Mulher é impedida de entrar em comércio em Santos por impasse no termômetro: 'Preferi no punho'

Publicitária não deixou que funcionário do estabelecimento aferisse sua temperatura na testa por receio do laser causar algum dano ao cérebro. Especialistas comentam sobre a utilização e necessidade do equipamento

O uso de termômetros infravermelhos está cada vez mais presente na rotina das pessoas que frequentam o comércio, clínicas, farmácias, enfim, todos os lugares em que a entrada deva ser controlada para inibir a propagação da Covid-19. A publicitária santista Fernanda Matos passou por uma situação inusitada. "Fui em um centro de lojas e não me deixaram entrar", disse.

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Em Santos, a aferição da temperatura para poder entrar em estabelecimentos é norma, prevista no decreto municipal nº 8969/2020. Através dele, é possível, inclusive, impedir a entrada se houver recusa da aferição da temperatura corporal, independentemente do local do corpo utilizado para essa medição. 

 "Não entrei porque não quis medir a temperatura na testa, e preferi o punho. Me disseram que era norma da Anvisa, e tinha que ser respeitada", disse Fernanda. Ela chegou a questionar o segurança da porta sobre o porque da testa, e ele a informou que teria que ser assim, ou não poderia entrar no local.

A publicitária também tem dúvidas quanto ao equipamento usado: "Não é algo padronizado, e às vezes não leva nem um segundo, além de raramente mostrarem pra gente quanto foi medido. Como posso confiar na eficiência do equipamento e da pessoa que mede?", diz.

Consultada, a Anvisa informou que "não possui regulamentação para aferição de temperatura em estabelecimentos quaisquer". E recomenda que como o uso é comum, o usuário do equipamento deve obedecer as instruções de uso que acompanham os aparelhos.

Quanto à qualidade, a agência esclarece que tais equipamentos têm finalidade exclusiva de "triagem de pessoas em ambientes, sem indicação para fins de diagnóstico médico, portanto, não são considerados produtos para saúde, não necessitando de aprovação da Anvisa para sua utilização nem autorização para importação, fabricação ou comercialização no país, conforme a lei 6360/1976".

Questionado por ATribuna.com.br, o Inmetro informou que existem inúmeros modelos e procedências diferentes, e que "elaborou um manual de boas práticas na utilização dos termômetros infravermelhos com o objetivo de contribuir para o uso adequado do instrumento, que está sendo muito usado para mitigar os riscos de diagnósticos errados". O instituto disse ainda que os procedimentos de uso correto desses instrumentos devem estar indicados no manual de instrução fornecido pelo fabricante.

A mesma recomendação é feita também pelo setor de saúde em Santos: "A Seção de Vigilância Sanitária, da Secretaria Municipal de Saúde, esclarece que orienta os estabelecimentos a consultarem os fabricantes dos termômetros acerca do local adequado da aferição. A maioria têm a indicação de apontamento na testa e, de acordo com a Anvisa, não há qualquer risco ao indivíduo que tem a temperatura medida desta forma", esclareceu em nota.

Maioria dos modelos de termômetros infravermelhos é para aferição na testa (Foto: Reprodução/Freepik.com)

Laser causa doença?

Muitos dos usuários têm receio de uso na região da testa. Fernanda foi uma delas: "No início todo mundo dizia que era perigoso e que podia causar danos ao cérebro, por causa do laser. Eu confesso que passei a adotar o punho por causa disso, pois era tudo muito novo ainda, e mesmo depois, sabendo que não é verdade, acabei seguindo da mesma forma", disse.

E esse é um receio comum, segundo a própria Anvisa, que esclarece que os equipamentos possuem o chamado 'sensor passivo', ou seja, ele não emite qualquer radiação. "O infravermelho é emitido por todo corpo quente. Os termômetros infravermelhos só detectam a radiação emitida pelo corpo, assim como outros equipamentos, como as câmeras do mesmo tipo, adotadas em vários locais". Alguns modelos de termômetro possuem um pequeno feixe laser, apenas para apontamento do local a ser aferida a temperatura, que não tem poder de penetração nem mesmo na camada da pele, e que pode, inclusive, ser desligado.

"Medir a temperatura não ajuda em quase nada", diz o infectologista Evaldo Estanislau (Foto: Matheus Tagé/AT)

Efetividade

O médico santista Evaldo Estanislau é infectologista do Hospital das Clínicas da USP e membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia. Segundo ele, a medida de temperatura é uma atitude inócua. "Muitos pacientes são assintomáticos, outros ainda estão assintomáticos e outros, ainda, sem febre porque tomaram remédio. E todos transmitiriam a doença da mesma forma. Estudos mostram que medir temperatura em quase nada ajuda a proteger. Dessa forma, é indiferente medir ou não a temperatura, ou onde se faça. Existe realmente uma pequena diferença entre a temperatura das extremidades e do crânio, mas é desprezível", esclarece.

Para ele, apesar de obrigatória a aferição, necessidade mesmo é seguir outros cuidados muito mais efetivos. "Importante mesmo é usar máscara corretamente, manter distanciamento social, observar a capacidade de lotação do local e manter a higiene das mãos". 

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