Pesquisadora estuda impactos do avanço do mar em São Sebastião, no litoral de São Paulo (Divulgação) A costa sul de São Sebastião, no litoral de São Paulo, vem sofrendo transformações significativas desde as chuvas extremas de fevereiro de 2023, que provocaram deslizamentos, enchentes e deixaram marcas visíveis nas praias da região. É nesse cenário que a professora e geógrafa Breylla Campos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conduz um estudo sobre o avanço do mar e os processos erosivos na região, ainda mais depois das chuvas de 2023. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo a pesquisadora, os resultados iniciais já indicam erosões significativas em vários pontos, com diminuição de praias da cidade do litoral de São Paulo. “De janeiro até junho de 2023, houve uma erosão considerável e significativa nessas praias. Alguns pontos chegam a 67 metros de erosão em geral”, aponta a pesquisadora para A Tribuna. Ela conta que as análises começaram a serem feitas no final do ano passado e comparam o antes e depois das praias após o período de chuva extrema. A ideia, explica Breylla, é fazer uma análise de série histórica para entender como é a dinâmica da linha de costa nas praias e concluir se há uma erosão crônica ou uma mobilidade sazonal. Ondas, chuvas e construções A professora explica que o impacto das ondas é um dos principais fatores que contribuem para o avanço do mar na região do litoral de São Paulo. Mas não são apenas as ondas. As chuvas intensas e o relevo da Serra do Mar tornam o litoral norte mais vulnerável. “As praias estão muito próximas da Serra do Mar, então esse efeito orográfico faz com que seja uma região com uma quantidade de chuvas muito grande, haja visto o caos que foi em 2023, com mais de 600 milímetros de chuva”, conta. No entanto, Breylla esclarece que a chuva causa um “evento erosivo episódico”, diferente das ondas, que modelam a praia praticamente todos os dias. Porém, ela alerta que, “dependendo do efeito dessa chuva na erosão da praia, talvez ela não se recupere em pouco tempo”. A professora observa que outros agentes também influenciam o processo. “As construções próximas à faixa costeira, sejam residências, rodovias ou portos, podem aumentar a vulnerabilidade. Se não houver um monitoramento feito com bastante detalhe da hidrodinâmica e do transporte de sedimentos, essas obras podem impactar negativamente as praias”, diz. Já a presença de embarcações, segundo Breylla, exerce papel menor. “Dependendo do tipo de embarcação, o quanto ela provoca ressuspensão de sedimentos, quando passa, pode ser um agente. Mas, pelo que eu já trabalhei em outras praias, acredito que não seja o principal”, afirma. De acordo com ela, as embarcações que passam pelo canal de São Sebastião não possuem tanto impacto no processo erosivo da região. Impactos econômicos e sociais Além dos danos ambientais, os efeitos da erosão têm reflexos diretos na economia local. Breylla explica que, em casos mais graves, o processo erosivo pode evoluir para inundações costeiras, conhecidas como sobrelavagem, quando as ondas ultrapassam a faixa de areia e atingem ruas e edificações. Com isso, estruturas como quiosques e calçadões podem ser impactados. Segundo a pesquisadora, o problema pode impactar o turismo local de forma indireta. “As pessoas vão deixar de ir naquela praia que está sendo impactada. Com isso, um outro grupo acaba sendo afetado, que são aqueles que vivem da economia de praia – gerando impactos sociais. É uma cascata de efeitos negativos”. Soluções precisam de base científica Sobre possíveis medidas de contenção, Breylla defende uma abordagem técnica e sustentável. “Nós só podemos dizer o que é melhor para aquela praia tendo uma série temporal longa. (É preciso) Fazer uma climatologia da praia. Como ela se comporta em diferentes cenários. Oceanográficos, meteorológicos. Como ela responde a esses diferentes cenários. E aí sim pensar a melhor solução para ela”, afirma. A professora explica que existem várias formas de fazer intervenções. Elas podem ser mais duras, chamadas de engenharia costeira rígida ou, em caso de erosão crônica, há alternativas baseadas na natureza, conhecidas como “nature solutions”. Mas, novamente, ela ressalta que, antes de se fazer uma escolha, é preciso realizar um estudo prévio. Breylla conclui com um alerta: “A praia é dinâmica por si só. Ela terá momentos de erosão, acreção e estabilidade. É natural dela. Quando nós construímos perto da praia, impactamos essa dinâmica e isso pode trazer impactos negativos”.