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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Anchieta: Trinta anos do fim da 'casa dos horrores'

Há três décadas, Prefeitura de Santos decidiu intervir na Casa de Saúde Anchieta, que funcionava como hospital psiquiátrico particular

“Choque elétrico, reclusão. Encontrei gente nua lá dentro. Eles comiam e defecavam numa latinha de óleo”. A lembrança é da ex-prefeita de Santos, Telma de Souza (PT). Por situações como essas, há exatos 30 anos, a prefeitura decidiu intervir na Casa de Saúde Anchieta, que funcionava como hospital psiquiátrico particular.

A medida, entretanto, foi cercada de polêmicas e brigas na Justiça. Dias depois, por meio de liminar, a intervenção foi suspensa. Em junho daquele ano, a atitude da prefeitura foi considerada ilegal em primeira instância. No mês seguinte, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a decisão do Poder Público municipal.

O Anchieta tinha capacidade para 292 pacientes, mas abrigava 560 homens e mulheres.

“Já pensávamos em intervir, mas eu tinha dúvidas, porque para mexer com saúde mental você precisa de uma estrutura firme”, completa Telma.

Depósito de pessoas

A partir de então, a Secretaria Municipal de Saúde passou a apostar em novas formas de tratar pessoas com problemas mentais. O médico psiquiatra Roberto Tykanori atuou como interventor do hospital psiquiátrico Anchieta.

O primeiro passo, segundo ele, foi organizar o atendimento, implantando rotina de consultas médicas e de cuidados de enfermagem, dar os remédios corretamente, além de liberar os pacientes que já estavam de alta, mas permaneciam pelos corredores do prédio.

“Aquilo que se chamava de hospital não tinha nenhum funcionamento hospitalar. Era mais uma prisão, um depósito de pessoas. Havia pessoas que não deram entrada, outras estavam de alta há mais de três meses”, lembra ele.

“Havia uma cumplicidade silenciosa. A cidade de Santos fingia que o Anchieta não existia. Acho que foi a decisão mais corajosa que eu tive como prefeita”, completa Telma.

Mudanças

Cerca de um ano depois, nasceu a Rádio Tam Tam, feita pelos próprios pacientes do Anchieta.

“Um meio de comunicação direta para a população santista ter uma ideia, um pouco diferente, daquilo que se imaginava uma pessoa com transtorno mental. Os pacientes passaram a ter uma perspectiva diferente e não apenas vestir a carapuça de doente”, define o psiquiatra Tykanori.

Algum tempo mais tarde, começou o esvaziamento do hospital. Utilizando o modelo criado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a Prefeitura de Santos implantou cinco unidades do Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPS), onde os pacientes eram atendidos em companhia de suas famílias. Cada um com capacidade para 500 pessoas.

A vida segue hoje, no Anchieta

Paredes descascadas e úmidas no hall de entrada, um lance de escadas e chegamos à casa de Luciana. Há cinco anos, um dos cômodos da antiga Casa de Saúde Anchieta virou moradia para ela, o marido e os quatro filhos. Além deles, outras 60 famílias vivem no prédio que já foi um hospital psiquiátrico.

Família dividiu o local, criando ambientes, e adaptou outros pontos (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

“Não estamos cadastrados em nenhum programa habitacional e continuamos brigando na Justiça para continuar aqui. Nosso advogado alega usucapião”, afirma Luciana, que faz bico como cabeleireira para se sustentar.

Não dá para saber o que funcionava no cômodo que hoje serve de moradia para a família de Luciana. Com capricho, eles dividiram o lugar com tapumes, colocaram móveis, eletrodomésticos e até tapetes.

No salão ao lado, do mesmo tamanho, mora a tia dela. Todos usam o mesmo banheiro, que ainda conserva diversos vasos sanitários, uma grande pia e espaços para se tomar banho, apesar de muitos azulejos brancos caídos.

Água eles têm e pagam por ela. Já a luz não é regularizada. Apesar de o lugar estar precisando de reforma, Luciana diz que tem medo de gastar dinheiro.

Luciana mora com o marido e quatro filhos em um dos cômodos da antiga Casa de Saúde (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Na medida do possível, eles consertam o que é preciso, como os tijolos de vidro quebrados da entrada, substituídos por blocos de cimento para impedir a entrada do vento e da chuva ou, até mesmo, de algum curioso.

“A gente vai fazendo uns reparos, mas não dá para investir muito. Não é nosso. Não sabemos quando vamos sair ou se vamos ficar. Não sabemos nada. Até preferia ir para alguma coisa que fosse nossa”, conclui ela.

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