'Nos Estados Unidos somos muito autocríticos e aqui no Brasil também', diz Adam Shub

Cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo fala da relação entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump e dos incêndios que atingem regiões brasileiras e americanas

Adam Shub é diplomata sênior do Serviço Diplomático dos Estados Unidos e desde agosto de 2018 assumiu as funções como Cônsul-Geral em São Paulo. Antes disso, serviu em Bruxelas como ministro conselheiro da Missão dos Estados Unidos na União Europeia, atuando como encarregado de negócios interino. Em entrevista para A Tribuna, ele fala da relação entre os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump e dos incêndios que atingem regiões brasileiras e americanas. Shub também defende que, apesar de algumas falhas, o sistema democrático nos dois países é um exemplo para o mundo e reconhece a importância da discussão sobre temáticas ligadas aos negros e às mulheres. Confira a entrevista:

O presidente Jair Bolsonaro, desde o início do mandato, mostrou apoio ao presidente Donald Trump. No discurso desta semana na ONU, a fala de Bolsonaro foi muito nesse sentido: de apoio e até admiração. De fato, isso teve, ou tem, algum peso nas relações entre os dois países e de que forma o senhor acredita que o Brasil tem se beneficiado desse posicionamento do presidente brasileiro? 

É uma boa pergunta, principalmente para mim que tenho 20 poucos anos seguindo a relação (entre os países). Se fala de uma relação política, mas por trás há um dinamismo e uma amizade mútua entre os dois presidentes. Mas a relação entre os países é muito mais ampla. Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil. Temos mais de 100 anos de uma relação econômica ampla. Somos, ambos, democracias com muitos imigrantes. Somos países com o desafio da herança de escravidão. Nossa missão é dedicada a seguir essa grande relação. Mas houve um alinhamento já na época do PT. A relação entre (os ex-presidentes) Lula e George W. Bush foi boa. Mas o que está acontecendo agora é significativo, mas ainda tem um grande potencial. Fala-se muito sobre vistos, mas na relação bilateral, trabalhamos nas áreas de indústria, a relação com as marcas americanas aqui no País, a parte de ciência, inclusive temos a questão da vacina contra a covid-19. Além de tecnologia. É uma cooperação excelente, que está crescendo. Depois, temos a parte de segurança. No Aeroporto de Guarulhos, no Porto d</CW>e Santos temos, claro, uma questão comercial, mas existe uma cooperação relacionada à segurança: combate ao narcotráfico, pirataria. Estamos cooperando, inclusive, na tríplice fronteira. 

Até dentro desse contexto, como o senhor acredita que as eleições americanas podem interferir ou não na política econômica do Brasil? 

Eu acho que há tantas semelhanças, o que acontece lá é de grande interesse para os brasileiros. Bom, somos democracias imperfeitas. Temos desafios e dificuldades, mas como dizia Churchill, a democracia é o melhor sistema, apesar das falhas. Para nós, as eleições são políticas e pode acontecer uma troca de governo, a depender dos eleitores, mas é um ponto de orgulho. Não há tantas democracias deste tamanho no mundo e isso é importante. Os dois países estão sofrendo com os impactos da covid-19 e da internet, com as fake news, mas o que é importante para nós é o compartilhamento de valores institucionais, como a liberdade de expressão, de imprensa. A relação continuará sendo forte e sólida. É claro que a parte política precisa de um bom entendimento, mas a sociedade civil tem uma boa relação, que continuará sendo forte. 

O senhor falou de democracia. Neste momento, tanto EUA quanto Brasil recebem fortes críticas por ações que são interpretadas como ameaças à democracia. Como o senhor encara essa questão?

Acho que a melhor resposta é olhar para o resto do mundo. Não vejo nenhum país sem problemas ou sem críticas. Eu acho que é um ponto de orgulho para nós sermos abertos e transparentes. Nos EUA somos muito autocríticos e aqui no Brasil também. Temos de estar abertos e discutir as coisas. Não se pode ser agradável a todo tempo, senão estaremos em um filme da Disney. Mas, no fim, estamos nos tornando uma sociedade mais forte...

E que vem se manifestando fortemente sobre questões raciais...

Por exemplo, estamos analisando no nosso serviço diplomático, mas também no país, a proteção e tratamento de minorias: mulheres, afrodescendentes, de minorias religiosas. Isso é importante para discutir e estar aberto. E isso é, na minha opinião, a diferença em relação a países como China e Rússia. Não somos perfeitos, mas temos que tentar, todos juntos, melhorar. Por isso, essa amizade entre nossos países é muito importante.

No início, o senhor também citou os imigrantes... em abril, até por conta do coronavírus, o presidente Donald Trump anunciou a suspensão temporária do green card (documento que dá ao estrangeiro a permissão de trabalhar e morar nos Estados Unidos). Isso foi revertido? Há possibilidade de flexibilização para a en</CW>trada de brasileiros no país? 

A suspensão (do green card) foi estendida, mas agora estamos deixando entrar médicos e especialistas em covid-19, casos humanitários, pessoal que já tenha green card e todos com visto válido. No momento, o serviço de (emissão de novos) vistos está suspenso. A medida foi tomada por questões de saúde pública. Mas quando melhorar a situação, haverá maiores oportunidades. Talvez pouco antes do fim do ano seja um bom momento para liberar. 

Falando sobre a covid-19, Brasil e Estados Unidos vivem momentos parecidos em relação à pandemia. Qual o paralelo que o senhor faz e que caminho enxerga para enfrentarmos tudo isso? 

Estamos realmente sofrendo de uma maneira parecida. O povo gosta da liberdade. Na Europa, eles conseguem obedecer e ficar mais em casa. Mas, olha, há vários elementos aqui. Temos uma confiança nas instituições médicas e de pesquisa na busca por uma nova vacina. Os EUA têm investimentos nas três companhias americanas: Pfizer, Johnson & Johnson e Moderna. Mas também em outras. Temos investido na inovação. E fora que temos muitos pesquisadores brasileiros nas instituições americanas trabalhando em busca de uma vacina. É impressionante. Fora isso, há estreita cooperação, como com o Butantan, Fiocruz, a Secretaria de Saúde de São Paulo e empresas americanas. Estou muito esperançoso de que essa cooperação será frutífera. Mas, por enquanto, o povo precisa ficar em casa. São os mesmos desafios.

Brasil, Estados Unidos e outras localidades do mundo estão enfrentando incêndios de proporções nunca antes vistas e gostaria de saber se existe algum tipo de ajuda entre os dois países e como fica o discurso sobre as questões climáticas diante deste cenário. 

Estou, inclusive, preparando um artigo sobre esse tema... A cooperação entre EUA e Brasil ao longo dos anos sobre Pantanal, Amazônia, tem sido estreita. Estamos colaborando. Sei que nosso embaixador está dialogando com o Ministério do Meio Ambiente e estamos iniciando dois programas na Amazônia. Um com apoio de companhias americanas e outro com orçamento nosso para ajudar nessa área. As empresas têm, sim, o interesse em um desenvolvimento sustentável. Compartilhamos essa preocupação e só com muita cooperação conseguiremos. Logo no início da pandemia, fomos perguntar para as empresas que estão aqui o que elas estavam fazendo ou poderiam fazer para as comunidades onde estão inseridas. Foi um esforço delas e do nosso governo e chegamos a reunir U$ 53 milhões (R$ 275 milhões) que ajudaram a distribuir cestas básicas, ajuda médica a trabalhadores. E, agora, com a Amazônia também faremos isso.

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