Após cursinho, Kayky da Silva Santos estudará Medicina Veterinária (Arquivo Pessoal) “Cheguei ao terceiro ano sem saber ler nem escrever”. O relato de Kayky da Silva Santos, de 19 anos, retrata uma trajetória comum entre estudantes pretos e periféricos. Nascido e criado na Zona Noroeste, em Santos, ele enfrentou as limitações do ensino público e as barreiras impostas pela desigualdade racial que ainda marcam o acesso à educação no País para conquistar uma vaga na Universidade Estadual Paulista (Unesp). A comemoração de Kayky pelo ingresso no curso de Medicina Veterinária revela um movimento cada vez mais crescente de jovens negros que, com apoio de cursinhos populares e políticas de inclusão, começam a ocupar espaços antes inacessíveis nas universidades brasileiras. De acordo com dados preliminares do Censo 2022 de Educação, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas pretas e pardas com Ensino Superior completo quintuplicou nas últimas duas décadas. Em 2000, apenas 2,1% entre pretos e 2,4% entre pardos haviam concluído o nível superior, enquanto entre os brancos o índice era de 9,9%. Em 2022, os percentuais atingiram 11,7% entre pretos, 12,3% entre pardos e 25,8% entre brancos. Esses dados ganham ainda mais destaque neste mês da Consciência Negra. Na Baixada Santista, a luta por igualdade ganha força por meio de iniciativas como os cursinhos populares, projetos sociais voltados à preparação de estudantes de baixa renda, na maioria negros e periféricos, para o ingresso no Ensino Superior. Enquanto cursava o terceiro ano do Ensino Médio, Kayky buscou ajuda no cursinho Caiçara, ligado à Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele tinha base escolar frágil e pouca confiança no próprio potencial. “O curso foi o grande responsável por me fazer chegar até a universidade.” A conquista da vaga em Medicina Veterinária foi motivo de dupla alegria, pois também deu vida a um sonho antigo da mãe. Em resposta Espaços como os cursinhos populares e coletivos pretos oferecem aulas, apoio emocional e orientação gratuitos para quem sonha com a universidade, mas enfrenta um caminho marcado por lacunas de ensino e falta de oportunidades. Formado por uma rede de voluntários, o Educafro é um dos projetos mais antigos e atuantes na Baixada Santista, em cidades como São Vicente, Praia Grande, Cubatão e Santos. A coordenadora da unidade santista, Cristina Marina da Silva de Souza, está no projeto há oito anos e viu de perto o impacto do Educafro na transformação de vidas. Para ela, o cursinho vai muito além da preparação para o vestibular, é também um espaço de pertencimento e resistência. “Eu sou uma mulher preta, nasci e cresci em bairro periférico aqui em Santos, no Saboó. Sempre estudei em escola pública e, para mim, o estudo sempre foi uma forma de mudar e melhorar de vida. Então, quando vejo um aluno que consegue, mesmo com todas as adversidades, sair da favela, da periferia, e chegar na universidade, é uma realização pessoal.” Luis Henrique Melo, no Núcleo Educafro, conseguiu retomar estudos (Arquivo Pessoal) Cursinhos populares são caminho para faculdade Luis Henrique Santos de Melo, 26 anos, é outro exemplo de quem aposta na preparação do cursinho popular como um caminho possível para alcançar o Ensino Superior. Nascido em Santos, em uma família de origem nordestina, ele cresceu nos Morros. Na adolescência, responsabilidades e a violência das ruas o afastaram dos estudos. O interesse pela arte o levou a cursar formações livres em dança e artes cênicas. Neste domingo (30), Luis Melo é estudante do Núcleo Educafro, no Valongo, e se prepara para prestar vestibular em busca de uma vaga no Ensino Superior público. Outros cursinhos populares, como o Cardume e o AfroSantos, também têm participação fundamental no crescimento de pretos e pardos no Ensino Superior da região. O Cardume é formado por alunos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com metodologia inspirada no educador Paulo Freire. As aulas unem teoria e prática, com cerca de 150 alunos. A Afrosan segue na mesma direção. Foi fundada em 2002 por José Ricardo dos Santos, ativista e líder da comunidade negra há mais de 30 anos. “O estudante enfrenta dificuldade até para chegar ao cursinho. Muitos moram longe e não têm condições de pagar o transporte. A gente tenta suprir como pode. Neste ano, conseguimos garantir alimentação gratuita aos alunos, o que ajudou bastante na permanência”, explica. Na universidade Gabrielly Santana Pereira, de 20 anos, moradora de Praia Grande, cursa Relações Internacionais na Universidade Católica de Santos (UniSantos). Para chegar a tanto, teve que passar por um cursinho pré-vestibular, onde teve contato, pela primeira vez, com conteúdos que deveriam ter sido vistos no Ensino Médio. A estudante defende as cotas raciais no Ensino Superior, pois julga que ajudam a equilibrar oportunidades e a dar chance para quem sai da escola pública. *REPORTAGEM FEITA COMO PARTE DO PROJETO LABORATÓRIO DE NOTÍCIAS A TRIBUNA – UNISANTOS SOB SUPERVISÃO DA PROFESSORA LIDIANE DINIZ E DO DIRETOR DE CONTEÚDO DO GRUPO TRIBUNA, ALEXANDRE LOPES