Professora desmaiada em escola municipal da Praia Grande com calor extremo; sala de aula tem ventiladores que mal funcionam (Reprodução/Redes Sociais) A professora Fernanda Mariane Ramos, de 34 anos, desmaiou em meio ao forte calor enquanto dava aula para uma turma do 4º ano da Escola Municipal Paulo Shigueo Yamaute, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. O mal-estar aconteceu na terça-feira (25), e a docente foi socorrida por mães e funcionários da unidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a Prefeitura de Praia Grande, Fernanda recebeu os primeiros atendimentos ainda na escola e depois foi encaminhada para o pronto-socorro. A Secretaria de Educação (Seduc) afirmou que segue dando toda a assistência necessária e permanece em contato com a servidora, estando ao dispor dela durante o seu restabelecimento. Fernanda nega. “Ninguém da Seduc me ligou ou perguntou sobre mim”, afirma para A Tribuna. Um vídeo gravado por uma de suas colegas mostra os ventiladores da sala de aula onde o desmaio ocorreu. Servidora na rede pública há dez anos, Fernanda lida diariamente com as condições precárias para exercer sua profissão. As altas temperaturas com as ondas de calor são somente um deles. É um trabalho que a gente gosta tanto, tenta tanto, mas muitas vezes a gente não consegue fazer as coisas. E está sendo desumano demais a gente trabalhar com esse calor excessivo”, desabafa. 'Sauna' de aula A sala de aula dela conta com apenas um ventilador que funciona razoavelmente. O calor excessivo na sala de 21 alunos fez a pressão arterial dela chegar a 17/10. “Comecei a suar tanto que eu não sabia se estava suando de calor ou suando frio, mas era uma sensação tão ruim e não tinha para onde ir”, relata Fernanda. “Eu comecei a ter uma tontura muito grande. Na hora da saída, eu fui para a porta e não conseguia respirar, parecia que eu estava sufocada”. O desmaio veio logo em seguida, quando ela viu a coordenadora.“Fiz um sinal para ela vir até mim. Quando eu encontrei com ela, que eu me senti segura de que ela cuidaria dos meus alunos, aí eu desmoronei. Caí ao lado do pessoal bem na hora da saída”, conta Fernanda. Ela foi socorrida pela chefe e mães de alunos, entre elas, Telma Souza, que conseguiu pegar gelo para colocar nos pulsos e na nuca da professora. Alunos autistas sofrem A diarista Telma é mãe de Davi, um menino autista que frequenta às aulas de Fernanda. O calor tem afetado significantemente a criança e se sobreposto à outra situação: a escola municipal não tem uma atendente para auxiliar os alunos com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), algo que é lei no Estado de São Paulo. “Meu filho não sabe ler nem escrever, é por isso que ele precisa de suporte. Também precisa de suporte na recreação”, explica. Os alunos estão sendo liberados cerca de meia hora mais cedo — o horário normal é das 15h às 19h. Quando Telma busca o filho, ele está com a pele rosada, “parecendo uma pitaya”, além de ficar agoniado com o suor e as roupas grudando. A diarista agradece a professora do filho, que além de ter comprado um ventilador melhor com o próprio bolso, passou a orientar os pais a mandarem toalhinhas e garrafinha com água congelada com os pequenos. Ela é maravilhosa, um ser humano incrível, como tantos outros professores maravilhosos da Paulo Shigueo. Só que a escola pede socorro com relação a ar condicionado e água refrigerada”, diz Telma. Davi não é o único aluno autista da sala. Há também o Heitor, cujo grau do transtorno é mais severo e precisa ainda mais de suporte. A sala quente já provocou uma crise no menino. Teve uma vez que ele chegou na sala e quis tirar a roupa porque estava muito calor. É complicado mesmo, e até explicar para ele que não pode, ele surta mesmo”, conta Ingrid Motta, microempresária e mãe do garoto. Por falta de uma atendente, a professora Fernanda teve que levar o Heitor para fora da sala para acalmá-lo. “É bom que ela acompanhou meu filho quando ele estava muito agitado, mas é ruim porque as outras crianças acabam prejudicadas”, lamenta Ingrid. “Ele chega na sala já tirando o sapato, porque ele não aguenta o calor. Muitas vezes ele pede para não ir por causa disso, mas eu sei que ele não pode faltar”, diz. O que diz a Prefeitura? A Tribuna cobrou um posicionamento da Prefeitura de Praia Grande sobre o ocorrido com a professora e sobre a falta de atendentes para os alunos com TEA. A Administração respondeu que a respeito da climatização, todas as escolas municipais contam com ventiladores nas salas e, por conta da onda de calor, instalou mais 240 unidades. A Prefeitura também pontuou que expediu, em janeiro, uma ordem de serviço à Seduc determinando um estudo de viabilidade técnica e financeira para a climatização das salas de aula da rede municipal, mas o texto não dá detalhes sobre o estudo conduzido. A Administração ainda informou que, ao longo dos últimos anos, realizou diversas ações para acolher melhor e trazer mais conforto nas unidades. Em relação à falta de atendentes para os alunos autistas, a pasta informou que está organizando os processos internos para suprir a todos com o acompanhamento de profissionais capacitados.