Coral-cérebro do litoral de São Paulo estão no centro de estudo da Unifesp (Guilherme Henrique Pereira Filho/Arquivo LABECMar/Unifesp) Uma única espécie de coral encontrado no Arquipélago de Alcatrazes, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, pode ser um aliado valioso no combate às mudanças climáticas. Presente no arquipélago da região, o coral-cérebro é capaz de reter cerca de 20 toneladas de carbono por ano na forma mineral, um processo que pode durar séculos ou até milênios. O montante é equivalente ao emitido pela queima de 324 mil litros de gasolina. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O dado faz parte de um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que destaca o importante papel ecológico dos corais subtropicais, segundo a agência FAPESP. Os pesquisadores analisaram amostras do coral-cérebro (Mussismilia hispida), espécie cujo esqueleto é formado predominantemente por carbonato de cálcio (CaCO₃). Utilizando imagens de tomografia computadorizada, eles calcularam a taxa de crescimento anual das colônias e estimaram uma produção de cerca de 170 toneladas de CaCO₃ por ano. Esse composto químico é formado por cálcio, oxigênio e carbono, elemento que também está presente no gás carbônico (CO₂), responsável por intensificar o efeito estufa quando liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis. A pesquisa foi publicada na revista Marine Environmental Research, conduzida por cientistas do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), em Santos, com apoio da FAPESP. Arquipélago de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo (Leo Francini/Divulgação/Fapesp) Para estimar a produção total de carbonato de cálcio por todas as colônias de coral-cérebro no arquipélago, os pesquisadores precisavam saber qual era a área ocupada por essa espécie no fundo do mar. Foi nesse ponto que entrou a contribuição da coautora Mônica Andrade da Silva, que já havia feito esse mapeamento durante seu mestrado na mesma universidade. O trabalho, apoiado por bolsa da FAPESP, utilizou tecnologias de sonografia para mapear o leito marinho. Recifes de coral em regiões tropicais, como os de Abrolhos e Fernando de Noronha, apresentam taxas de produção de carbonato de cálcio semelhantes às observadas na área analisada pelos pesquisadores. No entanto, ainda não está claro por que os corais presentes em Alcatrazes não se organizam em grandes estruturas recifais ao redor das ilhas, segundo informações da FAFESP. Uma das hipóteses é que esses corais tenham chegado a região subtropical há relativamente pouco tempo, entre 2 mil e 3 mil anos, o que não teria sido suficiente para a formação de recifes maiores. Outra possibilidade considerada é a frequência de tempestades no local, que pode destruir as colônias periodicamente, impedindo o acúmulo necessário para a construção dessas formações. A pesquisa O estudo revela que o sequestro de carbono é mais um importante serviço ecossistêmico oferecido pelo Refúgio da Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes, a unidade de conservação marinha da região. O cálculo do carbono capturado em Alcatrazes representa um passo inicial para compreender a contribuição dos recifes subtropicais no ciclo global desse elemento. Corais tropicais, que vivem em águas mais quentes e iluminadas e podem emitir mais carbono do que absorvem devido à alta respiração dos organismos, os recifes subtropicais apresentam características distintas. Apesar de não formarem grandes recifes, as porções rochosas desses ambientes são amplamente cobertas por macroalgas, que absorvem CO₂ por meio da fotossíntese. Isso sugere que áreas subtropicais como Alcatrazes podem funcionar como sumidouros de gases do efeito estufa, capturando mais carbono do que liberam. Além disso, o carbono armazenado pelos corais na forma mineralizada pode permanecer aprisionado por séculos ou até milênios, diferentemente do carbono orgânico gerado pela fotossíntese, que é rapidamente devolvido à atmosfera pela respiração dos seres vivos e decomposição da matéria orgânica, como explica a FAFESP. Pesquisas realizadas pelo grupo da Unifesp também mostram que o carbonato de cálcio está presente em grande quantidade nos sedimentos da ilha principal de Alcatrazes. Esses sedimentos são formados pela fragmentação dos esqueletos de corais e de outras estruturas, como conchas de moluscos, que se acumulam no fundo do mar e podem permanecer ali por longos períodos.