'Administrar Santos é ver uma cidade bem estruturada, mas não pronta', analisa Rogério Santos

Prefeito eleito de Santos vê as parcerias com a iniciativa privada como fundamentais para alavancar obras e equipamentos

O reconhecimento de que foi eleito para dar continuidade ao governo atual não inibe Santos. Para ele, eventuais comparações com o prefeito atual, Paulo Alexandre Barbosa, são de somenos, à medida que a pretende seguir o momento e as necessidades atuais da Cidade. Nesse aspecto, vê as parcerias com a iniciativa privada – aprofundadas no governo do já quase antecessor – como fundamentais para alavancar obras e equipamentos. Dentre suas ambições, está levar o VLT para a orla, Ponta da Praia e “de alguma forma”, como diz à Zona Noroeste. E avançar na revitalização da área central.

O senhor foi eleito porque muitos enxergaram a continuidade da atual gestão, de Paulo Alexandre Barbosa. Como o senhor pretende ser fiel a isso, mas dando uma cara nova à gestão? 

Eu e Paulo temos personalidades diferentes, formas de pensar diferentes. Terei minha própria forma de conduzir – tanto do ponto político, quanto de gestão. Mas é difícil falar, porque cada governo, independente da pessoa que ocupa a Prefeitura, é formado de momentos. O primeiro mandato do Paulo eu fui chefe de gabinete. Já no segundo eu precisei ser secretário de Governo. Porque era para as obras saírem do papel, serem executadas. Não penso na personalidade do prefeito, mas no trabalho de equipe. Tenho minha forma de pensar, mas ela é em torno da necessidade atual da Cidade. 

O senhor começa com o desafio enorme da pandemia. Como pretende lidar com isso em relação às políticas públicas? 

O mais importante é garantir o calendário vacinal. Isso já está sendo feito. A partir da chegada da primeira dose em Santos, toda a parte de logística já está estruturada. Em relação às medidas preventivas, a exigência de maior fiscalização de uso de máscara, álcool em gel… o fim de ano que será um grande desafio, porque depende muito da conscientização das pessoas. O Poder Público está fazendo a sua parte, a proibição da faixa de areia é fundamental. Em relação ao apoio da pandemia, sabemos que algumas categorias, profissões, atividades são mais impactadas. O caso, por exemplo, dos ambulantes na praia, já estamos vendo um auxílio, por conta das perdas na virada do ano. A melhor maneira do Poder Público apoiar o desenvolvimento econômico é investir na infraestrutura. Já na Educação, estamos preparados para essa nova metodologia híbrida de ensino, e mais segura, a partir da vacinação. 

Ainda com relação à Educação, como será a retomada das aulas? Qual o planejamento? A maioria das escolas não tem AVCB, por exemplo. O senhor pretende equacionar isso?

A maioria das escolas é das décadas de 60 e 70, e nunca tiveram o auto de vistoria dos bombeiros. De um ano pra cá conseguimos reformar mais de 60 escolas, inclusive com certificação de vistoria. Até o meio do ano teremos 100% das escolas com reforma elétrica e ar-condicionado. A vistoria depende de outras estruturas. Por exemplo, o problema da Martins Fontes, no Morro da Penha, onde não se consegue um AVCB por conta da escadaria do morro. São várias as situações que se impõem a uma escola para ter a vistoria. 

E o planejamento da retomada das aulas?

Estamos fazendo em conjunto com a rede estadual, que deve voltar em fevereiro. Optamos usar o plano municipal de Educação, que é o currículo básico, feito pelos servidores da área. 

O senhor tinha a ideia de criar a Secretaria Especial do Centro. Será ligada à Secretaria de Portos? A região central da Cidade vai continuar sendo prioridade? 

É prioridade. A maior parte das questões de desenvolvimento urbano da região central, e a gente fala dos seis bairros, todos têm vinculação com a atividade portuária. É importante que essa retomada seja ligada a essa configuração portuária, aos armazéns de 1 a 8, além do fato da habitação. Não estou criando nenhum cargo, estou aproveitando os que existem. Também tenho esse compromisso: não criarei nenhum cargo, vou reorganizar a estrutura da Prefeitura para atender às necessidades. 

Ainda nesse assunto, o prefeito Paulo Alexandre disse que todo dinheiro de outorga que a Prefeitura receberá nos próximos 10 anos será investido no Centro. O senhor mantém?

Sim! Conforme a lei pede, manteremos as outorgas urbanísticas voltadas ao desenvolvimento da região central. Principalmente na habitação. Nos últimos anos, investimos mais de R$ 125 milhões na região central. Se colocar o parque tecnológico, as reformas do Guarany e do Coliseu, a nova rodoviária. E agora vem a fase 2 do VLT, que também será um fator de desenvolvimento urbano. 

Como o senhor vê o projeto de instalação da Unidade de Recuperação de Energia (URE), na Área Continental?

Primeiro, o licenciamento depende do Governo do Estado. Segundo, é um assunto metropolitano. O aterro sanitário está com os dias contados, e desde que seja uma unidade que não cause impacto ambiental, conforme existem em outros países, eu sou a favor. Mas o principal fator para a questão do lixo, da destinação final, é a reciclagem. É na reutilização, que eu vou atuar fortemente. É necessário que a população faça a separação, que a gente tenha uma logística eficiente da coleta. Cada vez mais trabalhar com as cooperativas. Uma indústria focada na transformação do plástico, hoje não temos na nossa região. Do próprio alumínio. 

O senhor pretende ampliar o uso de veículos elétricos no transporte municipal?

Sim. O VLT já é uma realidade. Temos o primeiro ônibus elétrico fabricado no Brasil circulando na Cidade. Eu quero levar essa ligação do VLT até a Ponta da Praia e até a Orla. E, de alguma forma, também à Zona Noroeste.

Várias questões geram polêmica, como as da Nova Ponta da Praia e do Emissário Submarino, com impedimentos na Justiça. O senhor pretende chamar mais a população para participar desses projetos, para evitar entraves depois?

A participação popular é fundamental. Não só nessas questões, mas pegue-se a pandemia, o afastamento ou uso dos espaços públicos, ou privados, não se faz de maneira eficiente sem a participação popular. Não dá para o Poder Público fiscalizar o tempo todo, todos os lugares. Em relação às parcerias com a iniciativa privada, os resultados têm se revertido principalmente para as comunidades mais carentes. Por exemplo, a que proporcionou o Bom Prato no Dique da Vila Gilda. Vou aplicar as parcerias. 

Mas o senhor acha que a forma como vem sendo conduzidas as parcerias é a adequada?

Lógico, há projetos estruturantes que servem para a Cidade toda – a entrada, a Ponta da Praia – não são apenas para o bairro em si. Mas há projetos pontuais bairro a bairro. Eu, como gestor, tenho o dever de priorizar o que é necessário, tenho que escolher. E, dentro das escolhas, vou usar todos os recursos para entregar o que foi colocado no plano de governo, comprometido com a população.

Em relação ao Hospital dos Estivadores, quando o senhor imagina que ele pode funcionar com a capacidade máxima?

O hospital tem uma característica regional. A primeira criança nascida lá era de uma família de Cubatão. A primeira pessoa internada na UTI covid era moradora de São Vicente. Temos que completar os 226 leitos. Hoje, são 170, 180, e vamos avançar. Mas isso precisa de uma pactuação regional. 

O que o senhor pensa em fazer para valorizar o servidor? Pensa em aumento de salário nos próximos anos?

Só haverá valorização a partir do momento em que ele também se sinta valorizado. Não só em remuneração, mas também em possibilidade de trabalho, equipamentos, condições. E eu vou trabalhar, sim, na valorização do servidor, mas com base na meritocracia. 

Muitos dizem que Santos é uma máquina muito grande, difícil de administrar. O Que é administrar Santos para o senhor?

É um grande orgulho. Não existe cidade pronta. Administrar Santos é justamente aquilo que eu pensei pra minha vida: ser um servidor público. Foi uma opção que eu fiz na minha carreira como gestor público. Eu era da iniciativa privada, como dentista, tinha meu consultório. Fiz meu mestrado em saúde pública. Administrar Santos é, ao mesmo tempo que você vê uma cidade bem estruturada e que se transformou muito nos últimos anos, você não vê uma cidade pronta. Qual cidade no mundo estava pronta para a pandemia? 

O senhor acha que consegue resolver o problema das enchentes nos próximos quatro anos?

Temos os projetos, os financiamentos com os governos Federal e do Estado. Já trocamos as 10 comportas da Zona Leste. Já estamos trocando comportas na Zona Noroeste. Estação elevatória ali na Haroldo (Rua Haroldo de Camargo), com recursos federais e do Estado. 

Retornando: quatro anos são suficientes para erradicar as enchentes?

Não... A gente consegue minimizar, como já conseguimos, na entrada de Santos. Eu já fui, junto com o prefeito Paulo Alexandre Barbosa, até o Governo do Estado cobrar a estação elevatória que será feita em área estadual na Rua Mário de Andrade, do lado da Anchieta. Já fui também no ministro Tarcísio (Gomes de Freitas, da Infraestrutura) cobrar a estação elevatória e a retificação do canal, em área da União, no Estuário portuário, com a saída do Rio Lenheiros. 

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