Mar invadiu as ruas e destruiu partes da orla de Santos (Reprodução e Arquivo pessoal/ Aldemar Neto) A forte ressaca que atingiu o litoral de São Paulo entre a noite de terça-feira (29) e a manhã de quarta-feira (30) deixou marcas evidentes na orla de Santos e reacendeu o alerta sobre um problema para o qual, segundo especialistas, ainda não existe solução definitiva: o avanço do mar. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na região da Ponta da Praia, onde há estruturas submersas conhecidas como geobags — grandes sacos de areia posicionados no fundo do mar para reduzir a força das ondas — os danos foram visíveis. Mesmo instaladas com o objetivo de conter a erosão e proteger a costa, as estruturas não resistiram à intensidade do fenômeno. Esse cenário confirma a limitação das obras rígidas diante da força crescente da natureza. Segundo o professor Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), “não há, em nenhuma parte do mundo, uma medida capaz de controlar totalmente o avanço do mar”. Para ele, os geobags ajudam a amenizar o impacto de eventos extremos, como as ressacas, mas não são capazes de barrar o aumento gradual do nível do mar, processo que avança com as mudanças climáticas. “Isso barra quando há a força de energia da onda, ponta de ressaca, mas o aumento do nível do mar, que vai acontecendo aos poucos, isso nada vai barrar. Nós vamos ter que repensar também a ocupação dessa região, já que a gente não consegue fechar a torneira, que é baixar a emissão de gases de efeito estufa”, alertou o especialista. Por que a Ponta da Praia sofre mais? A localização da Ponta da Praia é voltada diretamente para a entrada da Baía de Santos e funciona como saída do estuário. Ou seja, isso faz com que o bairro receba de frente o impacto das ondas vindas do Sul, além do fluxo de água doce que desce pelo canal. “Tanto é que não tem praia ali”, disse Christofoletti, destacando que a geografia local agrava os efeitos do mar. Além disso, alterações provocadas pela ação humana, como a urbanização da orla, a retirada de dunas e manguezais, e as constantes dragagens feitas para permitir a operação do porto, contribuíram para aumentar a vulnerabilidade. “Agora, quando o mar vem mais frequentemente, ele não encontra mais a restinga, o manguezal ou as dunas para aliviar. Ele encontra concreto, que por sua vez amplifica o impacto da força das ondas”, explicou o professor. A Ponta da Praia, por ser uma área estratégica e economicamente relevante, é também uma das áreas mais monitoradas da Baixada Santista. “É uma das regiões em que a gente tem mais dados coletados. Então, isso também permite com que a gente entenda melhor o que está acontecendo”, afirmou Christofoletti. Exemplos pelo Brasil mostram que obras nem sempre funcionam O uso de obras de contenção, como espigões, quebra-mares e muros, é comum em todo o litoral brasileiro, mas os resultados variam. Em Fortaleza, por exemplo, a construção de 16 espigões desde os anos 1960 causou a erosão acelerada de praias vizinhas no município de Caucaia. Uma das faixas de areia perdeu 31 metros em apenas 17 anos. Muros erguidos para conter o problema falharam e agravaram os efeitos das ondas. Mesmo assim, a cidade anunciou recentemente a construção de 11 novos espigões ao custo de R\$ 44 milhões. O caso ilustra um dilema frequente de soluções locais que acabam transferindo o problema para outros pontos da costa. De acordo com especialistas, hoje, cerca de 60% do litoral brasileiro já apresenta alterações significativas por conta da erosão marítima. Com a intensificação das tempestades e o aumento do nível do mar, esse número tende a crescer. Reposição de areia Diante da fragilidade das obras rígidas, algumas cidades passaram a adotar a técnica de engordamento das praias — a reposição da areia perdida pela erosão. A medida, usada em locais como Copacabana (RJ), Balneário Camboriú (SC) e Matinhos (PR), apresenta bons resultados no curto e médio prazo. Em Copacabana, por exemplo, a faixa de areia passou de 21 para 73 metros em 1970. Décadas depois, continua resistindo a fortes ressacas. Em Balneário Camboriú, a praia foi ampliada para 75 metros com areia retirada do fundo do mar. No entanto, os especialistas alertam: a técnica não é definitiva. As ressacas podem levar a areia embora, e o processo precisa ser refeito periodicamente. Além disso, há impactos ambientais associados, como a turbidez da água e prejuízos à fauna marinha. Adaptar é melhor do que resistir Diante do cenário atual, pesquisadores defendem uma mudança de perspectiva. Em vez de insistir em resistir ao avanço do mar, é preciso adaptar as cidades costeiras a essa nova realidade. Dessa forma, soluções envolvem planejar melhor a ocupação do solo, recuperar áreas naturais de amortecimento e manter o monitoramento contínuo das zonas de risco. Erosão já afeta praias no litoral de São Paulo O avanço do mar não é novidade no litoral paulista. As praias dos Milionários e do Gonzaguinha, em São Vicente, e a Praia do Leste, em Iguape, são alguns dos exemplos mais críticos. Nesta última, moradores perderam casas e comércios. A faixa de areia, que era extensa nos anos 1990, praticamente desapareceu. Saiba mais sobre o problema A erosão costeira é um processo em que o mar avança sobre a terra firme, provocando o recuo da faixa de areia e afetando moradias, comércios e ecossistemas. Ela pode ocorrer de forma crônica — ao longo de anos ou décadas — ou de maneira aguda, em episódios rápidos e intensos, geralmente causados por tempestades e ressacas. Segundo o Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), ligado à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do Estado de São Paulo e responsável pelo Mapa de Risco de Erosão Costeira do Estado de São Paulo, 61 praias paulistas já apresentam risco alto ou muito alto de erosão e avanço do mar. As causas são diversas, incluindo a ocupação irregular da orla, a destruição de dunas e vegetação nativa, obras de contenção mal planejadas e os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento do nível do mar e a intensificação de eventos extremos.