‘A ideia de passar Natal e Ano Novo longe de casa me enlouquece’, diz santista retida no Peru

Rhanna Martins Franco, de 22 anos, faz parte de um grupo de quase 200 brasileiros impedidos de deixar país vizinho devido à barreira sanitária para frear escalada de Covid-19

O sonho de realizar um intercâmbio após se formar em Letras colocou a professora santista Rhanna Martins Franco, de 22 anos, num pesadelo interminável. Ela faz parte de um grupo de brasileiros que tenta, há mais de cinco meses, regressar do Peru, após o país vizinho fechar as fronteiras para conter a escalada do novo coronavírus. “A ideia de passar Natal e Ano Novo longe de casa me enlouquece”, diz.

Sem qualquer sinal de quando poderá voltar para casa, eles criaram uma campanha virtual na tentativa de sensibilizar as autoridades brasileiras por um voo de repatriação. “Cheguei no Peru para ficar seis meses e já se vão oito com previsão de virar um ano. Perdi datas importantes, perdi o acolhimento da minha família, perdi dia dos pais, das mães, aniversário, perdi tanta coisa, inclusive o direito de voltar para casa”, desabafa Rhanna.

A cruzada pessoal na qual ela enfrenta começou em abril, quando o país vizinho teve os primeiros registros de Covid-19. Data dessa época, também, a visita que seria para matar as saudades do namorado, que ficou no Brasil enquanto ela realizava o intercâmbio.

O estudante Lucas Estanislau de Lima, 26 anos, fez planos para ficar apenas 15 dias em Arequipa, cidade que fica a mil quilômetros da capital Lima. “Faltando três dias para voltar ao Brasil fomos pegos de surpresa pela notícia que o governo peruano havia fechado as fronteiras sem nenhum aviso prévio e ficamos presos na região. E já são cinco meses”, conta o estudante. 

A jovem profissional embarcou para o Peru em busca de aperfeiçoar o currículo, num intercâmbio de 180 dias. A programação era ficar no país até julho, data na qual ela tinha passagens de regresso a o Brasil já garantidas. Agora, retorno da santista segue indefinido. “O governo (do Peru) adotou uma quarentena rígida. Ficamos 15 dias isolados em casa, podendo sair apenas para ir ao mercado. Não houve aviso e a população não foi preparada”. 

Rhanna teme passar as festas de final do ano longe de seus familiares (Arquvio Pessoal)

As ações das autoridades locais, contudo, não evitaram uma escalada de casos de Covid-19 naquela nação. Situação que a professora santista descreve como desesperadora. Apesar de tomar as precauções, Rhanna e o namorado contraíam a doença. Eles temem eventual agravamento dos quadros clínicos, dado o descaso da saúde pública local.

“Arequipa (cidade na qual o casal se encontra)  se tornou uma das regiões com maior número de contágios no país. Nós mesmos depois de alguns sintomas descobrimos que estamos com coronavírus e, aqui, estamos totalmente expostos, não temos plano de saúde, assistência de ninguém. O governo parece não ter um direcionamento claro sobre quando abrir as fronteiras ou sobre o fim da quarentena”, continua Lucas.

Jornada 

Rhanna conta que, ao menos, 12 voos de repatriação da Embaixada Brasileira deixaram o Peru desde o fechamento da fronteira. Contudo, o embarque é feito no aeroporto internacional de Lima. “Estaria tudo bem, se eu e mais brasileiros não estivéssemos a 16 horas do local, sem condições de viajar por terra, com medo e sem garantia de que ia embarcar. Os casos não param de crescer e os hospitais já estão colapsando”, conta.

Além da distância, que deve ser percorrida por estradas esburacadas, a santista relada a falta de recursos para arcar com o aluguel de um carro. “Custaria algo em torno de R$ 3 mil. O percurso é perigoso e temo, ao final do percurso, chegar na capital e não ter voos para o Brasil”.

190 brasileiros 

Segundo a professora, ao menos outros 190 brasileiros tentam regressar ao Brasil. Rhanna não é a única santista que aguarda voo de repatriação para regressar a Santos. A missionária Elizabeth Nogueira Cordova, 52 anos, também faz um apelo as autoridades brasileiras para deixar o país vizinho.

Ela foi com dois filhos para aquela nação para viver com a família do marido, que é peruano. Contudo, desde junho tenta embarcar para o Brasil.

“Veio a pandemia e tivemos que ficar aqui, uma cidade bem pequena no norte do Peru. Meus filhos não se adaptaram e quando o governo disse que haveria voos decidimos voltar ao Brasil. Tentei voo humanitário, mas não consegui. Não temos nenhum tipo de ajuda do governo peruano para os estrangeiros. Não há atenção médica”, afirma.

Ela diz que o filho adolescente necessita atenção médica, devido crises de ansiedade geradas com a pandemia. “Não saber quando poderemos sair do Peru”. A situação fica mais crítica com a crise financeira na nação vizinha. “Minha família, que é de Santos, tenta nos ajudar com envio de algum dinheiro. Mas quando chega, já vale a metade. Os preços de comida subindo”.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informa que "desde o início da pandemia, o Itamaraty vem dedicando máxima atenção ao retorno dos brasileiros que solicitam repatriação". Em março, foi estabelecido o Grupo Consular de Crise. Até o momento, foram repatriados com o apoio do Itamaraty cerca de 38.800 brasileiros, em operações que incluíram a contratação direta de voos fretados ou o apoio institucional de nossa rede de embaixadas e consulados. 

Apenas a Embaixada em Lima, no Peru, repatriou 1.785 brasileiros retidos naquele país, sem custos, e a realização de doze voos. "Além de negociações com as companhias aéreas e o governo local, as operações incluíram a realização de dois voos da FAB que trouxeram, em 25 de março, 59 brasileiros e 7 estrangeiros residentes retidos em Cusco e voo fretado pelo Itamaraty, no dia 1º de abril, que repatriou 168 pessoas localizadas em Lima. O mais recente voo foi realizado em 25 de junho", cita o ministério.

A pasta afirma que, como forma de apoiar brasileiros que não se encontravam na capital peruana, a Embaixada do Brasil em Lima contratou, por ocasião de voo realizado em 15 de abril, dois ônibus para transportar brasileiros localizados em demais cidades do Peru - inclusive Arequipa - até o local de partida do voo, em Lima.

"O Itamaraty permanece mobilizado na busca de soluções para casos de necessidade de repatriação ou de assistência a cidadãos desvalidos. A Embaixada em Lima continua empenhada em realizar gestões junto a empresas de fretamento aéreo e de transporte rodoviário para viabilizar novas oportunidades de retorno ao Brasil. Em razão das restrições de circulação determinadas pelo governo peruano, a representação brasileira segue, igualmente, realizando gestões junto às autoridades peruanas para obtenção de autorizações de deslocamento até Lima, bem como à região de fronteira", finaliza o comunicado. 

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