Praia de Juquehy aparece na lista com risco "alto" de processo erosivo com o avanço do mar no litoral de São Paulo (Divulgação/ Marcos Bonello/ Prefeitura de São Sebastião) Praias famosas de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, como Maresias, Juquehy e Baleia, estão entre as áreas com risco alto ou muito alto de erosão costeira, com o avanço do mar. A informação tem como base a versão mais recente do Mapa de Risco à Erosão Costeira, elaborado pela pesquisadora Célia Regina de Gouveia Souza, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entre os trechos mais vulneráveis estão as praias de São Francisco, Conchas, Juréia e Engenho, todas classificadas com risco “muito alto”. Já Pontal da Cruz, Porto Grande, Barequeçaba, Maresias, Boiçucanga, Baleia, Juquehy, Una, Boracéia e Deserta aparecem com risco “alto”. A avaliação é feita a partir de indicadores físicos e ambientais e atualizada a cada cinco anos desde 2002. Segundo a versão 2022/2023, a mais atual, os locais com erosão crônica também estão mais sujeitos a inundações costeiras e ressacas severas, fenômenos que tendem a aumentar com as mudanças climáticas, o avanço do mar e a urbanização desordenada. Erosão de até 67 metros após chuvas extremas A professora e geógrafa Breylla Campos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conduz um estudo sobre o avanço do mar e os processos erosivos na costa sul de São Sebastião, no litoral de São Paulo. Segundo ela, a região vem sofrendo transformações aceleradas desde as chuvas históricas de fevereiro de 2023, que provocaram deslizamentos, enchentes e alteraram o perfil das praias. “De janeiro até junho de 2023, houve uma erosão considerável nessas praias. Alguns pontos chegaram a 67 metros de perda de faixa de areia”, afirma a professora. O levantamento foi realizado a partir de imagens de satélite e compara o antes e depois do evento extremo. Agora, a próxima etapa é montar uma série histórica para identificar se o fenômeno é episódico ou se indica um processo crônico de regressão da linha de costa. Causas De acordo com a pesquisadora, o relevo íngreme e o alto índice de chuvas intensas tornam o litoral norte de São Paulo mais suscetível. “É uma região em que as praias estão muito próximas da Serra do Mar, então tem esse efeito orográfico que vai fazer com que tenha uma quantidade de chuvas muito grande, haja visto o caos em 2023, com precipitações que ultrapassaram 600 milímetros”, observa. Segundo ela, essa precipitação extrema acelera a erosão, e muitas vezes a praia não tem tempo de se recuperar antes da próxima tempestade. No entanto, Breylla explica que o impacto das ondas é o principal fator que contribui para o avanço do mar na região, especialmente nas praias mais expostas. “A costa sul é mais vulnerável às ondulações vindas do quadrante sul. Qualquer frente fria com ondas de sudeste ou sudoeste impacta diretamente essas praias”, explica. Construções próximas à faixa costeira – como residências, rodovias e estruturas portuárias – também aumentam a vulnerabilidade. “Se não houver um monitoramento feito com bastante detalhe da hidrodinâmica e do transporte de sedimentos, essas obras podem impactar negativamente as praias”, diz. Risco social e econômico Os efeitos do avanço do mar ultrapassam o campo ambiental. A pesquisadora lembra que, em casos mais graves, a erosão pode evoluir para inundações costeiras, quando as ondas atingem ruas e edificações. “Com isso, algumas estruturas como quiosques e calçadões podem ser impactadas”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, o problema pode afetar o turismo local de forma indireta. “As pessoas vão deixar de ir naquela praia que está sendo impactada. Com isso, um outro grupo acaba sendo afetado, que são aqueles que vivem da economia de praia – gerando impactos sociais. É uma cascata de efeitos negativos”. Soluções baseadas na ciência Sobre possíveis medidas de contenção, Breylla defende uma abordagem técnica e sustentável. “Nós só podemos dizer o que é melhor para aquela praia tendo uma série temporal longa. Fazer uma climatologia da praia. Como ela se comporta em diferentes cenários. Oceanográficos, meteorológicos. Como ela responde a esses diferentes cenários. E aí sim pensar a melhor solução para ela”, afirma. As alternativas, explica, vão desde engenharias rígidas – como muros de contenção e enrocamentos – até soluções baseadas na natureza, como a recuperação de dunas e vegetação de restinga, que funcionam como barreiras naturais contra o avanço do mar. Ela conclui com um alerta: “A praia é dinâmica por si só. Ela terá momentos de erosão, acreção e estabilidade. É natural dela. Quando nós construímos perto da praia, impactamos essa dinâmica e isso pode trazer impactos negativos”.