"Ao longo dos últimos anos, o que tem havido é uma redução, um enxugamento das áreas dos apartamentos que nós, arquitetos, tentamos compensar, buscando sempre uma maior funcionalidade das unidades", afirma Claudio Abdala (Alexsander Ferraz/AT) O arquiteto Claudio Abdala comemora 50 anos de profissão em 2025. Formado pela Faculdade de Arquitetura Mackenzie (SP), foi secretário de Obras e de Planejamento em Santos e possui um olhar rigoroso sobre os destinos da profissão e as tendências atuais. Crítico dos apartamentos “que parecem quartos de hotéis”, ele conversou com A Tribuna. Confira os principais trechos. Como o sr. vê a movimentação do mercado de imóveis, especialmente após a pandemia? O que eu percebi foi uma maior permanência das pessoas em casa, com os apartamentos sofrendo algumas adaptações para poder, por exemplo, permitir o home office, como se convencionou chamar. Ao longo dos últimos anos, o que tem havido é uma redução, um enxugamento das áreas dos apartamentos que nós, arquitetos, tentamos compensar, buscando sempre uma maior funcionalidade das unidades, com mais atenção, por exemplo, à ergonomia. É preciso muito cuidado com o desenho dos cômodos para que funcionem de maneira correta. Na sua visão, como seria a habitação ideal? A que tiver o tamanho da família que vai habitá-la. Mas, de modo geral, é aquela que contempla a funcionalidade, distribuída de maneira correta, ou seja, com uma área íntima, uma social e uma de serviço, que devem se relacionar de maneira fluida, de forma que os espaços não sejam perdidos com corredores e coisas que acabam não sendo de um uso mais confortável, mais agradável. As pessoas sempre preferiram uma sala maior do que “perder espaço” com uma varanda. Hoje em dia, ela já se coloca de maneira mais eficiente. Balneário Camboriú, talvez, seja o grande símbolo de uma tendência de prédios residenciais cada vez mais altos. Como o sr. observa essa mudança? Nós temos dois problemas. O primeiro é quando resulta num adensamento. Se você cria um número muito grande de pavimentos, terá como consequência um número maior de pessoas sobre aquele espaço e começa a gerar problemas na infraestrutura da cidade, de abastecimento de água, de fluxo de veículos, congestionamento, coleta de esgoto, energia elétrica. Então, é necessário muito cuidado quando se libera o gabarito sem se ater ao problema da densidade demográfica. O outro é a alteração da paisagem da cidade. Você vê, por exemplo, a cidade inteira com edifícios de 15 pavimentos. De repente, você tem um de 30. O que confere àquele edifício esse privilégio de colocação na paisagem? Eu gostava quando a cidade era mais organizada, do seu ponto de vista do skyline, da altura. Atualmente, já se vê alguns apartamentos até inferiores a 30 metros quadrados. Isso é uma imposição de mercado ou é para adequar às necessidades atuais do cliente? Isso é um quarto de hotel travestido de residência. Você faz um qu<CW-22>arto, muito provavelmente em 30 metros quadrados, onde não acredito que tenha possibilidade de vida de uma família. Você terá, no máximo, um casal, e nesse ambiente provavelmente deva se dotar o edifício de alguns serviços que nesse ambiente deverão ser providos externamente, como lavagem e secagem de roupa, ou algum tipo de depósito. Porque em 30 metros quadrados, você vai ter uma unidade habitacional, que é uma sala dormitório com uma cozinha e banheiro anexos, e é isso que se tem. Isso é muito próximo do que é um hotel. "É necessário muito cuidado quando se libera o gabarito sem se ater ao problema da densidade demográfica", afirma Claudio Abdalla (Alexsander Ferraz/AT) Sobre a tecnologia, como a internet das coisas (IoT) e outras inovações: o que isso já mudou ou ainda vai mudar na planta de apartamentos e casas? Na planta eu não tenho percebido grandes alterações. Na infraestrutura, sim. Nós já temos feito projetos, há alguns anos até, com placas para captação de energia solar nos topos dos edifícios, de maneira que essa energia seja dirigida para o consumo das áreas comuns, como elevador, hall etc. Isso tudo a gente já fez, uma década atrás, e vem se desenvolvendo nesses últimos dez anos de uma maneira bastante significativa, porque vem se espalhando para todas as construtoras e incorporadoras. Essa preocupação é muito mais presente. O que os compradores de renda mais alta têm exigido nos imóveis de Santos? A grande demanda nos imóveis de padrão mais alto é, com certeza, a existência de varandas confortáveis, que possam ter uso de fato. Os cômodos em si, nem tanto. Mas no apartamento, as áreas do casal são sempre mais privilegiadas. O quarto é mais amplo, tem uma área ampla para vestir, que são os closets, os banheiros. Fora as vagas (de garagem), Eu não sei aonde vão parar com tantas vagas. Em Santos, o Centro Histórico é um patrimônio da cidade, mas tem uma revitalização ainda muito tímida. Com a sua experiência, o que precisa ser feito para acelerar esse processo? Essa é a pergunta de US\$ 1 milhão de dólares. Do ponto de vista comercial, a própria Prefeitura poderia elaborar um plano de incentivos, de reocupação. Podemos propor uma grande discussão, chamando vários especialistas para discutir esse assunto. Como é a integração com os jovens arquitetos, que já chegam “conectados” nas novas tecnologias ao mercado de trabalho? Na última década, principalmente, houve uma migração dos arquitetos para a área de interiores. Isso me parece até uma redução da atividade do profissional, mas por pura falta de oferta de trabalho no que seria uma área mais enriquecedora, do meu ponto de vista. E também uma redução, talvez, no interesse dos arquitetos pela parte técnica, por exemplo. A discussão do conforto ambiental, da acústica, a estrutura, o conhecimento de obra. Isso tudo, às vezes, acaba afastando o profissional arquiteto recém-formado da área da edificação e encaminhando para a área de interiores. Há também uma outra coisa, que é o achatamento do valor dos honorários pagos para os profissionais. Qual o futuro da profissão de arquiteto com a chegada da inteligência artificial? Não me preocupo com a inteligência artificial, mas com a inteligência natural. Tenho visto a nossa inteligência se acomodar por falta de exercício. A inteligência artificial, e todo o resto que vem junto, é um instrumento que tem que ser usado da maneira mais inteligente. Quando eu comecei a trabalhar, a gente desenhava à mão, com lápis e nanquim. Quando chegou, começamos a desenhar com os computadores, que também é um grande instrumento de desenho. A tal inteligência artificial, o próprio computador e tUdo mais, são excelentes instrumentos para se atingir um objetivo. Mas quem decide o objetivo ainda é a inteligência natural. Não substitui a sensibilidade do arquiteto, sensibilidade profissional.