Reinfecção pela Covid-19 já ocorre na Baixada Santista

Médicos da região dizem trabalhar com pacientes que contraíram o novo coronavírus novamente. A Tribuna relata um caso de Santos

O assessor parlamentar Luciano Martins Lourenço, de 53 anos, que trabalha na Assembleia Legislativa, testou positivo para o novo coronavírus duas vezes em épocas distintas. Ele teve a doença em julho e neste mês. A chamada reinfecção não só é possível como já está ocorrendo na região, afirmam infectologistas.

Clique aqui e assine A Tribuna por apenas R$ 1,90. Ganhe, na hora, acesso completo ao nosso Portal, dois meses de Globoplay grátis e, também, dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!

O infectologista Evaldo Stanislau explica que, entre os critérios para o diagnóstico, estão a reinfecção acontecer com intervalo de cerca de 60 dias entre uma e outra, testes bem feitos, um exame entre eles que dê negativo e uma amostra do vírus no primeiro teste e no segundo.

Lourenço teve o primeiro teste positivo em 9 de julho. A nova contaminação foi confirmada ontem. Desta vez, porém, ele fez dois exames, o primeiro dos quais com resultado emitido na quarta-feira. Em todas as vezes, procurou laboratórios particulares de Santos, onde vive, e passou por testes do tipo RT-PCR, que infectologistas consideram o mais confiável.

“Esse paciente, ao que parece, preenche todos esses requisitos. No entanto, isso não é novidade entre a classe médica. Já tenho tratado casos como reinfecções”, afirma Stanislau.

O também infectologista Ricardo Hayden diz que teve ao menos dois casos de reinfecções comprovadas. “Uma paciente que teve a doença em fevereiro e voltou a testar positivo em maio. Outro no mês de maio que acusou reinfecção em agosto. Isso mostra que não dá para baixar a guarda.”

Explicações

Uma das explicações teria a ver com a carga viral, ou seja, falta de uma imunidade potente do organismo para resistir à elevada quantidade de vírus à qual é exposto ao pegar covid-19.

“O paciente pegou da primeira vez, desenvolveu uma taxa mais baixa e é atropelado por uma carga mais alta de exposição ao vírus. Isso tem sido reportado no mundo inteiro. Por isso, é perfeitamente cabível”, diz Hayden.

Ele e Stanislau acreditam que recolher as amostras da primeira e da segunda infecções seria melhor para diagnósticos. 

Os casos alertam para a falta de cuidado e a sensação de falsa segurança, sobretudo por quem adoece com sintomas leves. “(Não se deve) Usar máscara de baixa qualidade, esquecer os cuidados, ficar aglomerado. Já vimos cenas de festas. Os cuidados precisam ser mantidos até que as pessoas se vacinem”, adverte Hayden.

Agora foi pior, descreve o assessor 

Luciano Lourenço conta que pegou covid-19 pela primeira vez há cerca de quatro meses, mas que os sintomas foram brandos. Sentiu dor fraca na garganta e febre, mas, por causa dos sintomas foi orientado pelos médicos a fazer o teste, que deu positivo.

“Apesar da piora da garganta, tomei remédio para melhorar a dor e fiquei bem. Minha saturação (do sangue, isto é, a quantidade de oxigênio transportada na circulação sanguínea) estava em 98, 99%. Eu me sentia bem”, conta.

Há dois meses, para fazer uma cirurgia de implante capilar, fez um novo teste para garantir que estava saudável. O exame, do tipo PCR, foi feito num laboratório diferente do primeiro e deu negativo. 
Na semana passada, tudo mudou novamente. Ele conta que começou a sentir os sintomas de uma gripe, mas não se preocupou. Em questão de dias, a doença se agravou, e ele começou a sentir febre alta.

No terceiro dia de febre, ele começou a tomar antibióticos receitados por um médico, o que baixou sua temperatura. No entanto, sua respiração começou a ficar ofegante, e ele sentiu dores no pulmão. 
Na sexta-feira, as dores pioraram. “No sábado de manhã, eu sentia muita dor. Não conseguia andar um quarteirão, então, fui direto para o hospital de novo.”

Lourenço foi liberado na terça-feira. No mesmo dia, passou por outro teste, além do feito no hospital, em outro laboratório. Ambos deram positivo novamente para a doença. “Nesta segunda vez, eu estava mais debilitado, acho que por causa da dieta para voltar à rotina de exercícios, e confesso que negligenciei um pouco. Mas, se eu peguei a segunda (vez), posso pegar a terceira. A lição que tiro de tudo isso é que a primeira foi mais calma, a segunda foi mais forte, e a terceira, eu não quero ver como vai ser.”

O assessor reforça a necessidade de cuidados. Mesmo não vendo sua mãe há seis meses e isolado das filhas para evitar contaminação, descreve que viu pessoas baixarem a guarda. 

“É extremamente delicado. É um exagero os locais fechados receberem tanta gente, como vejo meus amigos, que têm mais de 40 anos, frequentarem. Essa reinfecção me deixa claro que isso tudo só vai acabar, ou diminuir, com a vacina

“Nesta segunda vez, eu estava mais debilitado, acho que por causa da dieta para voltar à rotina de exercícios, e confesso que negligenciei um pouco. Mas, se eu peguei a segunda (vez), posso pegar a terceira. A lição que tiro de tudo isso é que a primeira foi mais calma, a segunda foi mais forte, e a terceira, eu não quero ver como vai ser. (...) Essa reinfecção me deixa claro que isso tudo só vai acabar, ou diminuir, com a vacina”, conta Luciano.

Em nota, a Secretaria de Saúde de Santos informou não ter sido notificada do resultado positivo do paciente em julho, mas recebeu no último dia 17 uma notificação de covid-19 do mesmo paciente relativa a exame durante internação hospitalar.

“O Departamento de Vigilância em Saúde solicitará ao laboratório que realizou o exame no mês de julho informações sobre o resultado e verificará se as amostras coletadas na ocasião estão preservadas. Se sim, elas serão encaminhadas para o Grupo de Vigilância Epidemiológica (GVE), do Governo do Estado, para que possa ser realizado o sequenciamento genético e (seja) identificada a cepa (linhagem) do vírus. Desta forma, poderá ser verificado se houve reinfecção ou a persistência do vírus no organismo.”

O que diz a administração municipal

A Prefeitura afirma que, em média, laboratórios armazenam as amostras dos pacientes por até dez dias, devido à limitação de espaço físico, o que impossibilita confirmar ou descartar uma possível reinfecção.

O protocolo estabelece que, quando o paciente tem novo resultado positivo, receba tratamento e se informe o GVE. Bertioga, Cubatão, Guarujá, Mongaguá, Praia Grande e São Vicente disseram não ter reinfecções confirmadas. Itanhaém e Peruíbe não responderam.

Tudo sobre: