Eric Comin já se aventurou entre as embarcações naufragadas próximas à Ilha (Arquivo pessoal/Eric Comin) Localizada entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo, a Ilha da Queimada Grande, mais conhecida como "Ilha das Cobras", é um dos lugares mais inóspitos e fascinantes do Brasil. Lar de uma das serpentes mais peçonhentas do planeta e diversas outras espécies de cobras perigosas, o local é considerado um dos mais temidos do mundo. Apesar dos riscos, o biólogo e mergulhador Eric Comin, que conhece a região desde a década de 1990, desembarcou na ilha em 2007, durante uma expedição científica. A experiência, conta ele, foi ao mesmo tempo aterrorizante e fascinante. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “É um ambiente extremamente selvagem”, define. Segundo ele, quem pensa em colocar os pés em terra firme precisa saber que o lugar não perdoa descuidos. “É a segunda ilha com maior densidade populacional de cobras do mundo. São cerca de 45 indivíduos por hectare, ou seja, 45 animais numa área do campo equivalente a um campo de futebol”. A Ilha da Queimada Grande é uma unidade de conservação federal de acesso totalmente restrito. Apenas pesquisadores, com autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), podem desembarcar. Não existe infraestrutura, porto ou trilha estruturada. O ambiente possui ribanceiras íngremes, vegetação fechada e constante presença das serpentes -Ilha das cobras (1.476953) Cobras por toda a parte Comin explica que, durante expedições, especialistas abrem caminho espantando as cobras do chão para que pesquisadores avancem pela mata fechada. Ainda assim, a quantidade de animais impressiona. “Para onde você olha, há serpentes. Às vezes em cima da sua cabeça”, relata. Apesar da relevância ecológica e enorme biodiversidade encontrada na Ilha, o território é classificado pelo biólogo como “selvagem” e “hostil”. No entanto, mesmo sendo perigosas, as serpentes não costumam ser agressivas. Segundo Eric, os animais ficam imóveis e encarando quem passa. “É uma espécie que vai te olhar, mas ela vai te olhar a olho no olho”, descreve. Veneno mortal Mesmo não sendo agressivas, algumas espécies de cobras da ilha, como a jararaca-ilhoa, são extremamente peçonhentas. A explicação para isso é a teoria do isolamento geográfico, proposta pelo britânico Charles Darwin. Jararaca-Ilhoa pode ser encontrada tanto nas árvores, quanto no chão (Marília Ruberti/Comunicação Butantan e Otavio Marques) Durante as glaciações, a ilha ficou isolada do continente. Nesse período, as serpentes, então, precisaram se adaptar para caçar aves que pousavam ali. Para evitar que elas voassem após serem picadas, as cobras precisaram potencializar o seu veneno. “Essa espécie se adaptou para picar e consequentemente provocar a morte imediata do animal”, explica Comin. Com coloração que mistura tons de verde e amarelo, a serpente se camufla facilmente na vegetação, aumentando ainda mais sua eficiência na caça. Visitas Para visitar o local, é necessário planejamento minucioso: ter médicos a bordo, levar soro antiofídico, estabelecer plano de resgate, comunicação e monitoramento constante das condições ambientais. Apesar de já ter visitado a ilha, Comin afirma que não pretende desembarcar no lugar novamente. Agora pai, ele prefere mergulhar e observar a riqueza que existe ao redor, sem correr o risco em terra firme. Paraíso submerso Se em terra firme o risco é constante, no mar em torno da ilha a experiência é oposta. Águas claras e limpas durante quase todo o ano tornam a região um hotspot de biodiversidade marinha, com raias-mantas, jubartes em rota migratória, cardumes de peixes coloridos, corais e naufrágios. “As jararacas são estritamente terrestres. Não há risco para quem mergulha. O entorno da ilha é, na verdade, um dos melhores pontos de mergulho de São Paulo”, diz. A parte emersa da ilha é classificada como Estação Ecológica, enquanto a parte submersa integra uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE). O acesso é tão controlado que nem mesmo pescadores podem parar por ali. Lendas e tesouros A fama da ilha não se deve apenas às serpentes. Ao longo da história, a Queimada Grande foi envolta em lendas de tesouros escondidos por jesuítas e até citada em expedições de navegadores como o britânico Thomas Cavendish. O imaginário popular chegou a associar a presença das cobras à função de “guardiãs” desses tesouros – algo que, segundo Comin, é apenas mito. “Não, as jararacas não foram colocadas para cuidar do tesouro. Mas a história é bem legal”, comenta. Visitante ilustre Jimmy Donaldson, conhecido como MrBeast, esteve em fevereiro deste ano no local para gravar o desafio de passar uma noite na Ilha. Publicado em seu canal no YouTube no dia 22 de março, o vídeo já ultrapassou 145 milhões de visualizações. No episódio, o influenciador classifica o lugar como um dos cinco mais mortais do planeta.