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Casal de Santos protagoniza 1º casamento homoafetivo em igreja anglicana no Brasil: ‘Abençoados’

Após vencerem incêndio e covid-19, Marcelo e Márcio entraram para história, sendo reconhecidos pelo Consulado Britânico

Por: Ágata Luz  -  10/06/21  -  07:44
Atualizado em 10/06/21 - 08:42
        Casal celebrou união na igreja anglicana de Santos exatamente cinco anos depois que se conheceu
Casal celebrou união na igreja anglicana de Santos exatamente cinco anos depois que se conheceu   Foto: Arquivo Pessoal

A união do engenheiro civil Marcelo Leite Silva, de 47 anos, com o administrador Márcio Augusto Vinagre, de 42, celebrou uma nova era na igreja anglicana. Isso porque em março deste ano, os santistas que agora vivem em São Vicente protagonizaram o primeiro casamento homoafetivo da igreja no Brasil. Mas o fato da celebração se tornar histórica é apenas uma entre as diversas singularidades que cerca a união deles.


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O destino é um dos principais ‘cupidos’ do casal, pois ‘entrou em ação’ desde o dia que eles se conheceram: o encontro aconteceu em uma viagem que não era programada por nenhum dos dois. Além disso, outra ‘coincidência’ aconteceu 24h antes do casamento que ocorreu na Igreja Anglicana de Santos: o apartamento do casal pegou fogo e ambos tiveram que correr do incêndio apenas com a roupa do corpo. Porém, os ternos do ‘grande dia’ foram alguns dos poucos itens que se salvaram das chamas que atingiram 90% do imóvel.


Em conversa com A Tribuna, Marcelo conta detalhes da relação com o marido e a benção da união. “Uma história que envolve covid-19, enchente, incêndio, o reverendo Leandro e até o Palácio de Buckingham”, destaca.


O engenheiro civil ainda explica que a notícia do casamento entrar para a história foi uma surpresa para o casal, que foi reconhecido inclusive pelo Consulado-Geral Britânico São Paulo.


“A gente queria uma benção, uma benção espiritual. Eu sou bastante fervoroso, religioso, e ele também”, ressalta. Desta forma, o casal, por meio de amigos, soube que a igreja anglicana celebrava a união homoafetiva. “O reverendo Leandro é muito amigo da minha prima, então a gente resolveu ir conhecê-lo no começo deste ano e foi bem legal”, diz.


Então, Marcelo e Márcio se casaram no dia 5 de março de 2021, exatamente cinco anos após se conhecerem. Por conta dos protocolos sanitários impostos pela pandemia, o evento contou com a presença apenas de 48 convidados. “A cerimônia foi muito linda. Tivemos uma recepção, a gente alugou um restaurante para 200 pessoas e colocamos apenas 50. Foi tudo lindo, maravilhoso e simples. Menos é mais”, enfatiza o engenheiro civil.


       Após cerimônia na igreja, casal comemorou em um restaurante, com público restrito por conta da pandemia de covid-19
Após cerimônia na igreja, casal comemorou em um restaurante, com público restrito por conta da pandemia de covid-19   Foto: Arquivo Pessoal

Reconhecimento


Marcelo conta que no dia em que foi buscar a certidão de casamento da igreja anglicana, o reverendo Leandro afirmou que tinha uma novidade: “Ele falou: ‘olha, eu, você e o Márcio celebramos o primeiro casamento homoafetivo dentro da igreja anglicana em 103 anos de história. E quem sabe o primeiro casamento homoafetivo em uma igreja cristã no mundo, no Brasil é certeza’”.


Segundo o engenheiro civil, ele não acreditou na notícia e explicou ao religioso que já viu outros casamentos. “Então o reverendo falou que o que acontece é que as pessoas que são homoafetivas casam nas festas e salões e recebem uma benção. Não é uma cerimônia com dogma de entrar na igreja, ter a missa, alianças abençoadas, padrinhos, madrinhas, certidão e tudo”, relata.


A igreja anglicana chegou a realizar dois casamentos homoafetivos, mas não aconteceram dentro de um templo cristão. “Então nós passamos para a história”, diz. Por isso, dois meses após a cerimônia, Marcelo e Márcio receberam um e-mail do Consulado-Geral Britânico São Paulo parabenizando os homens pelo fato histórico.


       Com cerimônia registrada na Igreja Anglicana, casal recebeu carta do Consulado-Geral Britânico São Paulo
Com cerimônia registrada na Igreja Anglicana, casal recebeu carta do Consulado-Geral Britânico São Paulo   Foto: Arquivo Pessoal

“Realmente confirmaram que somos o primeiro casamento homoafetivo do Brasil e disseram que iam passar todos esses votos para a rainha Elizabeth ||, da Inglaterra, no Palácio de Buckingham”, enfatiza Marcelo.


O engenheiro civil afirma que o aniversário do reverendo Leandro também é no dia 11 de maio, desta forma, o intuito era surpreender o religioso com a notícia sobre o comunicado do Consulado. “Mas eu não consegui falar pra ele, ele se despediu antes. A gente não pode deixar para amanhã, o que pode fazer hoje. Ele partiu sem saber, mas partiu fazendo um fato histórico para a humanidade”, diz sobre a morte do reverendo Leandro Campos por covid-19 no dia 30 de maio.


“É uma história que me emociona muito, eu jamais pude imaginar que eu, meu marido e o reverendo íamos fazer história. Mas eu sou espiritualizado a ponto suficiente para dizer que ele fez história, cumpriu a missão dele e partiu”, ressalta.


‘Obstáculos’ até o casamento


Segundo Marcelo, a vontade de se casar no religioso se intensificou mais após ambos serem infectados pela covid-19 no ano passado. “No mês de julho, Márcio pegou covid-19 e foi internado. Assim que ele voltou, eu passei mal no Dia dos Pais e fui internado. Passei meu aniversário intubado e em coma, terrível. Fiquei adormecido por dias”, explica.


Para o engenheiro civil, a própria recuperação foi um milagre. “Graças a Deus eu voltei. E quando isso aconteceu, Márcio e eu decidimos nos casar na parte espiritual. Uma benção para celebrar a vitória de nossas vidas”, relata.


      Marcelo considera recuperação da covid-19 um milagre
Marcelo considera recuperação da covid-19 um milagre   Foto: Arquivo Pessoal

“O Márcio falou: ‘você quase morreu, eu quase perdi você’. Meu caso foi severo, grave mesmo. Era muita gente rezando, muito milagre”, diz.


No entanto, este não foi o único ‘obstáculo’ que o casal precisou enfrentar. Marcelo conta que no início de 2021, quando eles foram conversar com o reverendo para acertar os detalhes da cerimônia, uma forte chuva causou enchentes por toda a cidade santista. “Ficamos ilhados e perdemos a placa do carro”, ressalta.


Mais tarde, foi a vez do casal se deparar com fogo. Isso porque no dia 4 de março, faltando menos de 24h para a cerimônia, um incêndio atingiu o apartamento onde o casal vivia.


O fogo que começou provavelmente por um pico de energia no quarto de Marcelo e Márcio, destruiu 90% do imóvel e chegou a 800.ºC. “Meu marido fez a coisa mais bonita da vida dele quando falou: ‘amor, larga tudo e vem’. A gente correu só com a roupa do corpo mesmo”, explica.


De acordo com Marcelo, a tragédia só não foi maior, pois os bombeiros foram acionados e chegaram rapidamente: “Um fato interessante é que um dos bombeiros era meu primo”. Apesar do susto e de toda a mobilização que aconteceu, o casal não desistiu: “Buscamos forças e nos casamos”.


“Por incrível que pareça, salvaram algumas coisas. Entre elas, nossos ternos”, destaca o engenheiro. O reverendo Leandro, inclusive, perguntou aos homens se eles queriam postergar o evento. Porém, o casal não aceitou.


“Eu falei para o reverendo Leandro e para todos que estavam na igreja: ‘olha, eu tinha tudo, então quando as pessoas perguntavam o que a gente queria, a gente falava que não precisava de nada. Mas agora eu não tenho nada, então eu preciso da ajuda de todo mundo. Porém, eu tenho meu marido, então eu tenho tudo, bola pra frente’. Eu perdi algumas coisas, quer dizer que não tenho nada? Não, eu tenho meu marido, então é tudo”, destaca Marcelo.


Ainda segundo o engenheiro, o reverendo Leandro ‘brincou’ com tudo que aconteceu. “Vocês vieram marcar na enchente e casaram depois do incêndio. Então são fogo, água, ar, tudo. Vocês estão cobertos por tudo”, disse o religioso aos recém-casados.


Como tudo começou


O casal se conheceu no dia 5 de março de 2016 em uma viagem para Caverna do Diabo, em Eldorado, no Vale do Ribeira. Porém, segundo Marcelo, o passeio não estava previsto para nenhum dos dois. “Ele é guia turístico e foi substituir o amigo dele. Eu estava chegando do exterior e minha sobrinha desistiu de ir, então eu fui”, explica.


O caso deles, portanto, não foi ‘amor à primeira vista’. “Ele era muito palhaço, eu odiei. Ele me achou esnobe, a gente não se gostou”, relata. Portanto, o afeto que Márcio teve com o sobrinho de Marcelo chamou atenção do engenheiro.


“Minha irmã levou meu sobrinho que é autista e ele achou que eu e minha irmã éramos um casal porque a gente tem o mesmo sobrenome. Chegando na viagem, meu sobrinho queria entrar na cachoeira, mas ele não vai com ninguém e foi com Márcio. A gente achou super estranho”, conta. Desta forma, Marcelo admirou a atenção do guia turístico com o sobrinho e os dois começaram a conversar.


Mas como a viagem foi apenas durante o fim de semana e os dois perceberam gostos em comum, decidiram estender a conversa. “Eu o chamei para vir em casa durante a semana. Ele gosta muito de tirar foto, então falei que eu sei tirar e fiz várias fotos. Lógico que eu fui ‘malandro’, comecei a ver que ele é interessante, bonito e tudo”, destaca o engenheiro civil.


      Desde que começaram a namorar, casal viajou para diversos lugares.
Desde que começaram a namorar, casal viajou para diversos lugares.   Foto: Arquivo Pessoal

Após enviar as fotos para Márcio, Marcelo o convidou para casa novamente. “Como eu estava vindo do exterior, eu tinha falado para ele que não conhecia ninguém. Mas era mentira, eu sou daqui e ele acreditou na minha história”, relembra.


No mesmo dia, Márcio dormiu na casa de Marcelo e eles engataram o namoro ainda no mês de março de 2016. “Namoramos um ano e ele bateu o pé para a gente morar junto”, destaca. A partir daí, os homens compartilham a vida e diversas viagens: “Conhecemos bastantes lugares, a gente viajou o Brasil inteiro”.


Representatividade


Mesmo sem saber, o casal entrou para a história e, segundo eles, o maior sentimento em meio ao fato é orgulho. “Orgulho de saber que vale a pena acreditar no amor, ter história pra contar, não desistir de quem você ama, compartilhar a vida com outra pessoa, não importa se é do mesmo sexo ou de outro”, enfatiza o engenheiro civil.


Segundo ele, a união não busca afrontar ninguém. “Todo mundo sofre igual, ri igual e comemora igual. Então para que ter diferença ou distinção? A gente não quer fazer a cabeça de ninguém”, relata. Desta forma, Marcelo relata sobre a rotina com o marido: “Somos um casal como qualquer outro, tudo que um casal dito ‘normal’ passa, nós também passamos, somos normais”.


“A gente se sente completo porque nós somos abençoados por Deus. A gente não infringiu nenhuma lei, a igreja anglicana esteve com as portas abertas”, ressalta. Por isso, inspirar as pessoas a serem quem são verdadeiramente é motivo de muito orgulho: “As pessoas também podem insistir em serem felizes. Dá muita alegria saber que a gente conseguiu uma benção, é muito importante ser abençoado”.


      Marcelo e Márcio compartilham a vida juntos há cinco anos
Marcelo e Márcio compartilham a vida juntos há cinco anos   Foto: Arquivo Pessoal

“A gente fez uma coisa sagrada, nada contra a lei, nada de pecado, muito pelo contrário, nós fomos nós mesmos. O sentimento de tudo isso é orgulho da nossa história, na alegria, na tristeza, na saúde e na doença”, finaliza Marcelo Leite.


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