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Domingo

15 de Dezembro de 2019

No Dia do Feirante, saiba onde nasce a feira livre

Entenda como o trabalho de todo um setor transforma as madrugadas no entorno do Mercado Municipal

Neste domingo (25) se comemora o Dia do Feirante. São 1.344 desses profissionais cadastrados na Baixada Santista e, apesar de muita gente conhecer e comprar nas barracas há anos, muitos nem imaginam onde e como o trabalho da maioria começa: no entorno do Mercado Municipal de Santos, na Vila Nova, ainda nas primeiras horas da madrugada.

A paisagem do tradicional bairro santista se transforma depois da meia-noite. As ruas, muitas vezes vazias, ficam tomadas de gente, principalmente às segundas, quartas e sextas-feiras.

Dezenas de caminhões ocupam as vias. É tudo muito organizado: à direita do Mercado, mais perto da Rua Sete de Setembro, funcionam as vendas de verduras e legumes. Já do lado esquerdo, próximo da Rua Bittencourt, corre solto o comércio das frutas.

Quem nunca prestou atenção deve se lembrar que muitas portas comerciais nas proximidades do Mercado ficam fechadas durante o dia. Isso não ocorre por conta de um abandono da área, mas sim porque esses locais abrem às 19 horas e fecham pouco antes das 6 horas.

Para tudo funcionar tão rapidamente, carregadores com seus carrinhos especialmente criados para as caixas levam mercadorias aos depósitos; comerciantes cortam, dividem e embalam verduras do jeito que encontramos nos mercados e então chegam os feirantes para buscar os produtos que serão vendidos assim que o sol raiar.

Antes do amanhecer, os caminhoneiros ainda encaminham o que resta a restaurantes, mercados e outros locais. E o entorno do Mercado Municipal, ao lado das catraias, volta os momentos de calmaria. 

Multitarefas

Muitos, como José Carlos da Silva, de 50 anos, chegam de longe e são multitarefas. Vindo como motorista de Biritiba Mirim, no Interior do Estado, ele embalava e organizava alfaces ao lado do Mercado, na madrugada da última quarta-feira (21), enquanto explicava sua rotina à Reportagem. “Eu encho umas 20 caixas, ou até acabar. Aí o pessoal da feira compra”.

Essa verdadeira engrenagem logística do mundo da feira é viável também com o auxílio de carregadores como Robson Ramos, de 38 anos, que vai e volta várias vezes para abastecer o comércio do patrão, o português Sérgio de Figueiredo Paula, de 64 anos, que já foi feirante, nunca saiu do círculo de negócio, criou dois filhos com o dinheiro dos legumes e fala com orgulho do que vive rotineiramente no entorno do Mercado. “Estou no atacado há 35 anos, mas comecei aos 15 de idade, na feira. Aqui é onde o processo todo se inicia. Vem mercadoria da roça, do Ceasa e só eu movimento umas 500 caixas, em média, num dia bom”, afirmou.

O feirante Márcio de Oliveira Rocha não economiza sorrisos para atrair a freguesia (Alexsander Ferraz/ AT)

Última parada

Após a transformação quase diária que ajuda a abastecer as barracas dos homenageados do dia de hoje, o resultado todo mundo conhece. São frutas, verduras e variadas opções de legumes vendidos com a alegria que não se encontra em mais nenhum lugar, como diz o feirante Márcio de Oliveira Rocha, de 44 anos.

“Nunca vi ninguém sair triste da feira. A alegria nossa é natural. Por isso o pessoal compra”, garante ele, entre uma rima e outra em busca de mais fregueses.

Para outros, o melhor da feira é a emoção de viver cada dia como uma história diferente, como cita a ex-presidente do Sindicato dos Feirantes Eloisa Helena Dias Santos. “Estou há 50 anos na feira, meu marido era um dos mais antigos profissionais do ramo em Santos e para mim é gratificante trabalhar com isso. Gosto de lidar com o público. Cada dia é uma emoção diferente”.

Área portuária molda o desenvolvimento

A história é cheia de referências a feiras. Onde elas estão, há o crescimento de cidades. Em Santos, não foi diferente e tudo começou perto do Porto, onde o cerne das feiras segue até hoje. Segundo o jornalista, escritor e pesquisador Sergio Willians, no ano de 1800, a Vila de Santos iniciava uma fase de crescimento importante.

“Foi quando os santistas passaram a receber fazendeiros, comerciantes, tropeiros e gente disposta a se estabelecer na Cidade para trabalhar no embarque de mercadorias”, disse Willians.

Nesta época, foi organizado o primeiro mercado santista, chamado de As Casinhas – comércio em casebres de uma porta, muros baixos e colunas até o telhado. Isso, próximo ao prédio da Câmara e Cadeia.

As Casinhas, sempre lotadas e desorganizadas, existiram até meados de 1870. Depois, foram demolidas.

Só que a desejada organização não veio e o comércio se expandiu desordenadamente pelas ruas da Cidade, principalmente na orla do Porto, com a venda de pescados e frutos do mar.

“Em 1880 as autoridades santistas criaram um mercado provisório, conhecido como Banca de Peixe”.

Só a partir de 1900 é que se pensou no melhor local para instalação de um Mercado Municipal. A Vila Nova foi escolhida e o equipamento, inaugurado em 1902. “Nas décadas de 1920 e 1930, Santos começou a se expandir e a feira foi espalhada a outros bairros”, finaliza Willians.

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