EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

17 de Junho de 2019

Ato em homenagem aos presos do navio ‘Raul Soares’ ocorre nesta quarta, em Santos

A atividade será realizada, pelo quinto ano consecutivo, perto da estação das barcas da travessia Santos-Guarujá, no Centro de Santos

O Comitê Popular de Santos por Memória, Verdade e Justiça promoverá nesta quarta-feira (24), a partir das 18 horas, um ato em homenagem aos detidos no navio-prisão Raul Soares e a seus familiares. Será um ato de preservação da memória de fatos da ditadura civil-militar no País entre 1964 e 1985.

A atividade ocorrerá, pelo quinto ano consecutivo, perto da estação das barcas da travessia Santos-Guarujá (atrás do prédio da Alfândega), no Centro de Santos.

Principal símbolo local da repressão, a embarcação atracou nas proximidades da Ilha Barnabé, em 24 de abril de 1964, e ficou na Cidade até 23 de outubro seguinte.

O cárcere flutuante recebeu estudantes, sindicalistas, políticos, trabalhadores e profissionais liberais que eram considerados uma ameaça ao regime. O grupo foi vítima de torturas físicas e psicológicas.

Conforme um dos coordenadores do comitê santista, César Augusto Guimarães Pereira, o navio chegou a Santos quase às vésperas do Dia do Trabalhador, celebrado em 1º de maio, pelo fato de Santos ter sindicatos fortes e com grande poder de mobilização local.

De 1960 a 1964, essas entidades constituíram o Fórum Sindical de Debates, que dirigia as lutas em defesa dos trabalhadores.

Nesse período, o grupo liderou quatro greves gerais na Cidade. “Infelizmente, a gente perdeu essa tradição de luta. Precisamos resgatá-la”, disse.

José Luiz Baeta, que também é da coordenação do comitê, explicou que se busca confrontar a história e suas implicações hoje. “Nosso objetivo é trazer essa cultura dos Direitos Humanos, do direito à memória, à verdade e à justiça. Esse é o alicerce da Justiça de Transição. Somente por meio desse resgate conseguiremos a reparação social daqueles que lutaram por uma sociedade organizada e livre em nossas cidade e região.”

Outras ações

O Comitê Popular de Santos por Memória, Verdade e Justiça tem feito atividades para resgatar a história do Município, como a entrega póstuma do título de Cidadão Santista ao ex presidente João Goulart, que o receberia da Câmara em 3 de abril de 1964.

O grupo também está em diálogo com o Legislativo para realizar uma audiência pública, em junho, a fim de celebrar a memória do ex-deputado federal santista Rubens Paiva.

Embora o ex-parlamentar tenha sido dado como desaparecido em 1971, ele foi torturado e assassinado no quartel da Polícia do Exército do Rio de Janeiro.

A entidade também pretende trazer a Santos a professora de Ciência Política do da Universidade Federal do Rio de Janeiro Ingrid Sarti, autora do livro Porto Vermelho. Ainda neste ano, o comitê pretende realizar em Santos o 2º Seminário de Lugares de Memória.

Rede Nacional

Por causa do trabalho desenvolvido nos últimos anos, o Comitê Popular de Santos Memória, Verdade e Justiça é uma das entidades participantes da Rede Brasileira de Lugares de Memória (Rebralume). Fundada em 23 de março, essa iniciativa é composta por outras quatro instituições de São Paulo: Museu da Imigração do Estado, Núcleo de Preservação da Memória Política, Casa do Povo de São Paulo e Memorial da Resistência. O objetivo desse grupo, que está alinhado à Coalizão Internacional dos Sítios de Consciência, é promover os valores e princípios democráticos mediante recuperação, valorização, construção e difusão das memórias coletivas sobre violações aos Direitos Humanos e resistências na história brasileira. A rede fomentará a cultura da não repetição de situações que firam a justiça e os direitos dos cidadãos.