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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

'Lockdown' é medida mais severa de confinamento e isolamento social; entenda

Medida considerada mais ríriga não é descartada pelo governo, e já foi aplicada em outros países para conter pandemia

Nessa pandemia, entre tantos novos termos, você já deve ter escutado a palavra inglesa lockdown, que em português significa algo como confinamento. É a medida mais rígida, até o momento, para conter o avanço do coronavírus (Covid-19). Ela já foi aplicada em diversos países, começou no Brasil e, em breve, pode ser posta em prática no Estado de São Paulo.

A informação partiu do prefeito da Capital, Bruno Covas (PSDB), que nesta semana indicou a possibilidade da medida durante coletiva de imprensa. Na sequência, em resposta à A Tribuna, o governador João Doria (PSDB) não negou ampliar as restrições, diante da queda do índice de isolamento social.

Há dois dias, o ministro da Saúde, Nelson Teich, admitiu, pela primeira vez, o lockdown nas cidades mais afetadas pelo vírus. Ele assumiu o cargo após atritos entre o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que deseja flexibilizar o isolamento. 

Quatro capitais brasileiras já decretaram a medida mais rígidas: São Luís (MA), Fortaleza (CE), Salvador (BA) e Belém (PA). 

Mais severas

Em caso de lockdown, as restrições para sair de casa são mais rígidas e podem implicar sanções, como multa e prisão para quem desacatar as regras. 

Cabe a cada governo definir o que pode ou não funcionar no lockdown. Em geral, regiões são bloqueadas e não se permitem o trânsito de veículos e circulação de pessoas sem justificativa aceitável, como a compra de suprimentos, de remédios e ida a hospitais. Mesmo os estabelecimentos essenciais passam a ter mais normas de cuidados. 

"Ganhar tempo"

O lockdown não é a cura da doença, mas é uma medida mais forte para “ganhar tempo”, segundo o médico epidemiologista Fábio Mesquita, membro do corpo técnico do Departamento de HIV e Hepatites Virais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais tempo para achar um remédio, desenvolver uma vacina e para que internados se recuperm e abram espaço em leitos clínicos e de UTIs.

Mesquita está desde o final do ano pasado em Mianmar, na Ásia. Ele chegou ao país quando começaram os casos de Covid-19 na China, que faz fronteira. Ali, se juntou a outros especialistas para coordenar a equipe de emergência da OMS em resposta à doença.

Em Yangon (Rangun), maior cidade de Mianmar, ele conta conviver com o lockdown. Por ser profissional da Saúde, precisa andar com o passaporte e uma carta da OMS que comprova seus serviços no combate ao vírus.

“A pessoa que estiver na rua entre 22 e 4 horas é presa. Quem estiver depois das 4 horas tem que apresentar uma justificativa para estar na rua. Os serviços essenciais continuam abertos.”

Funciona

Mesquita ressalta que o lockdown tem sido fundamental para controlar o problema, como em Pequim (China) e Yangon (Mianmar). Mesmo em Itália e Espanha, que viram o sistema de saúde colapsar e o adotaram depois. 

O médico diz que o aumento das restrições é necessário quando “o número de profissionais, leitos hospitalares e de UTIs é menor do que a demanda, os cemitérios já não dão conta de enterrar as pessoas e as ambulâncias estão todas ocupadas”.

Brasileira relata experiência com lockdown na Europa

Essas restrições mais rígidas são conhecidas de brasileiros espalhados pelo mundo, como o médico Fábio Mesquita e a jornalista Joyce Castro, que mora em Baerum, na Noruega.

Ela, os dois filhos e o marido, viveram mais de um mês sob restrições – entre 12 de março e 20 de abril, quando começou a flexibilização, ainda que incompleta. Joyce foi afastada da creche e da academia onde trabalha, mas, segundo ela, o governo presta informação e suporte (inclusive financeiro) completos para quem deixa de atuar profissionalmente.

Tais situações, apesar do tempo reclusa em casa, deram certa tranquilidade para uma breve retomada. Ela conta, inclusive, já ter voltado a trabalhar na creche. Na academia, as atividades devem voltar em breve, só que com programação ao ar livre. “Aqui ninguém usa máscara. Só quem está doente.”

Mesmo em lockdown, alguns shoppings ficaram abertos e a população (a distância) podia se exercitar. A diferença, de acordo com a jornalista, está na cultura e no cumprimento das determinações. Por isso, as medidas não foram tão duras.

Outro motivo tem a ver com a brevidade com que foram adotadas as restrições, logo no começo dos casos e um dia após a primeira morte.

A psicóloga Renata Maransaldi aponta que o isolamento tem mexido com a cabeça de muitas pessoas. “A quarentena está desencadeando a ansiedade, em quem já tinha essa predisposição, depressão, assim como a síndrome do pânico.” Ainda segundo ela, o medo da doença, da perda do emprego, de receita, e a baixa perspectiva de uma melhora desses cenários, tem levado a situações psicológicas graves. A profissional conta que são muitos com pensamentos suicida. Para ajudar a essas pessoas, diversos psicólogos têm formado grupos de atendimento gratuito. Renata participa de um desses, voltado para o atendimento de profissionais da Saúde ou que atuam nessas unidades, chamado Psicologia Solidária Covid-19.

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