Projeto inspirado em primeira modelo negra resgata autoestima em Cubatão

Com modelos de cidades da Baixada Santista, ensaio fotográfico utiliza elementos da cultura africana

Um projeto fotográfico vem resgatando a autoestima de pessoas negras na Baixada Santista. Criada pela fotógrafa cubatense Amanda Aparecida, de 20 anos, a iniciativa foi inspirada na trajetória de Dorothea Towles Church, primeira mulher negra a desfilar em Paris, na França, e reuniu modelos posando com acessórios e elementos da cultura afro.

Nascido após uma ida a um desfile em São Paulo, o projeto surgiu depois da fotógrafa conhecer a história do modelo Sílvio Pompeu, que foi vítima de preconceito na passarela por ser negro. “Fiquei indignada com a situação porque somos mais da metade da população e ainda não somos representados no mundo da moda”, relata Amanda.

A partir de uma postagem nas redes sociais, Amanda conseguiu reunir um grupo de modelos. Com idades diferentes, os moradores da Baixada Santista posaram para as fotos com adereços como turbantes e colares, além da pintura facial e corporal inspirada na cultura africana. Após a sessão de fotos, o grupo teve a oportunidade de desfilar pela primeira vez.

Participante do projeto, o pintor Paulo Roberto, de 25 anos, nunca havia modelado anteriormente. Vítima de racismo, ele conta que Dorotha o ajudou a resgatar a confiança. “A vergonha que tinha antes já não tenho mais. Quando estou com eles (modelos) me sinto em casa”, diz.

Já o jovem Rômulo dos Santos, de 17 anos, explica que deixou o sonho de modelar “no fundo do baú” devido à ausência de referências negras. "Nunca achei que fosse capaz de ser modelo por não ver muitas referências negras no mundo da moda. Acreditava que não tinha chances”.

Moradora de Cubatão, Amanda Aparecida transformou interesse pela escrita em trabalhos fotográficos (Foto: Arquivo Pessoal / Amanda Aparecida)

Por trás das lentes

Sendo a única aluna negra da sala durante a infância, Amanda sofreu preconceito ao longo dos anos. Por conta do racismo e bullying, ela passou por tratamento de alisar o cabelo durante dez anos para se adequar aos padrões, mas o resgate da autoestima foi importante para o trabalho. “Como iria fazer um projeto de valorização da beleza negra se eu mesma não me aceito?”.

A primeira paixão da fotógrafa foi a escrita. Com quatro livros publicados, Amanda passou a se interessar pela arte e descobriu na fotografia uma forma de expressão já que “poderia contar histórias através da foto”.

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