraz/ AT)  

Há quem diga que o cachorro segue os cortejos pensando ser o dono, enquanto outros acreditam que ficou na Areia Branca pelos novos amigos. Fato é que Negão acaba sendo muito bem cuidado e mimado. “Ele gosta quando fazem carinho na cabeça dele. Vai se encostando nas pernas”, diz o comerciante Ronaldo da Silva.  

Alimentação 

O cão passeia calmamente entre as campas, dorme e faz sua principal refeição, preparada pela desempregada Vilma Oliveira dos Santos. Tem o que ele gosta: frango desfiado e fígado, ambos com arroz. “Ele não gosta de carne moída e só come o que eu faço.”  

Ração, ao menos no cemitério, Negão não come. Quando está na Guarda Municipal, é diferente. Lá também tem uma caminha feita com um pneu e personalizada com seu nome.  

“Trabalhei por um tempo no cemitério, e ele começou nos acompanhar até a coordenadoria da Guarda. Quando chegamos pela manhã, ele já está aqui. Fica todo feliz”, explica a guarda municipal Maria de Paulo Lima.  

Na Guarda Municipal, ele recebe todos os mimos, como cama e ração (Foto: Alexsander Ferraz/ AT)

Bicho solto 

Nilzen não soube de ninguém que quisesse levar Negão para casa, o que comoveu os profissionais e a comunidade do entorno. Muitos tentaram adotá-lo. O cão encanta pela tranquilidade e pelo olhar doce.  

Se você leu a matéria até aqui, saiba que o cachorro não tem interesse em mudar de família e de suas duas casas. “Ele é bicho solto. Gosta de viver assim. Uma moça o levou para o apartamento dela, onde passou pouco tempo. Hoje, o Negão foge quando a vê”, conta Rosana.  

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