Durante a Segunda Guerra Mundial, o bairro passou por um processo de desvalorização. As famílias ricas construíram suas casas no Macuco, Campo Grande e Marapé (Divulgação/PMS) Com apenas 71 mil m², o menor bairro de Santos, no litoral de São Paulo, guarda histórias de imigração, tradição carnavalesca e operação logística ligada ao Porto, e agora recebe ações de revitalização do programa Viva Bairro, da Prefeitura. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pouco conhecido até por muitos santistas, o discreto Bairro Chinês guarda um importante pedaço da história local — e está logo na entrada da cidade. Quem chega a Santos pela região central inevitavelmente passa por ele, mesmo sem saber. Logo na chegada, uma escultura do Cristo Redentor feita com areia do mar dá boas-vindas e sinaliza que se está entrando em território santista. A estátua do Cristo, na entrada de Santos, tem mais 2,75 metros de altura e 900 quilos de peso (Divulgação/PMS) Areia da praia? O Cristo santista é feito de areia do mar, em uma técnica desenvolvida na cidade nos anos 60. A ideia de erguer o Cristo na entrada da cidade foi do artista, Pedro Germi. A estátua, depois de montada e vitrificada numa fórmula própria e secreta desenvolvida por ele, foi colocada sobre uma rocha de granito irregular, de 2,45 metros, extraída dos morros santistas. Apesar do número reduzido de residências — apenas 33 entre os 295 imóveis registrados em 2023 —, o bairro tem um papel relevante tanto no passado quanto no presente da Cidade. É berço de tradições culturais, como o carnaval de rua, e atualmente cumpre função estratégica na engrenagem logística do Porto de Santos. Motor da economia local Embora pequeno e pouco habitado, o Bairro Chinês abriga uma intensa movimentação comercial. Localizado próximo às principais vias de acesso ao cais santista, a região concentra mais de 20 empresas cadastradas na área de transporte rodoviário de carga, diretamente ligadas às operações do Porto de Santos. Com localização estratégica, entre a Avenida Visconde de São Leopoldo, as ruas São Bento e Visconde de Embaré, e a Praça Lions Clube, o bairro serve como ponto de apoio para caminhões, cargas e serviços logísticos, movimentando diariamente mercadorias que entram e saem pelo maior porto da América Latina. Em sua origem, o local abrigava muitas chácaras de imigrantes japoneses (Reprodução) História que resistiu ao tempo Cravado ao sopé dos morros do Pacheco e de São Bento, o Bairro Chinês já esteve fora do mapa oficial da cidade. Durante os anos 1970, foi incorporado ao Valongo e perdeu sua identidade formal. Somente em 2011, com a revisão da Lei de Uso e Ocupação do Solo, voltou a ter o status de bairro. Por que chinês? O nome curioso tem origem num equívoco histórico: a região foi inicialmente ocupada por imigrantes japoneses, que mantinham chácaras na área. Pelas feições orientais desses moradores, a população passou a se referir à região como "bairro chinês" — nome que se consolidou ao longo do tempo, mesmo sem ligação direta com a China. Posteriormente, o bairro recebeu também imigrantes portugueses, espanhóis e migrantes nordestinos, muitos dos quais chegaram à cidade para trabalhar no porto. Foi nesse contexto que a região ganhou pequenos comércios, como padarias, quitandas, farmácias, açougues e vendas de secos e molhados. Durante a Segunda Guerra Mundial, o bairro sofreu um processo de desvalorização. Famílias mais abastadas deixaram o local e migraram para bairros como Macuco, Campo Grande e Marapé. O regime militar, posteriormente, incorporou o bairro ao Valongo. Ainda assim, o espírito de comunidade e as tradições culturais resistiram. Tradição cultural e carnaval de rua O Bairro Chinês também é referência no carnaval santista. Nos anos 1940, surgiu ali um dos primeiros blocos da cidade: os “Babys do Jardim da Infância”. Anos depois, em 1955, remanescentes do grupo fundaram o “Turistas do Bairro Chinês”, que promovia batalhas de confete e brincadeiras nas ruas do Centro e da orla da praia. A contribuição do bairro para a cultura popular foi reconhecida em 2018, quando o tradicional Carnabanda homenageou o Bairro Chinês por seu pioneirismo nas folias carnavalescas de rua. O Cristo Redentor, na entrada da Cidade foi inaugurado em 8 de dezembro de 1980 (Reprodução) Futebol de raiz e talento revelado O bairro também entrou para a história do futebol nacional. Foi no campo do Barreiros, tradicional time de várzea da região, que o ex-jogador Clodoaldo deu seus primeiros chutes. Revelado ali, foi convidado para treinar no Santos Futebol Clube e, anos depois, consagrou-se tricampeão mundial com a Seleção Brasileira de 1970. Foi jogando no Barreiros, time de várzea do bairro, que o ex-jogador do Santos e tricampeão mundial pela Seleção Brasileira, Clodoaldo, foi revelado ( Divulgação/Santos FC) Revitalização Desde o início de maio, o bairro está recebendo uma série de melhorias dentro do programa Viva Bairro, que permanece ativo na região até o dia 30. Entre as ações em andamento estão raspação, caiação, corte de grama, poda de árvores, operação tapa-buraco, além de trocas de grelhas, consertos em bocas de lobo e nivelamento de sarjetas. Também estão incluídas ações de pintura e conservação, como a revitalização do monumento da Praça Lions Clube e do playground da Praça Manoel de Almeida.